terça-feira, 11 de novembro de 2014

voar

De alma cheia
E leveza no olhar
Me banhei de sol e luz 
Pelos caminhos 
Que a corrente persegue até ao mar
Purificada
Às asas d' um albatroz juntei
Linhas paralelas 
Outras perpendiculares 
Que desenhei
Cruzei os céus
E pintei
De cores singelas
E movimentos circulares
Estrelas
E brilhei...
E sonhei
Pelas mãos de um anjo voar
E voei
Daqui, até ao luar.

m.c.s.

anoitece na cidade

Anoitece na cidade... 
Olho a chuva que cai, teimosa lá fora. O vento que sopra nas árvores. O monte que se enegrece. 
É um tempo de mudança. De despedidas e perdas. De desesperança.
Não fora dias de sol e muitas luas, flores, beijos e abraços, encontros e repastos e outonava-me na concha antiga que se bem abriga, melhor isola e castiga.
E acrescenta cansaço e dor à vida.
Anoitece na cidade... 
Na penumbra desta sala há um silêncio secreto. Consentido e merecido. Como um hino mudo, às leis da natureza. E às suas forças. Que não se cumpriu.
Um sol posto que não se viu. Um carinho que não se sentiu. Uma emoção que não arrepiou. Uma estrela cadente que não me encantou. Um frio que de mim se apoderou. 
Há um acordo mental fazendo fé na palavra que rompe os silêncios e ecoa no espírito em mudança.
Há uma gata dormindo no sofá de que ganhou a posse. 
Uma música melancólica fazendo jus à presença nova do tempo que em outono se transformou.
Há a preguiça e a displicência travando o instinto e a vontade.
Há a nostalgia d' outros dias, outros montes, serras e rios. Outras fontes.
Há a saudade de ti. 
Anoitece na cidade.
Foi um dia que já partiu abraçado à noite que chegou. Neste Novembro que feliz se instalou.
Não fora o cenário que me envolveu e protegeu e seria pouco mais que uma réstia de nada. Assim sou tudo.
Anoitece na cidade...


a lágrima

Fria,
Mais fria que o gelo gelado da incompreensão
Salgada,
Ainda mais que as águas do mar, na sua imensidão
Pesada,
Mais que os ombros vergados ao peso da solidão
A lágrima...
Formosa
Transparente
Audaciosa
Como uma bola de neve, resvala, se apaga, mas rola
E queima
E marca a nossa história
E deixa chagas na memória...

m.c.s.

não digas nada

Não digas nada
Não quebres o silêncio das vogais
Palavras que ficaram por dizer
Que eu quero dançar
A melodia do olhar
Que ao coração me há-de prender
Não digas nada
Sente a nota musical
Ao toque da minha mão
Há uma prece no ar
Harmónica, celestial 
Em secreta união
Não digas nada
Que o tempo fala por nós
E o som da sua voz
Tacteia, sussurra e soletra
E numa festa desperta
Hinos de entrega e doação
Que inspiram e rodopiam 
Tocando a minha emoção
Não digas nada... 

m.c.s.

existência


Há uma insónia a cada madrugada 
Que não dorme
Na minha vontade de te pensar
Há uma música, 
Uma dança, 
Um desejo depois, de te abraçar
Há um beijo
Dois, três
Há a ousadia, 
O pecado a seduzir
A transgressão
A desafiar a razão
Em que me perdi
Há um pôr de sol e o mar
Há até o ensejo de te amar...
Quando o sol traz uma esperança de ti
Sorrio
Simplesmente...
Depois, penduro o sol na minha manhã
E sorrio à ideia de não chover amanhã
Há já na memória
Um capítulo bonito da história...
m.c.s.

regressar


" Ó camponesa formosa...vem clarear-me a tristeza,,. vem clarear-me a tristeza com a luz do teu olhar...mostra-me o trilho florido, que ao teu afecto conduz, dá-me o teu abraço, a morada, dá-me o teu abraço, a morada, sou um ceguinho sem luz..."
Ainda a melodia, ainda a morna ouvida quando deitei as emoções no leito antigo, ainda o dia levando-me para os braços da noite avançada nas horas. Ainda o sono. O coração adocicado. O frio. O pijama de inverno. As botas de lã. As fotografias antigas. Álbuns de uma vida vivida. Ainda o aconchego. A adrenalina que disparou. Ainda a casa de morada de família, reclamando por mim. As boas-vindas, os objectos. As fotografias. Álbuns de vidas minha e dos meus entes mais queridos. O seu cheiro. Falando-me palavras de aconchego e amor. Sorrindo-me. Como uma mãe saudosa e amiga....
Tudo me envolveu e embalou. E adormeci em paz, como uma menina, acabada de ganhar o melhor presente do mundo, envolta em sentimentos puros. A boca sabendo a mel, os olhos, botões de rosas, o coração feliz.
Um tiro, dois, três...abri os olhos. Como se aqui tivesse permanecido. Como se fosse todos os dias quinta-feira e os caçadores andassem por aí correndo atrás da caça que o Vale do Alvorão não esconde. Reconheci os sons. Levantei-me e abri as janelas. Uma a uma. Para entrarem os sons dos miúdos no átrio da escola. Dos automóveis passando de quando em vez. Das persianas subindo nas casas dos vizinhos. 
Para entrar o cheiro da manhã ainda envolta em nevoeiro. Inspirei profundamente. Olhei a serra. Com olhos de presente. O hoje oferecendo-me emoções de filho pródigo. E senti uma felicidade incomparável. Porque única. De liberdade visceral.
Regressar...nove meses depois. Assim como se fosse simples e fácil. Não é.
Deixei trinta e sete anos para trás e pus pés ao caminho. Tinha de o fazer. Foi o meu desejo ao longo de todas estas décadas. Afinal, regressar era imperioso. Era voltar a mim. 
Estou feliz porque voltei ao fim de uma gestação noutro lugar. Vim parir a esperança de me ter de novo encontrado. Sem receio, ressentimento ou culpa. De peito aberto.
Não mais estarei longe desta cidade e da sensação de estar em casa. 
Não mais estarei longe do que fui porque já não tenho medo. Só agora percebo.


reflectindo

A felicidade é um instante. Aquele momento em que Deus nos olha e nós não desviamos o olhar.

m.c.s.

Luanda em dia de festejos da Dipanda - 11 de Novembro de 2014




quinta-feira, 30 de outubro de 2014

hoje

Amanheci anoitecendo na queda das horas, 
no leito acordada
no silêncio sem fim...
Por entre melodias inventadas
Ergui os sonhos da madrugada 
Que jaziam em mim
E despi-me dos medos
Intimidades, segredos, das horas tardias
Anoitecendo-os
E adormecendo-os assim...
Porque hoje, a noite, foi de viagem
Pendurada na lua
Porque hoje o sol me deu a coragem
De dançar na rua
Coberta com um manto
A dança d'um ventre parindo em despranto 
Estrelas cadentes
Esperanças, sementes
Auroras sem dor
Porque hoje a vontade amanheceu reinando
Espreguiçando o amor

m.c.s.

mote

Exalo perfumes vários, na manhã que amanheceu de véspera
São contos, conquistas, sentidos... 
Encontros, trocas e laços, que ato, desato e sorrio
Na gratidão deste acordar
Goiabas amarelas, doces 
Pedaços duma lembrança 
Que toco com o meu olhar
Ávido, saudoso e traquina
Quintais guardando segredos, memórias de encantar
Passos que quis seguros, na solidão do bocejar
Suspendo noites frias, outonos tristes e vazios, 
Máscaras das cores sombrias
Paletas de sonhos às cores, que se perderam no ar
E histórias de desencantar
Exalo o perfume doce, duma terra que se faz presente 
Pela boca do meu paladar
Pelo cheiro antigo, rendeiro 
Pelo coração teimoso e ávido 
Pelo desejo sorrateiro
Do espírito a divagar
Exalo perfumes vários, na manhã que amanheceu de véspera
E me despertou o despertar...

m.c.s.

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

almoço d' hoje

Muzonguê. Faltou amandioca.

sugestão de almoço

Bife de peru grelhado com cenouras, couve portuguesa e batata doce, cozidas

migas com costeletas de carneiro


Para as migas: Azeite, alhos picados e folha de louro. Num tacho estes ingredientes vão ao lume. adicionar a seguir as couves( grelos, ou caldo verde, conforme o ue gostarem ) cozidas e cortadas, o feijão manteiga e a broa esfarelada. Mexer tudo e deixar cozinhar um pouco até à consistência de migas.
Facultativo ( caldo de carne, pedaços de bacon aquando dos alhos, a estrugirem e deixá-los ficarem no cozinhado )
Para as costeletas: sal, alho e limão. Grelhar em azeite.

em chez moi - salada fresca

Tiras de manga; alface; tomate; delícias do mar; sementes de abóbora; bagas de goji, queijo fresco. Molho de queijo e iogurte.

no Kook do Chiado Lisboa e Luanda



Baixa de Luanda


a nova Marginal - Luanda




na praia de Sangano


terça-feira, 21 de outubro de 2014

porque hoje é hoje

Hoje é o dia de ficar em casa. E não fui eu que o escolhi. Escolheu quem pode. Quem instituiu o dia de hoje para que o metropolitano parasse.
Nada contra, tudo a favor, note-se. Nem sequer quero ir por aí. Aliás não posso ir por aí porque não tenho metro para decidir aonde quero ir. 
Hoje é dia de criar alternativas a esta limitação. 
A menos que arrisque ir para a paragem do autocarro a vê-los passar, porque em dias assim eles vão carregados e quando param para que entremos ( que grande sorte ) demoram eternidades até aos lugares de cada um. Sei disso porque já embarquei nessa aventura e enquanto me não esquecer, fico no lugar que estou. Do aborrecimento mas conformada. 
A menos que perca o amor a uns euros valentes e chame um taxi. Que me leve a um destino amigo. E traga de volta.
A menos que vá a pé para Odivelas e me ponha às voltinhas. 
Ou apanhe o " Voltinhas " e vá para o Centro comercial Strada. 
Ou apanhe o autocarro e vá ao Ikea. Não. Muito obrigada. O sol merece mais de mim.
Ou que me ponha à boleia. Isso não me parece possível porque nem uso mini-saias nem tenho pernas de fazer parar o trânsito, que hoje é mais intenso. 
Ou que.....enfim! Abstenho-me de falar nos amigos com carro. Não estão para aqui virados, claro. Cada um na sua vidinha, virados para os seus umbigos, para outros mais tentadores e para os seus automóveis. Era o que mais faltava, passearem uma amiga apeada! Uma alma livre, frustrada, uma fotógrafa fracassada ( pelo amor da santa, não me estranhem porque não estou a fazer-me ao piso )
Porque hoje é hoje, é dia de ficar em casa. Ponto.
Ou...reticências.  

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

o Outono na província

Assim que as férias e Agosto chegavam ao fim e Setembro nascia nostalgicamente no calendário, com dias mais pequenos e noites a pedirem mantas enroladas nas pernas, chá e séries até o sono chegar, as feiras anuais faziam-se presentes no pavilhão montado para o efeito. 
Eram os objectivos a renovarem-se para que a depressão não se anunciasse e idas ao médico, anti-depressivos e outras mazelas se rejeitassem, alma triste com o fim do verão.
Logo no início do mês abria-se ao público a feira das empresas e dos serviços. Ostensiva e animada. Gravatas, saltos altos, tapetes vermelhos e brindes, demonstrações, vendas e ilusões. Conversa daqui, beijo dacoli, abraços e palmadinhas nas costas. Aos mais raros na presença.
Logo a seguir, era a feira dos frutos secos. Repetia-se o ritual. A procissão às bancas de figos, nozes, amêndoas, amendoins, tâmaras, avelãs, pinhões, passas de uva e amêndoas do brasil. Aos bolos feitos com essas frutas. E outros. Ao artesanato e às barraca de pão com chouriço da Antónia, a ex do Pipas, " cliente " do tribunal. 
Enquanto se comiam os frutos da feira os dias arrefeciam, as chuvas surgiam e o tempo passava mais veloz do que era suposto. Os cobertores mudavam-se dos armários para as camas, o calçado de inverno saía das caixas, os casacos arejavam-se e comiam-se dióspiros e bagas de romã ao serão. Da cesta das lãs surgia aos poucos um cachecol. A hora mudava. E mal escurecesse, já das chaminés, o fumo e cheiro a lenha a lembrar Outono, das castanhas e da água pé. Das broas dos Santos.
Novembro vinha pela mão do feriado de todos os Santos, o dia do bolinho. A pequenada, numa velha e inquebrável tradição, juntava-se e de saco na mão tocava a todas as campainhas que encontrava pedindo o pão por Deus. Depois eram os aniversários de família. Muitos. Parecia que todas tinham escolhido o mês de Fevereiro para engravidarem, só para darem à luz em Novembro. Primeiro o aniversário da primogénita. As prendas. A festa. A família reunida. Os amigos. Depois o mano Zé, a seguir a mãe e no dia seguinte o caçula. Assim passava Novembro entre presentes, bolos, parabéns e a aproximação ao Natal. 
Assim passava o Outono. Naquele lugar. 
A vida na província, ( província ? ) pode ser maravilhosa. Cidade pequena. Com o suficiente para a gente se governar. 
Estádio de futebol. Pavilhões de desportos. Piscinas. Biblioteca. Cine-teatro, bombeiros. escolas secundárias, escola superior. Hospital, hipermercados, ginásios, esplanadas, restaurantes, discotecas e bares, centro comercial, fábricas, igrejas, ruínas romanas, grutas, bancos, lojas, mercado, hotéis, rio, castelo, andares, vivendas, condomínios fechados, jardins. Serra. Cidade bonita e aberta. À auto-estrada, para norte e para sul. Uma hora da capital. Isto para quem conduz a cem à hora. Para os ases do volante, quarenta e cinco minutos chegavam. Ali ao dobrar da esquina... 
E há quem a dobre. Eu dobrei, mudando-me de armas e bagagens, ficando paredes meias com a cidade grande. Mas quando chega o Outono apetecem-me merendeiras, morcelas de arroz com grelos, a sirene dos bombeiros dando o meio-dia de domingo, caminhada, descer o viaduto e andar no TUT desde o hipermercado até casa. Sentir o perfume da alfazema, o frio na pele e olhar a serra d'Aire quebrada pela muralha do castelo, comprar a fruta na loja da Rita, conversar com a Lurdes, mãe do Vasco e do Alfredo, sobre a nossa terra, passar a ponte e olhar as quedas d' água do Almonda perto da cadeia.
Afinal ter saudade de quase quatro décadas é ter a certeza de que não passei por acaso tantos outonos na província mesmo tendo estando quase sempre com um pé em Lisboa e outro em Luanda.
Um dia destes vou matar as saudades...