terça-feira, 2 de abril de 2013

diário de uma reformada



Hoje, são 2 de Abril de 2013 - Terça-feira -Torres Novas ( aaaaaaaah, ainda por aí? perguntam-me espantados e eu respondo - porque não? Não há nada como estarmos de contas feitas e trocos nos bolsos )
Ontem, enquanto andava os 7 kms diários, a horas que se estivesse a trabalhar nunca andaria, telefonou-me uma colega que conheço há 27 anos e com a qual desenvolvi uma relação não só profissional mas de amizade, perguntando-me com alguma, muita, ironia, se tinha saudades do trabalho. Uma colega que foi muito próxima e que geograficamente não o é já. Também ela meteu os papéis para a reforma numa data posterior à minha, estando à espera do dia em que também passará a técnica superior de lazer. 
Perguntou e eu tive que lhe responder com toda a verdade. 
Há como que uma libertação que transborda se sou questionada. Um alívio. Uma pressão a desaparecer. Uma esperança de vida melhor a surgir.
Uma certeza a construir-se. Foi a melhor escolha. Não tenho dúvidas disso. 
Não há como ter saudades. Numa franqueza que tenho sempre quando me olham nos olhos, afirmo que não as tenho. Nenhumas. Já não as tinha nos fins de semana e nas férias, períodos em que batia com a porta e nunca mais voltava a pensar naquele mundo que tantas vezes era desfavorável, injusto, pesado, cobrador e feio. Que tantas vezes foi o pior mundo do mundo. Aquele de que eu queria fugir a sete pés e nunca mais voltar. Aquele que exigia tudo e pouco dava. 
Estou em casa há 2 dias. Como é bom estar em casa por tempo indeterminado...
É o sonho tornado realidade. Um sonho sonhado anos a fio. Que podia realizar-se se um euromilhões o resolvesse. Um sonho que nunca se cumpriu desse modo. 
Nos últimos dias de trabalho, estando nós em férias judiciais e a redução de funcionários sendo uma realidade, o ambiente prestou-se a mais desabafos, tendo chegado um colega ao cúmulo do ridiculamente impossível mas que traduz a saturação, a pressão a que somos sujeitos diariamente. Dizia ele que queria estar no meu lugar e pagava para trocarmos de lugar.
Dei comigo na mesma loucura que ele, respondendo-lhe que não me sentaria no seu lugar por dinheiro algum. Que jamais trocaria...
E na verdade não disse senão a verdade. 
Como posso eu ter saudades?
Estou no segundo dia de boa vida e sinto-me viva, livre, satisfeita e relaxada.
Vislumbram-se no horizonte algumas possibilidades que me deixam tranquila. 
Não quero fazer contas de cabeça mas o saldo é positivo.
Faria se tivesse os bolsos cheios de dinheiro para gastar à la garder!...

segunda-feira, 1 de abril de 2013

desejos


Semeio estrelas no céu
Com a minha vara de condão
P´ra dar brilho à noite breu
Que escurece o teu coração

Não feches a janela à luz
Que aos poucos te vai chegar
No brilho que a conduz
A esperança te quer abraçar

m.c.s.


domingo, 31 de março de 2013

ser um albatroz...


Alguém muito especial, me ensinou tudo o que sei sobre o albatroz.
Alguém que amava os albatrozes. E de barco, com os binóculos apontados na direcção destas aves de grande porte que fazem dois metros de abertura de asas, assistia horas perdidas ou encontradas, ao voo rasante que faziam felizes, acompanhando os barcos que navegavam ao sabor das ondas e no marulhar do mar, para sul. O sul mais a sul que este sul...
Alguém que nos sucessivos e ansiados encontros com os albatrozes os tratava por amigos e os sentia amigos, numa elevação espiritual singular.
Alguém que me transmitiu que o albatroz é uma ave que gosta de viver livremente mas que uma vez no ano vai para terra para acasalar. E constituir assim família com a sua parceira de quem é fiel a vida toda. 
O albatroz reconhece a sua parceira no meio de uma grande povoação de aves. A que conquista de novo ou mesmo aquela que é antiga. Como o faz? Dançando.
Nos movimentos se entendem e se reconhecem...a dança como instrumento de linguagem para a sedução. Para o entendimento...
Alguém muito especial que amava tanto o albatroz que dizia que se um dia voltasse de novo queria voltar albatroz.
Alguém tão especial que é dono desta frase que eu tive a felicidade de receber de presente, num passado, passado já há algum tempo, o suficiente para muitas vezes duvidar se existiu ou foi fruto da minha imaginação, mas que ficará para a eternidade:
- Gosto tanto, tanto, tanto de ti, que acho que te amo. 
E hoje, só porque é sábado de aleluia, o pequeno aparelho de televisão transmite um programa sobre o albatroz, gosto de dança, de fidelidade, de sedução, paixões, convicções, espiritualidade, de declarações de afectos e aprendi a amar o albatroz, afirmo que:
Eu queria ser um albatroz...

Na sexta-feira santa


Não conduzo. O carro, esse deixei-o ir quando o levaram. Como deixo ir quem de mim se quer afastar. Se vai é porque não me pertence. Se pertencer, de certo volta. Já dizia alguém que inventa pensamentos, ditados e outros ditos e quem sabe mexericos.
Mas voltando à vaca fria, como não conduzo, eis-me aqui deixando-me ser conduzida. 
Viagens atrás de viagens, ele é de autocarro, ele é de comboio, sempre carregada que nem uma burra, p' ra não dizer, como se diz por estas bandas, que nem uma mula, porque fica feio, nunca achei piada à palavra até porque quando algum branco ou negro chamava de mulata a quem nem era branca nem negra a resposta invariavelmente era: Não sou filha de mula, acompanhada de mil palavrões que não a tornavam, à dita, melhor pessoa. E confesso que fiquei traumatizada com essa ofensa e por isso mula é animal que não tem a minha simpatia. 
Burra está de bom tamanho porque é isso que sou, foi isso que fui. Mil vezes burra de acreditar que quem tem uma vez motorista, para sempre motorista.
Hoje em dia e embora me custe admitir olhos nos olhos da minha inércia,, o acomodar baila-me no pensamento e também uma frase batida: Agora já vais tarde, maria clara. Agora tarde piaste, que é mesmo assim. Até porque burro velho não toma ensino e deixá-los aos que gostam e sabem, conduzir e conduzir-se que eu que não conduzo, aposto com o maior entusiasmo na possibilidade de ser conduzida. Porque é a tal coisa, quem não tem cão caça com gato. E dessa espécie percebo eu...
Não há automóvel, há autocarro.
E eis-me aqui apreciando as paisagens verdejantes da lezíria. Alagados os campos com a chuva que é mais que muita, o povo ribatejano habituado que está, não lastima a sua sorte.
Onde não há água há giestas amarelas embelezando os caminhos. Já não há retorno, e pode chover até os cães a beberem de pé, pode chover a potes, pás e picaretas ou a cântaros que a primavera se instalou na natureza e até o calendário nos diz que não tarda nada e a hora muda.
E eis-me aqui a pensar que se acaso conduzisse não poderia apreciar a beleza da natureza. Não sei se sou eu a mentalizar-me, se sou só eu arranjando desculpas para os fantasmas criados e que impediram fortemente essa prática corrente e que só não o foi para mim porque nunca peguei o touro pelos cornos porque lá está, existia um motorista que gostava muito de o ser e nunca me incentivou a sê-lo também.
E eis-me aqui, convertida em viajante nesta sexta-feira santa, dizem que sexta-feira da Paixão de Cristo, e quem o diz é da terra que à época, na igreja, tapava os seus santos com panos roxos até que Jesus ressuscitasse. 
Foram tempos, foram crenças, foi outra terra, outro lugar...
Enfim, dou comigo aqui, pensando que afinal aconteceu-me fechar-se uma porta e abrir-se uma janela do tamanho do mundo para nela me empoleirar e daí poder viajar...ate ao fim do dito mundo que me sorri mais desde que a porta se fechou. Desde que dispensei, a pedido, o motorista que me conduzia e não me incentivava a fazê-lo. 
Na verdade, há males que vêem por bem e me dizem que é um facto não conduzir mas sou conduzida pelas mãos de Deus o que é uma benção e o meu mundo não parou de crescer.
E eis-me aqui, reflectindo porque hoje é sexta-feira santa e estou em viagem...

reflectindo

A intransigência é uma falsa questão. Engana e enfurece o próprio.
Castra-o.
Digo eu, que não gosto de beber do meu próprio veneno.

o último dia, a última vez




Acordei cedo. É o meu último dia de oficial de justiça. Em Alcanena. 
Sempre me considerei funcionária do tribunal de Torres Novas, numa posse conferida pelo estágio e pelos anos de funcionária que ali trabalhei, mais de 20, porém foi em Alcanena que passei a última década e mais uns trocados e onde recuperei alguma tranquilidade no desempenho das funções. 
Nunca pensei que o processo de soltar amarras a obrigações que duraram 34 anos, fosse tão pacífico. Sei quem é responsável por isso mas adiante, sempre em frente que atrás vem gente e isso já não interessa nada se estamos na rampa final. Não há como voltar atrás, não quero voltar atrás. 
Houve no meu acordar sobressaltado ao longo da noite e no meu madrugar um sinal de que nada se faz num estalar de dedos nem tão pouco se fecham portas sem olhar para trás. Eu não o faço. Porquê? Porque eu sou passado. Construí-me e reconstruí-me nele até chegar aqui. Não me persegue...muito, mas isso são contas de outro rosário.
Às 7,30 estava pronta e não evito censurar-me por não ter sido assim ao longo dos tempos. Andei a fazer tangentes ao sono, ao banho, ao pequeno almoço e aos autocarros e boleias, às horas, num rés vés campo d'ourique stressado e muitas vezes escorregado e acabado no chão em quedas aparatosas e sofridas. 
Liguei à minha boleia. Não respondeu. Adiantei-me para o computador. A fim de ver as últimas. Alguém d'um grupo a que pertenço se passou da marmita comigo ( educada e polidamente ). Não sei se estou a envelhecer, até porque hoje é último dia no activo, se não me reconheço a deixar a falar quem comigo se quer pegar ou não concorda, não sei se porque não estou para aí virada, merdices, cansam-me. Nego-me a fazer parte delas. Não me apetece, acho enfadonho, pequenino e pouco inteligente. Cansei do diz que disse. As redes sociais têm esse perigo. A bílis das vesículas que têm pouca saúde, castigadas que são pelas coisas gordurosas, a carência de chá, só que tomassem o de caxinde e o ócio a deixarem falar o espírito um pouco doente também dá por vezes momentos de alguma crispação que não faz bem a ninguém e nada se aprende senão por vezes engolir sapos que são de difícil digestão, convenhamos. 
As redes sociais já sabemos têm de tudo e tem também gente que acha fantástico o facebook mas o propósito maior é o de cotucarem quem por lá anda calma e serenamente e a passo certo. Será que não nos acompanham na passada e ficando para trás se vitimizam disparando em todas as direcções? Não o sei. Isto sou eu a reflectir sobre pequenas divergências, pequenos incidentes. Braços de ferro numa força que comigo ficam a ganhar porque eu nem na língua a tenho, temos pena. 
Acabei desligando o computador porque tenho mais vida para além disso e hoje é o meu último dia no tribunal. 
Isso sim, parecia que não mas está a mexer comigo. Depois do livro de ponto assinado não mais colocarei a minha assinatura nos dias. Não terei mais faltas nem férias. Não me sentarei mais na secretária nem entrarei com a minha password no computador de trabalho. Não conversarei com a estrangeira que vem tirar o registo criminal para obter residência em Portugal nem contarei mais nenhuma certidão. Ao telefone não voltarei a dizer: Estou sim, Tribunal de Alcanena, boa tarde...
Isso sim, está a dizer-me que é a última vez. Que foram muitos anos. Que se acaba aqui a minha carreira. 
Que serei reformada, aposentada, livre ou lá o que fôr.
Já estou na rua, a caminho do autocarro. Esta será a minha última viagem com o Rosa, com o Júlio, com as múmias paralíticas do banco da frente, sempre prontas para afiarem as unhas a quem chega, aquelas a quem sempre chamei velhos do Restelo, com a senhora ucraniana que já me tem oferecido boleia que nunca precisei, com a outra que vem do Entroncamento e com todos os ocasionais. 
Na rua o ambiente é o de sempre, de quem trabalha e tem de se deslocar. O TUT passa apressado como que a dizer-me que são 8 e 10. Apresso mais o passo. 
- Querem ver que até hoje perco o autocarro?
Mesmo no último dia, na última vez, há coisas que nunca mudam...


aleluia...


Toca o sino da igreja
Aleluia, aleluia 
É sábado e o sol brilha
E ensaia uns passos de dança
Ressuscitando a minha esperança
No homem...
Na idéia d' um ser tão justo
Tão sábio e tão humilde
Espalhando a fé, a doutrina
No mar, no monte e na mina. 
Há gaivotas esvoaçando
Há vozes ao longe chamando
Há até no madrugar
A Páscoa a fazer-se notar
Aleluia, aleluia...
E o mundo está tão diferente
Tão injusto e descontente
Sem vontade de orar...
É sábado e acordei
Renovando votos de paz
Perdidos, mas que encontrei
Nos dias que já vivi
Nas penas que já sofri
Nos sonhos que quero sem fim
Para o povo, que o merece
E também p'ra mim
Aleluia, aleluia
A esperança é última morrer
Já dizia o pensador
Que acredita na palavra,
Na força da intenção
Cristo em nós vai viver
P'ra sempre permanecer
Se o aceitarmos no Amor...
Já me diz o coração. 

m.c.s.

sábado, 30 de março de 2013

boa Páscoa...


Boa Páscoa...

Uma criatura chega a uma idade que já viu quase tudo. Já passou por quase tudo, já ouviu quase tudo. O quase que falta é o que nos mantêm interessados na vida. E ainda nos vai surpreender.
Esta noite recebi um convite para jantar num restaurante todo XPTO, na baixa, mais precisamente na Praça da Figueira, a escassos metros do local onde vou dormir. E aceitei de olhos fechados. Na hora. A companhia, a melhor do mundo.
Meu pulmão, meu coração, meu aconchego.
E fui. E fomos. E o restaurante é óptimo. A comida muito boa, os empregados muito simpáticos e a relações públicas cinco estrelas. Chama-se Honra e pertence ao Olivier. 
Até aqui, tudo normal, foi mais um jantar. Gostei bastante e amei estar de companhia da minha cria mais velha que hoje particularmente estava linda, faladora e bem disposta. Mas foi mais um jantar. 
De regresso a casa, um grupo de pessoas jovens estava parado à boca da passagem para a travessa. Dois dos jovens sentados nas escadas de acesso à travessa bebiam cerveja como o fazem no Bairro Alto ou no Cais do Sodré . À nossa passagem quase que em uníssono os dois jovens disseram um boa noite sonante que me contagiou respondendo-lhes no mesmo tom.
Mas não ficou por aí. Ao chegarmos à travessa, como que tivessem andado a semear jovens idênticos pelas ruas da baixa, outro encostado a uma parede, mijava. Perdoem-me a palavra mas dizer que estava a urinar, ou a fazer xixi, é pouco. A criatura mijava mesmo para a parede. Contra a parede. À socapa. Na calada da noite. No escuro. 
Mas esta forma de verter águas, como se diz aqui na tuga, fazer menores, como se diz na minha terra nada tem de surpreendente. Os homens têm a maior facilidade em desapertar a braguilha e aí vai disto que é democrático. E a culpa foi das mãezinhas deles que quando começaram a andar e pediam para fazer pipi, as próprias agarravam neles, coitadinhos dos meninos, os seus ai jesus, escolhiam um sítio recatado perto de uma parede e zás. Se o pimpolho não conseguisse, ainda faziam o típico xxxxxxxxxxxxx, para que fosse embalado e desatasse a fazer os ditos menores. Todos sabemos que temos culpa.
Por isso nem articulei um som que fosse, passando ao lado e com o olhar longe daquele espetáculo deprimente.
O que me surpreendeu foi que enquanto a criatura desenvergonhada vertia águas agarrado à minhoca, dizia: Boa Páscoa! 
E eu que cheguei a esta idade e já ouvi quase tudo e mais um par de botas nunca tinha ouvido votos de boa Páscoa, enquanto alguém mijava. Mas, porque a idade não deixa que me desconcerte, retribui ecoando na travessa: Boa Páscoa para si também.
Acontece-me cada uma!...

quinta-feira, 28 de março de 2013

ponto final

E pronto...ponto final numa carreira de 34 anos.
Zás! Bati com a porta.
Não quero olhar para trás, mas não sou pessoa de virar costas só porque sim...
E isso custa...
Acho que vou chorar...longe dos olhares indiscretos.

Se fosse lamechas dizia agora que: Quero o colo da minha mãe.
Eu sou lamechas...

quarta-feira, 27 de março de 2013

Joe Bonamassa & Beth Hart - I'll Take Care Of You

Viva...


Há dias que a felicidade me acorda para a vida e eu percebo que acordar é o início d'um dia 
singular. Digo eu, que sem motivo especial estou de bem com a vida. Viva...

m.c.s.

constatando


Quanto mais velha, mais lúcida. Quanto mais lúcida mais indiferente aos mal intencionados. 
Digo eu, que faço vista grossa, hoje mais que nunca. 
Será dos óculos?
Não me parece, pois ainda hoje foram bem limpos, é mais de...ah deixem p'ra lá, pois estou 
nessa de - vozes de burro não chegam ao céu.

m.c.s.

terça-feira, 26 de março de 2013

a minha manhã


Nove e qualquer coisa. Saio de casa. Há pouco chovia por isso é urgente o chapéu.
Na rua não está frio nem chove. Olho adiante enquanto penso que devia morar mais perto do metro. Que canseira! 
Quando já avisto a passagem aérea que vai do Sr. Roubado a Odivelas, passa o metro.
- Merda! Pouca sorte. E eu cheia de pressa...
Quando vier de vez para cá tenho de voltar ao passe. É muito mais prático e económico, penso enquanto tiro o cartão verde que fiz no domingo com algumas viagens. 
O metro chega entretanto, que, apesar de eu estar de férias, a vida continua, o país não pára e é terça-feira. Vai cheio que nem um ovo. Nem um lugar disponível. Agarro-me ao varão enquanto aperto a minha carteira de encontro ao peito não vá o diabo tecê-las e umas mãozinhas  astutas me roubem. O computador na pasta de traçar e nas mãos, dois sacos e o chapéu de chuva. 
Dê lá as voltas que der ando sempre com a casa às costas. É quando assim é que me lembro da minha ex-vizinha, mãe dos índios e mulher daquela criatura mansa  que eu sei lá, tão mansa que quando ela se pôs ao fresco, a criatura não desmanchou o sorriso pateta que exibia, chovesse ou fizesse sol. Quando me avistava ao fim da rua ou se cruzava comigo dizia: Olá vizinha, sempre carregada de sacos. Não sei se era uma cassete que disparava ou  se tinha razão. 
O homem barrigudo de camisola encarnada toca-me na mão que agarra o varão. Áspera e calejosa arranha-me os dedos. Grunhe, que é o termo, uma desculpa e olha para o lado.  A rapariga negra de cabeleira postiça e rosto bonita, assiste e apesar de estar ao telefone, olha-me nos olhos, ergue as sobranceiras e sorri. Saio no Campo Grande abandonando a linha amarela e corro para o metro da linha verde. Corro sempre. Deviam estar mais sincronizados nos horários. Entro na última carruagem. 
De novo me agarro ao varão. Ocorre-me a dança. Pisco o olho ao meu eu mais divertido. Havia de ser bonito se eu endoidecesse e desatasse a despir-me para iniciar a dança do varão. Han, maria clara? Estás mesmo boa ou piraste de vez? 
Apesar da hora ser de ponta, das caras carrancudas, dos jovens ouvindo música através dos fones, alheios ao que se passa à sua volta, apesar das pressas, não estou nem contrariada nem mal humorada. P'ra quê? Começa o corre corre dos pedintes que com latas, garrafas d´agua cortadas ao meio e vazias, vão passando e numa cantilena demais conhecida vão chamando a nossa atenção.  
Na estação dos Anjos entra alguém que quase me leva pelos ares. Senta-se de seguida como que por milagre. Uma mulher ainda jovem levantara-se para que se sentasse. Balançando-se para a frente e para trás, o jovem é olhado por todos os que vão à sua frente. Os movimentos assemelham-se ao que os autistas fazem. Atrás dele entrou um cego que já conheço há dez anos nestas andanças. Pedindo e batendo com a bengala na caixa de madeira, chamando a atenção, é mais isso. O jovem levanta-se e tira umas moedas do bolso das calças. Tenta falar com o cego, mas apenas sai o som não articulando palavras. Todos olham de novo para o jovem. Sai a pessoa que ia ao seu lado. Ele oferece o lugar à mulher que ia no seu. Ela recusa. Eu sento-me. 
Ele olha p'ra mim. à frente dele uma mulher toda empiriquitada olha-o.  Ele mexe-se nervoso. Na estação seguinte levanta-se e muda de lugar. Inicia o baloiçar. Mais uma vez todos os que vão à sua frente o olham. 
Saio na estação do Rossio. Na saída da Praça da Figueira. Junto às escadas o homem de sempre. Alto moreno de barbas. Umas vezes tocando outras quieto. Os cães junto dele. Do outro lado os cobertores e os sacos. No domingo, este homem que agora está calmo como sempre que aqui passo o vejo,  falava inglês  como se não houvesse amanhã. Repetia esquizofrenicamente, funk you, funk you e eu que não costumo estar nem aí apeteceu-me dizer-lhe funk you p'ra ti também, meu. Hás-de cá vir pedir-me uma moeda que te conto um conto, mas ia acompanhada e calei-me.
Não chove em Lisboa. Saio para a rua. À boca do metro uma loja que vende camisas e camisolas, casacos e outras peças. D'um mau gosto que até arrepia. Do interior, música aos berros. Um homem de camisa aos quadrados numa extensão do mau gosto da sua loja, lê o jornal. Indiferente à música e a quem passa.
Escuto a música e sorrio. Africana. Faz sentido o sentido de oportunidade. O mundo é dos espertos. Os africanos passeiam-se entre as praças do Rossio, esta e a da estação dos comboios.  Deve ser um chamariz. Olho de novo. Não bate a bota com a perdigota. Ninguém ali é africano. A música não é conhecida. O que me surpreende. Porque se fosse, Irmãos Verdade, Bonga, Paulo Flores, Tito Paris, fazia sentido. Os portugueses gostam. Mas esta música é daquelas que só quem bebe água do Bengo, senta na esteira com a lavadeira da casa a comer feijão d'óleo de palma, compra doces de jinguba na rua, ou gosta de múcua, cola, gimboa, insulta em kimbundo, é que gosta.. Sente-a porque a tem nas entranhas, nas origens, nas raízes que nascem e crescem dentro e fora de si. Dentro de nós...
Avanço pela praça atravessando-a. As pombas indiferentes à minha passagem correm sem levantarem voo  As gaivotas misturam-se em busca dos pedaços de pão e restos de comida que sempre ali existe. A cor do dia assemelha-se ao cacimbo de Luanda. Inspiro com força. Como se o ar da minha terra atravessasse o Atlântico e chegasse até mim para me desejar bom dia.  Sinto um arrepio na pele. Não, não estou em Luanda...ainda. Isto é Lisboa, numa manhã de primavera. Estou de férias e tenho que ir ali mas volto já...   

conversetas com o eu que há em mim...


Chove no Olival Basto. E eu que preciso de ir para a Baixa de Lisboa, já já daqui a meia hora...
Estou um pouco farta deste tempo húmido, pegajoso, melancólico e feio. 
- Como é que é Primavera? Impõe-te minha! 
Ou estás na tua e nós que nos tramemos?
Andas a pedi-las...
Vê-se mesmo que és mulher ( cai-me o carmo e a trindade ). A fazeres-te de díficil e cara. 
Olha, se eu te prometer uma atençãozita, assim em modo de poema, mudas isto?
É que não sou só eu que reclamo e olha que eu não sou de grandes queixas. Todo o mundo neste retângulo de terra aqui no sul duma Europa castigadora que tem uma mulher horrorosa a lixar-nos a mona, os bolsos e a vidinha, todo o mundo mesmo, diz que se ao menos os dias fossem de sol...
Esperança, Primavera, esperança. Tu sabes do que falo. Perfume das flores, sol, dias maiores, encontro com o mar, sonhos coloridos. Preparação para a praia. Fins de semana alegres. Calor. Gelados e sobremesas. Saladas e cerejas. Cerejas, Primavera... ai quem mas dera já cá.
Noites estreladas, luas cheias espelhando a sua luz nas águas do Tejo, grilos, pirilampos...
Olha, queres música mas eu não estou p'ra dá-la. Basta por agora até porque estou cheia de pressa. 
Bem, tenho de procurar um chapéu de chuva e fazer-me à vida, à capital, ao dia que me espera mas não muito. Quanto baste....
Assim como assim, acordei. A minha gente está bem e hoje é terça-feira. Quem sabe me sai o euromilhões?
Isso é que era! Passava já por cima da primavera, olha, temos pena, mas era mesmo assim, e instalava-me no verão do meu sonho desta noite. Sem olhar para trás...
 

segunda-feira, 25 de março de 2013

viagem


Mãe é Mãe...e não há nada a saber. A dizer. A fazer. 
Quer dizer, mãe mesmo ignorante e silenciosa, faz tudo pelas suas crias. Tudo quer dizer tudo...
...deita-se às duas e meia e acorda às seis. Perdida de cansaço e sono. Pálpebras pesadas, securas, dor de cabeça. Preocupação e aperto no peito.
Olha a sua cria nos movimentos de preparação para mais uma saída, de lágrima no olho. 
Não quer chorar. Mas o lábio e o queixo já estão a tremer...e o coração, ai o coração, apertadinho. Mil tenazes sem dó. Magoando, magoando...
O estômago parece que cai na fraqueza mas não há fome. 
A saudade começa ainda na presença. 
Um telefonema para a praça de taxis diz que está na hora. 
Lá fora chove um chuvisco teimoso, cadenciado e frio. No lusco fusco da manhã se iniciando, o coração de mãe se acinzenta. 
Sacode a cabeça, olha o vôo dos pombos por cima do rinque em frente da casa. Olha os verdes sem fim da primavera que pinta de esperança o monte que a separa da cidade grande. E eleva os olhos aos céus.
- Meu Deus, protege o meu filho.
O abraço chega quando o taxi estaciona em frente da casa. O abraço parte...
Fica o calor, a voz, o aconchego. O amor. 
Fica a vontade de o ver feliz. A sua cria...sangue do seu sangue...
- Estás tão bonito, meu filho! recorda. 
Fica o sorriso complacente de filho que dá o desconto, ao amor de mãe cego e surdo.
Fica o cheiro, a pele, o beijo. O amor. 
- Meu Deus, protege o meu príncipe...

família

foto tukayana.blogspot

renascer


Nasce a flor no meu jardim
Neste sábado de primavera
Espalha-se o perfume de jasmim
E o sol vem até mim
Num doce e morno abraçar
Embrulhado de quimeras
E canções de embalar
Nasce a esperança
Numa ambição redobrada
Na nova estação.
Brota-me a emoção
Tatuada na minha pele
E no verso que me faltava,
Ao poema por inventar
Nasce a vontade de amar...
Tocam sinos dentro de mim
Preparam-se foguetes p'rá festa 
Chamo a fanfarra e o kimbanda
Ofereço a mão para a sina
E nas linhas vejo caminhos
E pontes
Que me levam p'rá outra banda
Onde quero ficar
Bebendo nas velhas fontes 
Para voltar a sonhar...
Ofereço-me às noites estreladas
À lua que enfeita o céu
E também às madrugadas
Ao chão barrento me ofereço
Ao crepúsculo feiticeiro
E ao albatroz do sul
Que a voar é primeiro
Ofereço-me às tempestades
À onda e ao seu marulhar
Ofereço-me feliz
Qual alegre petiz 
Ao desejo de recomeçar.

m.c.s.

explanação



Dizem que as mulheres são invejosas, ciumentas, más com as outras, suas semelhantes.
Trabalhar com mulheres? Deus que me livre. Todos dizem. Até mulher. 
Fala barato, estão aí. E intriguistas.  Linguarudas, inconvenientes, maldizentes. Mesquinhas, sarcásticas, snobes e outros " atributos " menos nobres. 
O homem diz que ela é um bicho raro, complicado, medroso,  moído e muito chato. Que cabeça de mulher ninguém entende, nem ela.  Que chora com razão e sem ela. 
Quer tudo o que não tem e tem tudo o que não precisa. Se ofende à toa, ri do que não tem graça e nem sempre tem graça quando ri.  Diz que é obstinada, mandona, regateira. Quer ter sempre razão. Que muda de humor como de cueca, quer estar sempre onde não está e se acha muito. A rainha do sabá. 
Diz ainda que mulher é burra e inventou até a loira para dar " pancada ". 
Diz também que fala demais...
Não é?
Eu que sou mulher sei que é assim. Homem descomplica mas foi atirando farpas e a mulher caíu que nem patinho e acho até que para agradar ao homem, concordou, mesmo se não é loira. Claro... A descrição é perfeita parece que estou a ouvi-la num falso e íntimo momento de intimidade. Depois, enfiou a carapuça e vestiu a camisola desse " bicho " raro, desse ser que ninguém entende nem ela. E muito depois arrependeu-se e revoltou-se, sendo que podia dizer-se que já foi tarde, mas não, ainda foi a tempo. Digo eu e todo o mundo que tem olhos na cara para ver...
Os tempos estão aí a dizê-lo.
Mas enquanto isso, mulher foi parindo e dando seres; mulheres e homens. E criando umas e outros de forma diferente. Para não serem semelhantes. Deu nisto. Chegamos aqui neste ponto da vida. 
O caminho foi árduo para a mulher, favorável para o homem. 
- Ah porque ele saiu de casa para ir pescar e caçar enquanto ela ficou na caverna passivamente esperando alimento, dizem. 
Ah pois é. Ainda hoje, de lazer, de vaidade, de precisão de instintos duvidosos, o homem sai de casa para caçar e pescar e muitas vezes aves raras e nem um dedinho apontando. Que mulher pode até disparar,  ferir, mas não mata.  No mais das vezes...
Enfim, mulher é isso tudo aí na pior das hipóteses e dependendo do ponto de vista. Até por ser espontânea e  genuína sabe olhar-se ao espelho e vislumbrar um ser com todos os supostos defeitos e qualidades. 
Sabe ficar quieta e se interrogar, embora o mundo ache que está calada porque está triste, amuada, inventando sarna para se coçar, ou congeminando alguma para se vingar, se evidenciar, ou mesmo só para se envaidecer. Só para o seu melhor viver. O tal bem-bom que dizem que mulher gosta. E...? Bem-bom todo o mundo inteligente devia gostar.
Ah e não batam mais no ceguinho, martelando na tecla que mulher quando não quer sexo inventa dor de cabeça. A cabeça de mulher pode ser inventora mas se calhar por isso mesmo de vez em quando doi ( até de ouvir tanta baboseira )  e quando doi não há passagem de mão pelo pêlo que alivie e convença que é remédio. Mulher sabe o que quer e quando não quer não há nada a fazer. Como sempre devia ser...
Sou mulher. Conheço esse mundo feminino porque sou observadora e não cusca. Porque sou curiosa e não quadrilheira. Porque a minha inteligência tem que jogar a meu favor e não porque sou burra, teimosa, abelhuda ou oportunista. 
Conheço a mulher porque me conheço um pouco nesse limite que quer queiramos quer não, existe, e ainda bem e posso dizer que mulher é complicada porque o mundo a complicou. Num oportunismo feroz. Num salve-se quem puder e quem vai poder vai ser o homem. Mas também porque mulher gosta de ser muitas coisas. Do desafio. Do risco. De se pôr à prova e de se ultrapassar. 
Gosta de desfazer nós. De fazer da sua vida, palavras cruzadas. 
Gosta de estar na sanita, falando ao telefone e lendo a última página do seu livro preferido ao mesmo tempo que se olha no espelho e descobre mais uma ruga, enquanto ralha com o cão que está a roer o seu chinelo e acabou de fazer um buraco na sua collant acabadinha de estrear e que lhe custou os olhos da cara... 
Sou mulher. E gosto. Nem me imagino não o sendo. Ou imagino? Pois. Se não o fosse, queria ser assim como sou. Seria um problema porque homem recusa ser curioso, sensível, sonhador, ter medo, dúvidas, angústias. Homem que se diz homem quer ser durão, caçador, machão. E os outros, os que não o são, não são...
Se eu fosse homem seria com certeza dos outros, porque defendo que homem e mulher é tudo a mesma coisa. Ser, criatura, pessoa sem sexo nem distinção. Apenas mente e coração.
O resto, é opinião. Pormenor. Detalhe. Nunca condição.
Gosto da minha existência. Porquê? perguntarão.
Porque sim, responde a mulher. Porque...enfim, paro aqui ficando para uma próxima a explicação pormenorizada da questão,  porque por ser mulher é também isto. Um defender acérrimo da nossa posição, uma longa explanação acerca do assunto.
Uma seca, dirão os machos. Uma seca porque não falo de sexo, de gajas, de engates. E a elas parece que as estou a ouvir: Que seca! Apre! Estou eu aqui a perder tempo! A cansar a minha beleza...Porque não falo de fazer o amor, de gajos e de flirts. 
Afinal, não somos todos humanos? Bruxo! A massa é a mesma. É que o segredo não está na massa mas no que lá se põe...
O segredo? Chama-se conteúdo.

Já sou Titivó

Bem vindo Isaac!

Kaluandas minhas kambas

As Kalus em Luanda num almoço de fraternização onde eu não estive fisicamente mas de alma e coração acompanhei esse sábado feliz.