quarta-feira, 31 de julho de 2013
a minha tia e eu
Entre o Luxemburgo e Cabo Verde, uma paragem em Lisboa. Para um abraço de chegada e outro de partida. No intervalo rimos, jantamos, conversamos muito, dormimos, matabichamos e reconhecemo-nos família.
Passaram tantos anos desde a última vez...
A tia Manuela, irmã da minha mãe, filha do avô Carvalho.
o metro do aeroporto
Sendo eu tão observadora, há coisas que me escapam, ou não me interessam ou nunca pensei nelas, ou escapam-se-me porque não sou tão observadora assim como me julgo.
É que estou farta de saber que o metro encerra. Logo abre, ou reabre, diariamente.
Nunca me ocorreu a forma como fechava.
Hoje, porque precisei de regressar a casa a partir do aeroporto e queria fazê-lo de metro, não que seja o meu transporte preferido, tenha espírito de pobre ou seja uma lírica, mas porque uma viagem é apenas 1,40 e parece-me muito, muito bem, que isto de andar de taxi é muito giro mas é para quem pode, estava a dizer que, hoje dei com um portão encerrado.
Porque a partir daí fiquei curiosa, prestei atenção à hora não arredando pé deste lugar. E finalmente às 6,25, há um homem, o homem da chave que balançando um chaveiro chega para abrir o dito portão. E assim os que estavam à espera puderam ter acesso ao buraco que é o interior das estações de metro.
Afinal o metro fecha, aqui, no aeroporto, através d' um portão que se abre com chaves, como na casa de cada um.
Manualmente...
histórias de encontros da amizade
Família a gente não escolhe, os amigos sim, diz a sabedoria popular.
Apetece-me discordar. Na verdade, família a gente não escolhe. Avós, pais, irmãos, tios, primos, sobrinhos. Mas sogros, cunhados e por aí adiante, a gente não escolhe, só escolhe o marido e logo vêm atrás todos os apêndices que saltam fora quando caem de podres.
Quanto aos amigos, a gente se tem aqueles de infância também não escolheu. Não escolhe. Eles caem-nos na sopa mesmo se não gostamos de sopa. Fazem-se na idade em que as crianças gostam de toda a gente que os trata bem. Fazem-se na idade do colégio.
Das brincadeiras ao pé de casa, no bairro. Se são filhos de amigos do pai, da mãe. Ou até parentes de vizinhos.
Era aqui que queria chegar. Desta vez não rodeei muito porque isto é tudo tão transparente que não dá para muitas flores a enfeitar caminhos.
Quando a gente tem vizinhos de quem gosta como irmã, como filha ou afilhada, conhece todas as pessoas que lhes são próximas.
E conhece também os parentes candengues. Foi assim que conheci a pessoa que me faz escrever hoje.
Tínhamos nove anos e tornámo-nos amigas. E depois colegas de liceu. E depois amigas íntimas, do peito, como irmãs. Kambas para a vida, mesmo se a vida nos separou por continentes. Quis o destino e ela que a sua profissão a trouxesse a mim, com frequência e ao longo de 38 anos que completo hoje de permanência neste país.
Mas eu não vivia na capital nem nos arredores. Estive sempre a 100 kms da cidade grande e durante alguns anos apenas nos víamos nos aniversários, se ela ia a Torres Novas, ou se eu arranjava tempo e dinheiro para mais uma deslocação a Lisboa em tempo de estadia dela na cidade, que fora das férias, era de um ou dois dias. Nos últimos 11 anos, com as minhas crias em Lisboa a estudarem passei a vir a Lisboa todos os fins de semana e em período de férias e os nossos encontros passaram também a ser mais assíduos. Morámos perto uma da outra por aqui e tudo ficou mais fácil.
Muito por causa da minha mudança de vida afectiva, fiquei mais disponível para todos. Fui a Luanda 3 vezes, a primeira das quais porque ela me ofereceu o bilhete a meias com outra amiga de infância e fiquei na sua casa. Nesses períodos estivemos juntas dia e noite e foi assim o culminar da nossa amizade pela aproximação física entre nós e com a terra. Porque eu nunca tinha estado tão feliz. Também porque a idade e a experiência de vida é outra.
Reformei-me em Março último. Vim para o Olival Basto em Abril. Ela, a kamba diami ( minha amiga ) veio para Lisboa para ser operada a um joelho. E ficámos quase vizinhas. E voltámos a ficar unha e carne fisicamente. E passámos os aniversários de uma e de outra, juntas, passámos a operação, o internamento, a fisioterapia, os sábados e domingos, o centro comercial, almoços, jantares, compras, passeios, feiras, horas a perder de vista em casa, horas a perder de vista ao telefone e na internet.
Mas a vida dela não é esta. Está lá, em Luanda. E hoje, daqui a pouco, parte para a nossa terra.
E custa. E doi. E vou ficar mais só. Muito mais só. E parece estou a perder o meu braço direito. Sei como é que é isso. Já me aconteceu na vida. Também com alguém que embora tivesse escolhido, se transformou em família, tal como com ela.
Uma amiga de 49 anos não é uma amiga qualquer. É como uma irmã gémea. Não se questiona. Não se põe em causa. Não se pensa nos quês nem porquês. Acontece na vida da gente, apenas e só. E conserva-se. E ama-se. Muito.
Faz hoje 38 anos foi a última pessoa de quem me despedi antes de partir de Luanda. Dando-lhe um abraço maior do que o universo. Também hoje mais uma de tantas vezes, me despedi dela. Vai voltar em breve. Para mais uns dias. E voltará sempre.
Também será kunanga. Também será técnica superior do lazer dentro em breve, como ela gosta de tratar a condição de reformada.
Temos uma promessa feita no dia do meu aniversário. Para o ano faremos as bodas de ouro na nossa amizade e faremos uma viagem juntas. Só as duas. Ao Brasil.
É a este estímulo, esta expectativa, este objectivo que hoje me agarro para sorrir e acreditar que poderemos dentro em breve fazer uma viagem que pode ser de truz, uma vez que juntas aprontamos para valer. Juntas, uma diz mata a outra diz esfola, sempre.
É por tudo isto e muito mais que hoje mesmo que não queira, arme em forte, a dor de ver a minha querida amiga ir embora, fechando mais um ciclo da nossa vida de amizade tão longa e quase sempre à distância, é mais forte.
Deixo uma mensagem porque não sendo ela lamechas como eu, gosta pouco que me ponha com choradeiras e a única coisa que me disse quando nos despedimos foi: Fica bem e porta-te bem.
Kamba diami vai só bem ya? Vai para o teu lugar, que é na nguimbi que te pertences, que nos pertencemos. É lá que as nossas almas de filhas da terra são mais elas. Boa viagem. Vou portar-me...bem. O melhor que souber. E me der mais jeito. Ah, e finalmente posso fazer dieta. É que foi muita asneira junta. Muitos gelados, muitos pastéis de vento. E dos outros. E bolos de chocolate e não só. E pregos do vizinho debaixo. Muita radler. Enfim...foi muito bom. Nunca tínhamos estado tanto tempo juntas por tanto tempo depois de 1975.
Vou portar-me bem sim. Porque quero ir ao Brasil contigo. Quero estar no Olival ou na Codivel contigo. Quero estar em Luanda contigo. Quero a nossa amizade por muitos mais anos. Enquanto estivermos por aqui neste mundo de Deus que tem abençoado ao longo dos anos esta amizade que afinal foi como família. Nem escolhemos, mas aconteceu e fazemos acontecer sempre.
Boa viagem kamba diami. Estou tão triste...mas estou tão grata!
Beijos no coração. Estamos Juntas.
P.S. Olha só a foto. Estávamos na Barra do Dande. Mais elegantes. Lol!
Não prometemos, mas devíamos, que temos de levar a dieta a sério. Somos criaturas de risco né? Olha só a idade e todos os males que ela traz...A minha vida é feita de escalas. A intervalos. Breves momentos. Presentes. Coisas poucas. Por vezes muitas.
sábado, 27 de julho de 2013
porque hoje...é sábado!
Hoje é um bom dia. É sábado. E ... oxalá...
Que se criam sempre grandes e habilidosas expectativas ao seu redor.
Porque é sábado, se torna o dia dê do calendário. E calava-me já, que as palavras são desnecessárias. As evidências falam por si e por mim. Lembrar Vinícius é uma saída airosa para quem gagueja perante a nobreza do dia.
Falar do dia enquanto se espera dele o melhor, é o meu vício. Um dos. Como tal, siga a marinha...
Juro, eu não queria. Mas eu não queria mesmo. Tinha até jurado sangue de cristo. Oh! Qual cristo! Meter cristo nisto é um pecado mortal.
Era escusado associar o sábado ao mar. Está escandalosamente implícito e hoje eu queria era fugir do lugar comum. Não bater mais no ceguinho, coitado, pois está farto de alombar comigo. E eu estou farta de chover no molhado. A pessoa cansa-se.
Mas marinha, lembra mar, este lembra água salgada. Praia. Biquini e toalha. Mirones. Sol. Mergulho e pirolitos. Lembra até baleias e tubarões. Engatatões. Alforrecas e peixe-agulha.
Nadador-salvador. Bola de nívea. A embandeirar em arco. E a propósito, lembra bandeiras . A vermelha. E aqui paro porque o mar está revolto e se calhar vêm aí as marés vivas nesta minha morta vontade de naufragar. Vai que me teriam de salvar da minha ignorância de nadar? Vai que me deixava enrolar na onda maior e não me fariam respiração boca a boca?!
Vai que eu não teria como agradecer?
Se sigo o caminho da praia, o dinheiro vai miseramente contado não vá o diabo tecê-las e os amigos do alheio, que têm olhar de lince e mãozinhas marotas pensarem que pelo andar da carruagem sou apessoada de excessos.
Pois é, não me parece boa ideia, tentar-me a nadar, seja lá de que modalidade for num mete nojo que deus me livre e guarde, não vá eu ficar no mato sem cachorro, sendo que os nadadores-salvadores estão lá para qualquer afogamento, mas há que evitar excessivas e inconscientes pretensões.
Hoje é um bom dia. E...oxalá...mas não. Há sábados destes. Sem sol e sem mar. Sem mergulhos na asneira e no vazio. No arrependimento. Sem sul nem andorinhas do mar ou gaivotas. Sem albatrozes e outros algozes.
Ainda assim, tenho para mim que o mar me chama. Me desafia. Me provoca e me estimula. Aguarda e guarda lugar de podium para o avistar mais e melhor. Acho até que me dará uns binóculos para mais rigorosa observação.
Tenho para mim que ainda vamos rir muito. Por último, que é quem ri melhor, enquanto o pôr de sol se põe a sul. Será que estou a prever uma insolação?
Aprendi que tarde é o que nunca vem. Um dia destes, se Deus quiser, Ele quer, estarei em frente desse imenso, provocador, fascinante, tranquilizador e estiloso mar do meu sonho de sábado atrás de sábado. De estória atrás de estória. De ideia atrás de ideia. Sem ficção. Que o mar existe e eu gosto dele. Demais. Romanticamente demais...
Mas hoje, apesar de sábado e do meu romantismo, a minha onda é outra.
sexta-feira, 26 de julho de 2013
agora pensa...
A cabeça serve para pensar. Há quem diga até, cabecinha pensadoooora! Num tom jocoso que nunca percebi muito bem.
Também já ouvi que quem pensa não casa, quem casa não pensa, e pensando bem no assunto, acho que há-de haver alguma réstia de verdade nisso, nem que seja para valorizar o pensamento.
Bom, mas de facto que a cabeça serve para pensar, lá isso serve. Também...
Quem não ouviu já? Algumas vezes me disseram. Até já kandengue crescida, feita mulher de hoje, naquela hora da séca a dar para a chamada de atenção, puxão de orelhas, dedo esticado, me dizendo palavras para servir de exemplo, num abre olhos, para quê que és parva? A cabeça serve para quê? Não é para pensar? Pensa! e coisas e tal...
Sim, porque apesar deste tamanhão todo, tem muita gente se armando em mãe, avó, chefe, dona da minha vida e querendo mudar a minha cabeça, que, afinal, não serve apenas para ir ao cabeleireiro, mas também para pensar até deitar fumo. Às vezes branco, o que é um alívio para concluir que ainda não flipei dessa. E me vão dando algumas ideias que não são de ...credo, xiça, penico, uma criatura, que é para não dizer, gaja, que afinal sou uma senhora, uso saltos altos e visto-me a condizer e tudo, mas dizia eu, uma criatura começa a pensar e percebe que isto não é para todos, porque pensar doi. A dor tem danos colaterais. Então a pessoa pensa a intervalos, faz como aqueles conjuntos musicais do século passado, que tocavam duas
músicas e quando acabavam a segunda diziam, descansaaaaaaar, naquele tom de arrasar a cabeça e o coração das kanucas.
E por falar em coração, pergunto eu, para que serve o dito? No mais das vezes atrapalha, digo eu que não quero olhar para ele como um músculo que não pode parar, sob pena de morte.
Pergunto eu pensando, lá está, para que servem a cabeça e o coração? Para pensar romanticamente que o coração nos prega partidas, nos faz correr, rir, chorar, não pensar, não comer, não questionar. Que nos prende ao mundo; aos cheiros, paisagens, pessoas, terras, estações, ao passado e à memória. Que nos prende a vivências. Que nos faz amar e continuar. Que nos aprisiona e liberta. Que nos faz escolher.
E era aqui que eu queria chegar. Se a cabeça permitir e o coração concordar.
É que escolher em sintonia, harmoniza ambos.
Por isso hoje o meu telefone fixo tocou às duas e tal da manhã. Quem era? A Amizade. Querendo conversa. Se pensei duas vezes? Nem pensar!
O coração disse sim, vamos conversar.
A que horas me deitei? Às cinco da manhã. Porquê? Porque se a cabeça serve para pensar, ordena ao coração para não esperar e entregar-se ao presente que é único tempo que a gente tem.
Não disse o que é que a amizade tanto tem para falar pois não? Coisas nossas. Que nos passam pela cabeça e moram no coração.
Acordei às 9,30 horas com uma brutal dor de cabeça mas de coração tranquilo.
Encolhi os ombros e não pensei mais nisso.
Agora pensem...
m.c.s.
P.S. Obrigada Amizade.
amo-te mar!
foto tukayana.blogspot
Sei que demorei para cá chegar. Nem sei o que me deu. Ou porque não me deu para me contrariar, para me forçar...
Não costumo fazer-me de rogada se quero sentir a maresia, o iodo e o marulhar.
Movo ar e terra para chegar ao mar. Faço o que for preciso. Para me renascer. Para me enternecer, para me entregar e me revitalizar.
Porém demorei para cá chegar. Acho desafiei o meu querer.
Não dei valor para os meus sentires.
Menosprezei a minha vontade.
Ri da minha saudade.
Alterei até o rumo do destino. Fui para norte em vez de rumar a sul.
Diz que há razões que a razão desconhece. Ou será que é o coração? Ou a memória? Ou tão somente a certeza que um dia eu iria e por isso desconsegui me atirar de cabeça, mergulhar na imensidão dessa necessidade tão presente sempre, mesmo se estou rodeada de montes e serras, subúrbios e cidades, apatias e descréditos?!
Isso tudo agora interessa quase nada. Não vou remoer-me de culpas, não vou apresentar desculpas. Nem sequer me sinto arrependida.
Nada melhor que a gente fingir um pouco de desinteresse. Nada como ir com calma.
Nada como não irmos com muita sede ao pote. Tudo é preferível a um afogamento. E uma distracção diz que é a morte do artista.
É que eu apesar de tantas vezes quantas vezes desisti, tentei ir. E mergulhar. Em vão.
Ninguém me ensinou a nadar. E já não sei se me devo atirar de olhos fechados. É que o fundo do mar pode ser lindo de morrer mas o medo de me aleijar é superior.
Enfim! Neste diz que disse, baralhei-me, parece que levei com um ouriço do mar na cabeça, mesmo antes de lá chegar e à laia de vou ali que se faz tarde, fui ver o mar.
E fiz-lhe uma declaração. Não de papel selado que isso agora rareia, mas usando como garante a minha palavra, que é o que vou tendo. Um pouco mais que as existentes em qualquer dicionário manhoso.
Não estou arrependida. O mar está lindo. Bangão. Bailarino. Cálido e colorido. Envolvente. Apaixonante. Um charme.
O mar está mesmo como eu lhe tenho sonhado.
Olha, só um à parte, até porque isso da gente falar com o que não é gente parece coisa de doido e eu nem apanhei sol na moleirinha nem nada, mas parece que não bate a bota com a perdigota, até porque te ofereci resistência, tanto que me deixei ficar por aqui, mas agora que te vejo com olhos de claramente visto, te confesso... Amo-te mar!
quinta-feira, 25 de julho de 2013
na Caparica
Pela praia caminho, ao encontro das gaivotas. Mais do que a voar, gosto de as ver poisar. Dominando a praia.
Pela praia caminho ao encontro da tarde e de mim...
se eu fosse escritor
Se o dia me chama
Celebra e exige
Vou em busca do poema
Ao encontro do tema
Que me justifique
A celebração
Palavras que rimem
Com o coração
E o modo de ser
Neste desejo de escrever
A minha emoção
Ah quisera eu ter obra feita
Nos caminhos errantes da memória!
Quisera eu não verter a minha história
Para comover o mundo!
Quisera eu ser poeta, escritor
De letras e escritos, pintor
E talhar pela minha mão
Livros de inspiração
Qual talentoso escultor
Quisera eu
Espírito elevado e vagabundo
Ser
E hoje poder dizer
Indiferente
Que afinal já sei escrever.
m.c.s.
( 25 de Julho, dia nacional do escritor )
às voltas com os sentimentos
Há pessoas que não se deixam amar.
Ando às voltas com o tema e por mais voltas que lhe dê vou parar sempre ao mesmo sítio. O da convicção, que me diz que essa incapacidade advêm de outra.
Não aprenderam a amar. Não lhe sentiram o sabor, o cheiro, a beleza, a voz. A essência.
Não se deram. Não se dão. Não se amam. Estão mortos e ninguém lhes disse.
Digo eu, com risco de estar enganada, mas plenamente convencida que só um tolo recusa a se deixar amar. Só um ignorante estúpido, só um invertebrado, uma couve, não aprende a amar.
terça-feira, 23 de julho de 2013
Tralhos e retalhos de uma vida em queda livre, ou não
foto tukayana.blogspot
Hoje encarei o touro de frente.
Fui-me a ele decidida. Agarrei-o pelos cornos e ...zás.
Tirei-lhe uma fotografia.
Qual touro? É um embuste, pois é. Estou a falar em sentido figurado, entenda-se. Metáfora, sabem o que é? Claro.
Não há touro nenhum. Parece mais uma hiena. Enganadora, traiçoeira, esta ladeira, como soe dizer-se por terras de Ribatejo.
Foi aqui, mesmo aqui, a descê-la logo pela manhã no dia 3 de Outubro de 2012, que me estatelei todinha no chão, ao comprido, gritando, gemendo e chorando, descida abaixo. Parecia um avião aterrando, no meio do mato, mal comparando, que de avião não tenho nada e de mato a rua também não.
Foi também o tralho mais desastroso e dorido da minha vida de adulta. Quer dizer, tive outro trambolhão, empurrão, assim um daqueles, de cair que nem uma patinha, mas isso não é para aqui chamado e desse não parti um ombro, chafurdei na lama e nasceram-me...carago!
Já falei de cornos que chegasse, por hoje.
a realeza da vida Real
Há coisas que não percebo. Ou por outra, devo ser eu que tenho mau feitio. E tenho dificuldade em encaixar o que vejo acontecer. Ou não estou no mesmo mundo que outros, não vejo o mesmo filme, ou... sei lá.
Mas resta-me o desabafo, porque a esse tenho direito. Aka, xiça, penico! Fonix...
Nascem, comem, bebem e vão à casa de banho como qualquer mortal. Fazem filhos do mesmo jeito, acho eu. Fazem tudo como nós, mais coisa menos coisa, tirando alguns pormenores de somenos. Alguns até matam elefantes, têm amantes toda a vida desrespeitando os cônjuges, bebem demais, jogam, tomam drogas, têm vidas cheias de ócio e de nada fazer, ou por outra, fazem sim, fazem filhos fora dos palácios e dizem as más línguas que até são culpados de doenças e mortes das caras metades. Tudo como os simples e pecadores mortais da plebe.
Então, no alto da minha quase indiferença, quase indignação sou forçada a perguntar, para quê esta festa toda à volta das criaturas da família real, mais da criaturinha que nasceu agora?
Família real somos todos. Temos todos. Belisquem-se a ver se não doi. Estamos cá, com as nossas vivências. Mais ou menos reais, sim, agora pensando bem, porque estou a lembrar-me que nem sempre caio na real, mas isso são outros quinhentos.
Páro para pensar na minha realidade, bem real, se é que se pode dizer assim, mas é mesmo para dar ênfase à coisa. Gosto tanto dos meus príncipes! Amo-os de paixão. Quero coroas de flores enfeitando os seus caminhos. Quero rosas sem espinhos. Não é preciso nem ouro nem prata nem diamantes. É preciso mais do que isso, saúde, trabalho e felicidade.O meu príncipe e a minha princesa são reais. Vivem neste trono que é a vida, rodeados de desafios, motivos e incentivos.Alegria, humor, inteligência e sucessos. Por vezes vivem menos bem, menos motivados, mais cansados, tristes e desiludidos. É a vidinha deles e de cada um de nós que não nascemos em palácios mas, e se cairmos mesmo na real total? Nós sabemos que aqueles que lá nascem nem sempre são mais felizes, mais ricos, mais perfeitos, mais apaixonados, mais bem formados mais bonitos. Basta olhar para a chipala da usurpadora do lugar da avó da criaturinha acabada de nascer. Credo, cruzes canhoto, nem uma carripana estampada é mais feia que ela. Parece uma " tia da linha " toda recauchutada, sem sucesso.
Ai que a minha vida dá-me tanto que fazer! Ai que os meus príncipes são o mais importante que a vida me deu. São sangue do meu sangue, carne da minha carne e nasceram no berço que eu e o pai lhes pudemos dar.
Não são reais?
Gostava tanto que as crianças dos musseques, bairros de lata, bairros económicos, bairros em geral, pudessem nascer com direito ao amor, à saúde, higiene, alimentação e educação quanto baste, para assim crescerem tranquilamente e se tornarem nos homens do futuro...
Esses é que não são reais. Fazem parte da realidade sim, mas não têm o direito de ser mais eles. Como nós, simples mortais, como eles os que agora nascem nos berços de oiro, com coroas de diamantes, apaparicados por todos e rodeados de mesuras.
Enfim! O povo gosta duma festa alheia, de embandeirar em arco, de fazer filmes à conta de gente que não está próxima e que lhes parece tirada de contos de fadas. Vamos olhar ao redor? Tem meninos nascendo por aqui. Que precisam de tão pouco mas que mesmo assim lhes falta.
Façam o vosso filme. Sejam protagonistas de estórias de sucesso ajudando o próximo. Deixem os príncipes alheios lá nas gaiolas douradas, berços de oiro e pais de alta estirpe, grande linhagem, avôs que a gente sabe como é...podres encobertos, tal qual como os simples mortais.
Quando li a notícia desta criança que agora nasceu, lembrei-me da sua real avó, a princesa Diana e não dessa criatura que agora lhe ocupou o lugar.
E lamentei que não estivesse viva para viver o momento único e real que deve ser o nascimento de um neto. Apenasmente isso...ela que tanto fez pelas crianças mutiladas.
segunda-feira, 22 de julho de 2013
meeeedo!
Uma criatura tem uma noite de, raios a parta, valha-me Deus e nos acuda também, que quero dormir e o prostituto do sono está cá, porque está mesmo, mas não consigo olhar para dentro, que não sei o que isso é, nunca experimentei essa carência, só sei de lhe ouvir falar, mas até nem dava valor aos pobres que se debatem com essa anormalidade, dizem e agora eu sei, desesperadamente desesperada, a que chamam insónia.
Uma criatura mal adormece, depois de aquecer leite simples, nhac, nhac, no micro-ondas, que dizem que acalma, e nesse relaxamento pode ser que calhe, contar carneiros de invenção, ovelhas e todos os bichos que consegue imaginar às cinco da matina, mesmo se não têm quatro patas, e pronto, depois de expulsar do quarto o único animal com quem convive pacificamente e adormecer sem se dar conta, vai ter de acordar dali a instantes.
O compromisso a chama e é daqueles que não pode fingir que não existe. Por isso, mesmo a bater com a cabeça nas paredes, dizendo mal da vidinha, vai à sua, tropeçando nas coisas, na manhã e no tempo, que é escasso e está marcado. O querer tem muita força e mesmo que não tenha energia para fazer força, também, aí vai ela.
Ela, eu, está bom de ver. Lá estou eu a falar na terceira pessoa! Que coisa foleira!
Mas, adiante, quando finalmente volto para casa, passam horas. De aflição e ansiedade.
Adormeço no autocarro. Acordo a tempo de tocar para a minha paragem.
Quando abro a porta de casa parece estou no céu, sendo que nunca lá fui mas quero crer que será o melhor lugar do mundo para se dormir na santa paz dos deuses e sonhar com os anjinhos e todos os santos.
E minutos depois não me faço rogada. Ainda tenho tempo para pensar que é um prazer dos diabos, um privilégio de algumas pessoas, meu, poder abandonar-me ao aconchego da cama, à maciez dos lençóis, ao acolhimento da minha almofada e depois, zzzzzzzzzz apaguei.
Duas horas depois, acordei. Com o barulho da chave abrindo a porta da rua. O coração disparou numa taquicardia desenfreada, daquelas que só pára no Samouco para meter água. Meeeedo!
Nenhum dos filhos por cá. Ninguém mais tem a chave de casa. Ou...tem? Por segundos pensei naquela chave que perdi há cerca de um mês, sabe-se lá onde ou como, porquê, já que nunca perco nada, quer dizer sou do melhor para perder pessoas, momentos, tempo e até sentimentos, mas coisas, utensílios, não. Nunca.
De medo em medo, até chegar ao pânico foi outro segundo.
A chave parou. A Pitanga nem sequer se mexeu, tão pouco acordou.
Levantei-me e fui olhar a porta. Espreitei pelo óculo. Nada. Tranquilo.Tudo na mesma como a lesma.
Eu suando das mãos, palpitando-me o coração percebi, que mais uma vez aconteceu. Nunca me dei bem com sestas. Sempre acordei delas, assustada. Desta vez não foi diferente. Do mal o menos. Ninguém entrara na minha casa. Valha-me ao menos isso. É que não vivo completamente sossegada com a ideia da minha chave em mãos alheias, tipo mãozinhas de veludo. Meeeeeeedo!
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