sexta-feira, 21 de março de 2014

felicidade? É também isto


Gosto de ouvir chover de noite, deitada na cama. Em lençois acabados de mudar.
Do cheiro da terra molhada assentando a poeira. E ouvir o marulhar na praia norte, de madrugada.
Gosto de passear no mercado e escolher fruta, legumes e flores. Rosas amarelas, vermelhas ou brancas. De saborear a romã, bago a bago. E cerejas. E mangas. Ir para a cozinha e cozinhar.
Gosto de pão quente com manteiga, de tapioca e flocos de aveia nas noites solitárias de inverno. De chá de gengibre, sofá e manta. Um livro. E adormecer como criança.
Gosto de filme de amor, escutar vozes bonitas, ver dançar o meu caçula. Da escrita da minha princesa. Das noites longas de conversa amena, das tardes de sábado e domingos de manhã soalheiros.
Gosto de ouvir a minha irmã rindo e da protecção do mano Zé. De lulas recheadas em noite de aniversário. Dos Natais em famíla e da hora dos presentes. E quando a lareira se acende e o calor me aquece a pele.
Gosto dos longos dias de fim de primavera e da liberdade de andar na rua e à beira-mar. Na maré baixa, apanhar conchinhas. Sentar na areia e esperar o anoitecer olhando os barcos a navegar. Observar o voo das gaivotas e o seu poisar no areal.
Gosto de andar em viagem. Do caminho para chegar. Da beleza da paisagem e da cor. Da história de cada lugar. Do silêncio e da paz santa das igrejas, dos sinos nas torres e da água correndo nas fontes, cascatas, quedas de água. Da mulher vestida de noiva, do sim e da marcha nupcial.
Gosto de ouvir " Aubrey " a recordar palavras de quem ma dedicou. Sorrir à lembrança feliz da declaração mais espiritual que recebi. E agradecer a quem fez dizendo que gostava tanto mas tanto de mim que achava que me amava. Recapitular uma pequena estória de amor que não aconteceu e que me aproxima do divino.
Gosto de chegar a Trás-os-Montes e abraçar os que amo. E sentar-me à mesa a sentir o cheiro das estevas e os silêncios dos dias que não correm. Ou correm devagar. E gosto de sonhar poemas por rimar, que surgem na minha mente feitos de memórias e futuros, livros por compilar.
E também gosto de ficar em casa junto da minha gatinha Pitanga a escrever sem pressão ou obrigação. E de encontrar os amigos, sair com eles e gargalhar.
Correr ao encontro das imagens de luz que quem quiser poderá apreciar.
Gosto de passar a minha vida a pente fino e imaginar-me a voar. Partir com um destino. E feliz, chegar à terra-mãe.
Felicidade? Para mim, é isto.

dia não são dias. Ou serão?

Os dias valem o que valem. Sobretudo por aquilo que fazemos deles. Neles. Pelas desistências ou pelas tentativas.
Um dia pode ser preparado para correr bem e sem que disso tenhamos qualquer culpa tornar-se num dia para esquecer.
Sei que tem a carga que lhe quisermos dar e a emoção também. O mesmo dia em anos diferentes pode ser comemorado ou amaldiçoado. Pode ser lembrado ou esquecido. Pode ser feliz ou profundamente infeliz.
Sei que há dias escolhidos para serem dias de amor,( dia do pai, da mãe, do avô, da amizade ) dia da paixão, ( dia dos namorados ) dia da religião ( Natal, Páscoa, e mais os dias de todos os santos que conhecemos e não só ).
Depois há o Dia da mulher, da criança, da árvore, do abraço, da água e tantos outros.
E também o Dia da Felicidade. Que é hoje.
À ideia de que foi determinado um dia para algo que todos ambicionam, fico com brotoeja, mas passada a coçeira, fiquei a pensar nisso. E porque não?
Nem que seja para sentirmos que para além d' um estado de alma, pode estar à mão, ou melhor ao coração de qualquer um.
Nem que seja para analisarmos a nossa vida e percebermos que afinal já fomos brindados com esse estado d' alma, mais vezes do que aquelas que admitimos.
Nem que seja para, de uma vez por todas, quer dizer, pelo menos uma vez, porque de uma vez por todas, é exigência a mais nos espíritos masoquistas e inseguros, deixarmos de ter vergonha de sermos felizes. E pena de nós próprios. E aceitarmos os momentos de paz e alegria, bem estar, de amor e amizade, de ternura e emoção, de inspiração, de paixão, de fé, de criação, doação, sem culpas nem desculpas, enganos ou arrogâncias e reconhecermos a felicidade, dando-lhe o seu justo valor.
Um desejo sincero aqui deixo a todo nós. Que a galinha da vizinha não seja melhor nem maior que a nossa, como diria o povo que costuma ser feliz. A felicidade não mora só na casa da vizinha. Muitas vezes o que falta é abrir-lhe a nossa porta.
Sejamos então dignos d' um estado de alma que quase sempre depende de nós. E a momentos, construamos a nossa felicidade.
É que ser feliz não custa dinheiro por isso não temos de a pagar nem pode ser cobrada.
Ah e deve ser celebrada hoje, amanhã ou daqui por quinze dias, no verão ou mesmo quando calhar. O calendário podemos fazê-lo nós e o agendamento depende da habilidade e do empenho.
De qualquer forma e porque o dia não terminou, ainda estou em tempo de desejar a todos um dia muito feliz.

( a propósito do dia oficial da felicidade 20.03.2014 )

quinta-feira, 20 de março de 2014

A andorinha da primavera - Madredeus

um céu azul, um monte verde e dois cavalos brancos

foto tukayana.blogspot

Há uns dias já, que venho observando o monte, defronte da minha janela com curiosidade e admiração. E um misto de intriga, deformação de profissão.
Não tenho de fazer coisa alguma. Apenas sentar-me a olhá-lo. Com olhos de ver.
É um monte verde, cheio de oliveiras, arbustos e erva. Mil tonalidades de verde, que a natureza oferece a quem o quiser contemplar.
Tem por tecto o azul do céu limpo, onde moram algumas nuvens brancas que o vêm visitar. Onde quase sempre o sol se faz anunciar. E de quando em vez surgem aviões a levantar. E à noite tem as estrelas. E também a lua quando está cheia de luar.
Há vários anos que olho para ele, ainda, com olhos de ver. Com vontade de o subir, de o descobrir...
Do outro lado está a cidade. No mapa.
Deste lado estou eu. Aborrecida umas vezes. Bem disposta outras, divertida, algumas, doente outras ainda. Sofrida e triste, ou sonhadora e feliz. Também.
Há uns dias já que observo o monte, intrigada.
Na outra semana, quando olhei o verde imenso que vejo daqui, sem precisar de me desviar, procurar posição, pôr-me a jeito, tal como olho o mar quando o vou procurar, vi-o pintado de claro. Uma mancha branca, movendo-se. E soltei uma exclamação de alegria. A natureza que me é oferecida sem precisar de gasto algum ou compromisso, mexia, para além dos ramos das árvores quando o vento lhes dá. Olhei com muita atenção. Pareceu-me um cavalo. Era um cavalo.
Como uma menina feliz à descoberta, segui-lhe os passos que não foram muitos. Ali se manteve toda a tarde. Quando o sol se pôs a mancha continuava. À possibilidade de ali o deixarem pernoitar, ao relento, no sereno da noite, senti um arrepio e o frio deixou-me uma sensação desconfortável, de angústia que me entristeceu. Não bastam já todos os sem abrigo da Baixa de Lisboa que conheço de cor e salteado e até lhes conheço também os poisos certos. Bem sei que era só (?) um cavalo. Mas, à possibilidade da minha Pitanguinha, que é este ser abençoado que faz parte da minha vida e que é só (?) uma gata, linda, fofa, amiga, mas uma gata, ficar na rua, à chuva e ao frio, ao medo, que todos os seres têm, fico não só perturbada mas profundamente assustada.
A noite se fez dia de novo e a minha janela, eu e o monte cá estávamos.
Sentei-me a olhá-lo de novo, mas desta vez como quem procura uma agulha num palheiro. E a mancha branca, que se movimentava e tinha os traços, o desenho, d' um cavalo, já lá não estava. Esfumara-se na madrugada de luar que iluminava o monte.
Dias depois fui surpreendida. A mancha branca multiplicava-se por duas. Para minha alegria. Separados por metros, quantos não sei, que não sei avaliar, dada a distância que me separa deles e do monte, lá estavam os cavalos, pastando no monte verde de várias tonalidades, em terreno inclinado, para quem como eu, contempla um monte, do sopé.
Agora, no correr dos dias tenho o campo na minha mira, feita pasto de cavalos brancos, oliveiras, arbustos e erva, verdinhos. E o meu coração se apaziguou.
Alguém os levará ao pasto. Alguém os deixa livres.
Distante que estou, apenas vejo as manchas brancas que tenho a certeza serem cavalos. Ou éguas.
Quem diz que só é feliz quem corre mundo, não está na posse deste quadro de natureza viva, nem se sentou à minha janela. De onde se avista um céu azul, um monte verde, cheio de oliveiras, arbustos e erva. Pasto de dois cavalos.
E que ao cair do dia e sob o luar, se transformam em duas manchas brancas.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A Ti

...e porque dos fracos não reza a minha, a nossa " estória ", também hoje, principalmente, hoje, vou por aí à procura do poema, sô Santos.
E mesmo fazendo das tripas, coração, prometo, palavra de honra, desta tua filha primogénita, por tudo o que é mais sagrado, que o encontrarei, neste dia que também o quero feliz.
Neste dia que tenho a certeza, também queres os teus filhos felizes.
Amo-te todo o tempo do mundo e mais todas as eternidades que existem e hão-de existir, a juntar-nos e a separar-nos, meu pai.

m.c.s.

dia marcado para a dor

- Porque te doi o corpo? Porque são os lençois pesados e o ar te falta? Porque o coração te bate mais forte numa dor que se deitou contigo, dormiu a teu lado e acordou antes de ti para te despertar também?
Sou eu te
ntando perceber o que de mim me escapa, meio adormecida ainda nas dores todas que me assolam diariamente e que não são exclusividade minha. São dores comuns aos mortais com que me cruzo.
Todos se queixam. Todos as sentem. Todos lhes dão abrigo. Alguns até lhes oferecem uma tiara. Para reinarem...
São dores. O oposto de prazeres. Que se não existem não lhe sentimos o alívio, mas se se vão, chegamos ao céu.
Rodo o pescoço e ele estala. Sinto-lhe a pressão. É a hérnia da cervical a dar bom dia. Não lhe ligo. Estico o braço e ele doi na articulação. É o braço que parti quando empoleirada no muro da casa, brincava como se fosse uma pista de autódromo e eu um Álvaro Lopes ou um António Peixinho e " trambulhei " do alto dos meus seis anitos, sem apelo nem agravo, dele abaixo. E o ombro. O bendito ombro que tanta canseira me deu e dores únicas e que partiu ao escorregar e cair na calçada portuguesa, depois de velha. E que em dias como o de hoje, lhe chamo maldito. Deixou o relógio, como o povo diz, na mudança de tempo. Encolho a perna. Sinto um formigueiro nos dedos do pé. Outra maldita hérnia, esta na lombar, fazendo das suas, no meu bendito corpo que tem de ser muito saudável para suportar tudo isto.
- Porque te doi o corpo? Porque hoje tudo te doi mais do que ontem ou anteontem ou amanhã?
Sou eu já acordada, sentada na cama tentando abrir os olhos e o coração.
Para me situar. Para me perceber corpo, mente e coração. Para me proteger.
Numa bipolaridade que me leva e traz aos céus e aos infernos, sofro as dores do mundo, iguais em tudo a essas dores comuns aos mortais. Às da minha vizinha de baixo. Da Marta da mercearia que me saúda de manhã quando lhe compro morangos, do Vítor do talho, que me sorri ruidosamente, enquanto corta dois bifes do lombo, dos que deixei para trás no ribatejo, dos que andam comigo de metro ou se deitam na praia. Dos que não conheço nem me conhecem. Nunca vi nem verei.
Dores são dores e há até quem baptize filhas com esse nome, como foi o caso dos meus pais. Sô Santos que nem sonhava o que hoje se sabe. Que o nome tem tanta influência na vida das pessoas. E aceitou que eu carregasse o nome duma avó, Clara. E de outra. Essa outra, Rosalina das Dores e que tantas dores teve na sua curta vida...
Sim, porque eu sou maria clara das dores. Como elas.
E por falar em sô Santos, acho que cheguei lá. Às minhas dores. Que têm dias. Que as conheço e convivo bem com elas. Que não lhes dou abrigo e as expulso ou que mesmo dormindo sonho com elas e mal acordo ali estão. Sentadas na cama. Ao meu lado. Dispostas a acompanharem-me no vai-e-vem deste dia. Que não é senão mais um dia, mas que lhe chamam Dia do Pai. E que corre bem quando se tem um bom pai, ou simplesmente um pai aceitável, mas vivo, junto de nós. Vivendo como nós, com dores uns dias e outros nem por isso.
Quando nos falta, a todas as dores, junta-se mais esta, que se aviva conforme as datas num masoquismo involuntário e (in)consciente, para a suportarmos.
Mais que do corpo, são as dores da alma. Conheço-as de cor. São muitas as datas, as lembranças e as perdas. É a carência em que a alma fica. Vêm e vão porque não podem permanecer eternamente vivas e agudas, a corroer, a dominar, a reinar no corpo cansado, já velho, magoado.
- Porque te doi o corpo? Porque são os lençois pesados e o ar te falta? Porque o coração te bate mais forte numa dor que se deitou contigo, dormiu a teu lado e acordou antes de ti para te despertar também?
Sou eu a perguntar, sabendo afinal qual a resposta. Porque hoje é Dia do Pai. Não do meu ou do vizinho do lado. Mas de todos os filhos, assim se estabeleceu.
Porque sou filha d' um pai que já partiu. Porque conheço filhos que não fizeram o luto de pais que partiram sem partirem.
Porque é que não se acaba com dias marcados para prazeres e dores da alma?
Respondo, por mim, que de antemão sei que hoje não será um dia de prazer. Porque nós gostamos de gostar da dor. Só pode...

na crista da onda

Tudo corre sobre rodas. Carris ou mesmo em meias solas.
O que eu quero dizer é que tudo desliza. E se assim é, nada há a impedir o andamento. Nada que não se possa resolver. E se fosse uma teeneager, diria que se leva na boinha. E porquê?
Porque amanhã vem longe e hoje estou bem. Direi mais, tá-se bem! Não há a menor dúvida que sol é urgente para todos e mais para quem dele é dependente. E mar também. Mais a liberdade duma roupa simples, sapatos a condizer, saco de praia, chapéu na cabeça e sorriso a fazer pandã.
Metro e comboio. Tempo para chegar ao destino. Não vale inquietação nem impaciência. São inimigas do equilíbrio.
Descalço as sabrinas. Os pés reconhecem o calor dos grãos da areia morna do areal.
À volta, toalhas estendidas e secas. Corpos semi-nus, deitados, parecem lagartos ao sol. Estendo também a toalha. Perdão. Não tenho necessidade de mentir. Estendo o pareo. Não faço conta de me banhar senão de sol. E o peso duma toalha é um inimigo da viagem nos transportes públicos. Pareço uma burra carregada de pancada e para mais, já basta assim. O meu pareo é bonitinho. Antigo que eu sei lá. Transporto-o num saquinho onde vinha quando o comprei, numa loja toda xptó do Amoreiras. Poucas compras ali faço. Para além das vendedoras das lojas serem umas snobs arrogantes ( quase todas ) os preços são tão antipáticos quanto elas, mas isto foi uma feliz excepção. E em saldos. Era Setembro e estava mesmo no finzinho, o que fez com que levasse para casa uma mão cheia deles. Compra dois levas três, a letras garrafais.
Eh pá, como gosto de compras destas, mesmo quando ponho a cabeça a jeito para enfiar o barrete! Não foi. E quem ganhou foi o mulherio da família. Da minha e daquela, madrasta em todos os sentidos, que a gente não pede, não deseja nem tem como rejeitar. Daquela que dá meias e bombons no Natal em troca de pareos em saldos, mas com alguma sensibilidade para o desejo de serem felizes numa praia qualquer ou numa piscina de amigos. Daquelas que te acolhem no clã com palavrinhas mansas e nem desconfias que são contra retornados até que um dia passadas décadas de seres membro integrante desse clã deixam escapar um rancoroso protesto contra quem veio de " áfrica ". Daquelas que quem vê um ou uma, vê todos, tira-se-lhes a pinta numa facilidade que até chateia de tão óbvias que são. Daquelas que quando te afastas ou te afastam, passas a ser um número. Zero. À esquerda. O que parece mórbido, mas que sob outra perspectiva acaba por ser uma bênção dos céus. Já que não nos pode tirar tudo, acena-nos com a lei das compensações.

Mas, dizia eu que, saltando a parte do pareo, afinal tenho muitos outros mais novos e bonitos e não houve nenhum saudosismo na escolha, apenas preguiça numa busca mais minuciosa, acabei estendendo o dito e também o meu corpo para um tempo mais ou menos calculado de três horas já que ao cair da tarde faz frio, porque convenhamos, ainda é inverno.
Tenho uma mania danada de me deitar e olhar o céu, à procura não sei de quê. Há carreiros brancos, paralelos e perpendiculares. Linhas que parecem estradas. São caminhos. Rotas para voar. O silêncio da tarde é quebrado pelos aviões que passam lá longe deixando esses rastos que me fazem divagar e imaginar viagens por acontecer. Também as vozinhas de crianças brincando junto às ondas que vêm estender-se na areia lentamente, quebram este silêncio que vale ouro.
Os velhos sentados no muro da esplanada olham para longe com o olhar perdido no horizonte. Terão ainda sonhos por sonhar, perdidos que ficaram num qualquer temporal que lhes entristeceu a vida e lhes cansou a vontade? Ficarei sem o saber, se bem que tenha as minhas teorias.
A tarde tem a cor da paz. Tudo está nos seus lugares. Parece véspera de dias de festa.
Lembra-me as sextas-feiras santas e os sábados de aleluia.
Uma mulher loira, entrada na idade, com a celulite e as estrias , o topless , a indiferença e o despudor, próprios das mulheres da minha idade que já não está nem aí, quem não gostar não olhe, devagar, mas com passos seguros entra na água salgada deste mar que está tão belo e tranquilo. Arrepio-me. Às lembranças de dias de verão que hão-de chegar. Sorrio ao vento e olho eu também o horizonte. Far-se-à verão daqui por algum tempo e eu aproveitá-lo-ei, a sul. Aqui. Ou noutro mar qualquer.
Tudo corre sobre rodas. Carris ou mesmo meia-solas. E o que é preciso é deslizar, na crista da onda, ou simplesmente voando nas asas da imaginação, duma prancha qualquer.
Por falar nisso um dia destes enlouqueço e experimento equilibrar-me numa. Do mar não passo...


mais um dia

Mais um dia, meu amor...
Mais o sol e o mar
E o perfume da primavera

Mais alegria e calor
Neste belo despertar
Mais um dia, quem me dera
Acreditar no que é incerto
E nem que seja no marulhar
Nem que seja a sussurrar...
A minha voz chegar mais perto
Mais um dia, meu amor
Para me inspirar em ti
Construir castelos na areia
Saudar-te daquela ameia
Onde os sonhos iludi
Mais um dia, meu amor...

m.c.s.

terça-feira, 18 de março de 2014

passeando pela Mutamba - Baixa de Luanda














Ainda o pôr de sol em Luanda





 fotos da minha amiga Manuela Santana

Pôr de sol de Março




Pôr do sol visto da fortaleza de S. Miguel - Luanda.Fotos  da amiga Manuela Santana.

domingo, 16 de março de 2014

paralelismo

foto tukayana.blogspot

O mar é como o amor
Quanto mais amo, mais gosto de amar.
Quanto mais o olho, mais gosto de o olhar.
E ficar rendida. Presa ao seu jeito de me encantar...

m.c.s.

subitamente

foto tukayana.blogspot.

Subitamente, o dia ficou mais bonito.
Um sorriso. Braços abertos. Um abraço e beijos.
A Baixa de Lisboa é a sala de visitas para pessoas de boa vontade.
A procura de pequenos momentos de felicidade levam seres para o encontro.
Celebrar a amizade é uma bênção e abençoadas são pessoas que gostam de trocar sorrisos, gargalhadas, palavras, ideias, desejos, sonhos e memórias. Comuns.
Angola tem seres abençoados em todos os cantos do mundo. Deu-nos essa característica e aproveitamo-la, conservamo-la, não a desperdiçamos. Agradecemos.
Amigos são pessoas que nos escutam sem nos interromper. Que nos falam com prazer. Que nos sorriem com a alma. Que têm escrito no rosto a palavra verdade.
Amigos, são pessoas que confiam em nós e se entregam às nossas mãos, às nossas escolhas e nos seguem.
Até ao almoço, para um sushi gostoso num sítio conhecido de Campo de Ourique.
E depois nos seguem para um passeio pelo Jardim da Estrela, contrariando a ideia de que parques e jardins são para velhos desocupados, gagás e tarados, crianças embirrantes e domésticas frustradas, infelizes e disponíveis, à procura de marido.
E continuam apostando na confiança e nos seguem, Lisboa fora, a pé, fotografando, contando coisas, a caminho da Baixa de novo que está linda e mexe como nunca.
E bebem um café enquanto bebemos um sumo de laranja natural num terraço/bar da moda, com vista para o Tejo e para a outra banda, quando o sol se põe por detrás da igreja.
Subitamente o fim de tarde ficou mais bonito. E quando o destino é casa, ainda no seguem para um lanche ajantarado numa rua das mais movimentadas da cidade. E terminam com um passeio junto ao rio.
Amigos são pessoas que nos dizem que gostaram de estar connosco e desejam novos encontros. Felizes.
Subitamente a noite ficou mais bonita, quando respirando profundamente o ar da noite primaveril, mangas de camisa, dia passado de forma agradável, regresso a casa como sempre nos transportes públicos. No 36 que me deixará na rua de Angola. Sempre Angola acompanhando-me e eu no seu encalço.
Subitamente, percebi que tive um dia fácil, bom e feliz nesta cidade que já é minha um pouco também.


Era só um gesto
Uma mão erguendo-se
Era só mais um olhar
Uma lágrima contendo-se

Era só uma palavra a faltar
A voz a falhar
Era só eu
A retardar o momento
Eras só tu
Dono do meu desalento
E foram dias em vão
A esquecer-me de ti
E nem o sol do verão
Aqueceu o que senti
Era só uma noite que não amanheceu
Era só uma esperança que não aconteceu.


m.c.s.

sexta-feira, 14 de março de 2014

minha terra-mãe

Recebo o presente como dádiva.
Do futuro espero pouco...
Vagueio entre o coração e a memória.
Passeio-me pela minha história

E apaziguo-me do que já vivi.
Aninho-me nesse tempo remoto.
Hoje o dia é de ontens.
Partiste tão cedo para o passado, minha terra-mãe...


m.c.s.

eu vou


Leva-me a ver a cor das flores, a sentir-lhes o perfume, a receber a sua beleza singela. A misturar-me nela.
Leva-me que eu quero passear contigo, pelo verde musgo, natureza viva, à procura da papoila que não tarda. E também do malmequer por desfolhar, bem me quer, que me queres bem. Que te quero bem.
E oferece-me o sorriso dos inocentes. Branco e franco. Enfeitado de poesia.
Bordado a rosas e cravos. Vermelhos. A lembrar a paixão que nasce em mim. Em ti. Em nós, Abril.
A lembrar-nos a estação a renascer. Entre ventos e tempestades, marés vivas e desalentos.
Leva-me a ver o sol do meio-dia, à sombra do imbondeiro que há na memória de nós.
No coração que sabe amar ao fim do dia, pôr do sol, na curva do horizonte desse mar azul, verde esmeralda, que nasce, cresce e nos fica para sempre na alma em ânsias.
Leva-me. Que eu quero ir...

quarta-feira, 12 de março de 2014

és meu eco

És meu eco. Minha fraqueza. Meu segredo.
Minha principal inspiração.
És minha falta. Minha ganância, meu desejo.

E ainda és, minha leitura, palavras minhas, intenção.
Meu sorriso, troca de mimos, saudades.
Meu aquário feito mar.
Jangada para navegar.
A mais imperfeita perfeição....
És minha zanga, meu ciúme, minha birra ou negação.
Afinal, és tudo o que eu queira, de meu.
De mim, tens tudo o que quiseres também.
Por ti, não me silenciei de vez...

m.c.s.

é no silêncio que tudo acontece

É no silêncio que as conversas fluem. Parecem rios a correr para o mar. Diz o poeta.
As palavras têm o som e a cor que lhes quisermos dar. As frases encaixam-se nas pausas certas.
Descansam-se as cordas vocais num qualquer compasso de espera. E bailam sorrisos em cada letra desenhada.
São chamadas as conversas perfeitas. Aquelas que dizem vontades que mal as pensamos, quanto mais as articulamos. Em alta voz.
Gosto das longas conversas do silêncio. Com o silêncio. No silêncio.
Não me desgasto. Nem me torturo. Não me convenço. Tão pouco me zango. Ou me exponho.
A minha vida toma o lugar dianteiro da importância de ser a protagonista desta estória que pode não ter encanto, mas não é mascarada. Não a enfeito nem me minto. Queda, encaro-a, gritando com a voz do espírito atento, todas as intenções imagináveis. Todos os desejos inconfessáveis. Segredos acumulados.
Gosto de passear o olhar pelo que mexe, pelo inerte também, pelas interrogações, reticências e parágrafos sem ponto final a espalhar esperança ou os nins que o mundo tem. E abriga. Que a vida, é generosa e justa, uns dias, outros, ingrata e cruel de tantos silêncios. Gosto de tudo contemplar, enquanto me falo, conversas banais, ideias que surgem, desconfianças, pecados. Coisas do arco da velha. Conversas de surdos. Mudas. Pensamentos vagabundos.
- Nem os penses maria clara, nem os penses...
Penso sim. Olho-me ao espelho e falo-me, calada, pareceres sobre conversas a encher chouriços, palha, muita palha, conjunto de ideias sem sumo, tudo pela rama, esgares de sorrisos, caretas, olhares medrosos, atitudes que não sairão das gavetas, timidez justificada e injustificável, e consolo-me,
- A vida é o que nos dá e tira, parece que é mas não é, já devias disso saber, uns dias bem outros piores, acredita em ti, maria clara...
Compreendo o que a alma fala, coração cheio, a transbordar de amor pelos que conheço, incapacidade para acrescentar amor aos dias vazios, tempos mortos, impotência para quebrar silêncios que não são meus.
Sei que não falo tanto como me leio, escrevo e me oiço voz, no silêncio dos dias. Não sei se devia arriscar-me mais. Há quem ache ser demais.
É no silêncio que as conversas fluem. Os pensamentos têm os mesmos tempos das palavras por dizer.
Há silêncios que não são lacunas. Há conversas que nunca tive. Nãos que nunca disse, sins que estão por acrescentar.
Não viro costas ao silêncio. É de ouro. Mas, são as palavras, pérolas. E diamantes que não devo lapidar para cairem em saco roto.
Há um silêncio reinante, sagrado, nas palavras que nunca direi, quebrando silêncios que não me pertencem.
É no silêncio que as conversas fluem. É no silêncio que tudo acontece. Melhor se ouve e respostas são dadas.

segunda-feira, 10 de março de 2014

uma dia a mudar

Os dias são pretextos. Nada mais do que pretextos.
Passam os dias e as intenções e tudo continua igual.
Os destasques são enganosos. As lutas são inglórias.
Porque pouco ou nada fazemos por cada uma, mas tudo fazemos por nós.
Nós família; nós pai, marido, nós amante, nós irmão. Nós amigo, vizinho. Nós ,até, desconhecido.
E nós? Quem faz algo por nós?
Atiram-nos para a fogueira. Saltamo-la.
Batem-nos e sorrimos.
Humilham-nos e acatamos.
Matam-nos e continuamos vivas.
E perdoamos...
Já não devíamos querer a diferença.
Já não devíamos aceitar a desigualdade.
Já não devíamos usar a astúcia. Nem inventar sextos sentidos.
Olhares dengosos. Subtis promessas. Chantagens mesquinhas.
Não temos de provar nada, nem a homens nem a mulheres.
Mostramos nos dias todos do ano que é sempre dia da mulher.
Percebemos já há muito que somos independentes. Mas continuamos a fingir.
Percebemos há muito que não há homens nem mulheres.
Há pessoas. Que desenvolveram capacidades diferentes.
Emoções diferentes, forças diferentes. Medos diferentes.
E continuamos a criar um filho homem de maneira diferente da filha mulher.
Porquê?
E somos responsáveis por esta diferença que criámos e não queremos aceitar.
E somos agradecidas por existir um dia que ridiculamente nos destaca.
Deste dia a que eu não consigo esquivar-me, espero, que todas as flores que cada uma de nós receba se convertam numa arma contra o preconceito e o machismo. Contra a prostituição. Contra a violência doméstica.
Já que ainda precisamos de destaque, que ele tenha a intenção de dizer não à desigualdade.
Que cada mulher deixe de ter medo. Nele reside a força do homem.
Somos pessoas. Completas. E não precisamos de o provar.
Um bom dia!

( a propósito do dia da mulher, 8 de março último )

estar viva

Acordei com o propósito de não embarcar em vãs palavras, manipulações, actos por acontecerem, impossíveis e desculpas de mau pagador.
Acordei sem queda para o saudosismo, saudade, masoquismo, chover no molhado, ou voos de asas cortadas.
Acordei sem paciência para o óbvio.

Acordei para viver os meus sonhos e não ser sonho ou fetiche de alguém.
Acordei d' um sono repousante, convicta de não te querer como pesadelo.
Acordei para viver. Simplesmente. Tranquilamente.
No meu canto, que podem ser os cantos todos do mundo. Meu...
Acordei sozinha. Mais eu!

" amor da minha vida "


 foto tukayana.blogspot
...tu és o meu amor, tu és o meu amor...
Como gosto de os ouvir! E vê-los movendo as bandeiras.
...tu és o meu amor, tu és o meu amor...cantarolo eu também baixinho acompanhando aquela claque de gente brava, quiçá agressiva, rebentando petardos, assobiando ensurdecedoramente a um golo invalidado.
À claque do Estoril que vibrou com o golo do Sporting, como que a dizer-nos a todos, tomem lá que é  para  aprenderem, ah  queriam  ficar a sete  pontos do  segundo?  Ah estão  a  ganhar-nos? Pois então limpem-se a este guardanapo...
Aquele   grupo  de  gente  brava,  quiçá  agressiva,  também  sabe  cantar  o  amor  como  meninos apaixonados.
É a paixão benfiquista. É a festa. É o caminho para a vitória.
Eles não se calam um minuto. Eles passam de umas para  outras  com a mesma  voz  fresca, forte, empolgante e cativadora. Contagiante.
...tu és o meu amor, tu és o meu amor...
E assim ganhámos por dois a zero. Numa tarde feliz em que as  mulheres   empunharam cachecois, se vestiram de vermelho, bateram palmas, deram pulos de alegria  e encheram  as  bancadas, pois que tiveram honras de bilhetes mais baratos.
...tu és o meu amor, amor da minha vida...tu és o meu amor Benfica!


quinta-feira, 6 de março de 2014

quem é a dama?

Pessoas da minh' alma, por acaso sabem quem é esta criaturinha sorridente com um penteado do tempo da maria cachucha?
Não sabem pois não?
Eu também não sabia.
- És tu. Disseram-me.
E eu agarrei no album do passado e olhei esta menina de 17 anos, sorridente, de cabelo todo armado e pareceu-me alguém.
Olhei de novo e ora me pareceu a dona Celeste ( minha mãe ) ora me pareceu a Ângela, minha cria. Também me deu ares da caçula ( minha irmã Paula )
- Eu? Perguntei incrédula. Eu?
E quem me mostrou a fotografia, conserva-a há 41 anos e foi tirada num dia muito importante da sua vida. O dia do seu casamento.
Claro que tive de acreditar que sou eu num passado muito distante, mas que se fez presente num encontro de afectos com gente do passado, que afinal continua no presente.
O casamento foi da minha primeira amiga na vida, aquela de que me lembro de existir na minha vida, desde que existo.
O casamento da minha amiga Lisete, no Largo Camilo Pessanha, na Vila Alice. Em Luanda.
Fiquei estupefacta com a fotografia e mais me admira um casamento durar há 41 anos com a mesma alegria desse tempo. Ainda bem que há gente com vidas fáceis e sentimentos para sempre.
Fiquei estupefacta com o meu rosto porque não o reconheci no imediato.
Às vezes já não sei quem sou. Quem fui. Como fui. E do que fui capaz ou o que deixei para trás.
Perante esta foto quase me enterneci às lágrimas.
Como eu era! Um misto de mãe, irmã e filha. A genética ditando as leis...
Como eu era! Um misto de gente grande e de menininha ingénua e pura, carregada de sonhos e de sorrisos que o tempo e a vida se encarregaram de ceifar.
Como eu era! Engraçadinha e bonitinha neste jeito de ser mulher ainda menina.


na baía de luanda




Na ilha ao fim da tarde - luanda