quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

voltar

foto tukayana.blogspot
O meu nome quis escrever
Na areia junto ao mar
Na esperança de Deus o ler
E não o mandar apagar

Deixei a lua enfeitar
As letras que ali espalhei
Deixei a luz se espelhar
No sonho que lá deixei

Se meu desejo se erguer
Crescer e viajar
Eu voltarei a ter
Motivo para voltar

Ao lugar onde deixei
O nome e o coração
Na praia onde emprestei
O sorriso á emoção



m.c.s.

agora sei disso



É tarde eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã...

Cantam vozes que já foram crianças. 
Já pisaram outro chão.
Já se sentaram nas carteiras d' um liceu que ficou no tempo esquecido, duma terra abandonada.
Duma adolescencia alegre e perturbadora, inquieta e livre, onde ficaram sonhos. 
As brincadeiras, os corredores, as professoras, colegas, salas de aula, a cerca, as salas de canto coral, o bebedouro em frente á turma H, as filas da cantina e dos bolos, os tanques dos crocodilos, os sábados de matiné, as peças de teatro no anfiteatro, as missas na capela. O cheiro a aulas, amizade e futuro.
Onde moram memórias de tempos felizes. 
Voltar ás lembranças, é recuar no tempo e ter o mesmo olhar, o mesmo sorriso, a mesma esperança e excitação pela vida.
Voltar ás lembranças, é abraçar pessoas que pisaram o mesmo chão, estudaram no mesmo liceu, tiveram os mesmos professores, aprenderam pelos mesmos livros, respiraram o mesmo ar. Cruzaram-se nos mesmos dias, nos mesmos anos. E viram as mesmas cores, pintaram o mesmo desenho, subiram ao mesmo espaldar e usaram as mesmas alcunhas. Disseram os mesmos poemas. Cantaram a mesma canção.
É tarde, eu já vou indo, preciso ir embora, té manhã...
Quatro décadas depois. É possível. A canção, o coro, a emoção...
O fim d' uma governação colonial, a independencia de um país, o exodo de meio milhão de pessoas nascidas e a viver naquele lugar onde fomos crianças, estudantes, adolescentes, adultas, não foi suficiente para esquecermos um tempo e um lugar que marca as pessoas para sempre e para sempre também, lhes desenhou em traços largos e livres, a cheio, a personalidade e os afectos.
Ficou-me a canção que, mentalmente canto, porque viajo pelo passado e não quero perturbá-o.
Ficou-me a certeza de que tudo o que perdi é nada, comparado com o que ganhei.
Porque a minha vida tem sido feita de viagens, encontros, abraços e beijos. Reencontros. Regressos. E desejos sempre maiores de fortalecer os laços de afecto e ternura. 
Porque a minha vida quanto mais vivo, mais rica é.
Sou feliz. E agora sei disso...

a Sul


foto tukayana.blogspot - Ria Formosa ao anoitecer

Parece outro país. E são só duzentos e tal quilómetros, mais coisa menos coisa a separar este lugar, da capital.
Um dia bonito, com o sol espelhando a ria. Calmaria...
Mangas de camisa, passeio a pé pela zona histórica. Companhia maravilhosa.
Aperitivo. Almoço. Conversa agradável, histórias divertidas. Viajando por Angola, Brasil e Portugal. 
Encontros felizes. Gravados no coração que bateu num compasso certo, em laços de amizade e de ternura. Saudade também.
Gravados na memória, para dias menos amenos. Em jeito de alento...
Obrigada pessoas. Todas.
Adorei ir, estar e voltar.

para ti

O sol toca-me a pele

Inunda-me 
De calor e tranquilidade

Tens a cor da paz
E da união
E o que me dás
Toca também o meu coração

E tem o nome de Amizade...

m.c.s.

o tempo


No dia que nasce
Na nuvem que desaba
No arrepio da pele
Sinto o inverno 
Que me envolve
E me sorri...
Recebo assim
A graça da vida
E sorrio também

Há-de chegar o dia da despedida
E o meu espírito, sem culpa
Se alegrará

Logo que os lírios do campo
E os ninhos das árvores
Reclamem o seu tempo
As tardes se alonguem
Os grilos cantem 
E os pirilampos iluminem os caminhos

Por enquanto
A chuva prepara a terra
O sol embala as nuvens 
Os bichos hibernam
As frutas sonham a sua flor
E eu faço um intervalo
No tempo sem estrelas
No mar deserto
Na falta das cerejas
Na saudade do calor

Um dia qualquer
Olharei o horizonte
E a primavera será a ponte
O caminho para a estação
Onde mora o meu coração
Mas hoje...
hoje o dia nasceu
E o inverno, de direito, me envolveu.

m.c.s.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

momento

foto tukayana.blogspot - ria Formosa
O sol tocou-me a pele
A ria acenou-me 
Bonita 
Silenciosa
Hospitaleira

Elevei a minha alma
Entreguei-me ao dia
Senti o perfume da tarde
Inspirei-o profundamente
Inspirei-me...

E pensei em ti

Que saudade...
Meu dilema
Minha felicidade
Eterno poema

O sol tocou-me a pele
A ria acenou-me
Coquete
Sorridente
Hospitaleira
Verdadeira...

m.c.s.

a viagem ao Sul

foto tukayana.blogspot - praia de Faro
Não foi a primeira vez... 
Um dia, era domingo, como me lembro bem...estava quase o almoço terminado e toca o telefone. Era de Trás-os-Montes. A Leonor, não só saira do coma, como também do hospital. 
Voltei para a cozinha para levantar a mesa e colocar a louça na máquina.
- A minha prima Leonor já está em casa.
Daí a ver o caminho para Chaves foi um ápice. O regresso foi depois do jantar e a chegada a casa foi de madrugada. 
Chaves fica no norte de Portugal, num Trás-os-Montes profundo, entre montes e serras, estradas e caminhos, pontes e pontões. 
Muralhas e história. 
Dizem que o que tem de ser tem a tal força que move montanhas. Sou eu a dize-lo e a fazer essa força sempre que algo me empurra com força, a isso.
Ontem não foi portanto a primeira vez nem a segunda, nem terceira, tão pouco quero que seja a última. Se for possível, universo, dá o empurrão para que esta dinamica não se perca e possa seguir o institinto, perseguir a vontade, dispor-me a põr pés ao caminho.
- Sábado vamos ao Algarve. 
Fiz contas de cabeça. Afinal, não foi sábado. Foi domingo. e fui também.
Há muito tempo que não ia a Faro. Há sete anos. 
A cidade está mais bonita e calma. Pode ser do inverno. 
A ilha está mais bonita também. Pode ser dos meus olhos.
E a Ria Formosa fascinou-me. Pode ser do meu coração.
Conheço-a dali e a caminho de Vila Real de Santo António. De Tavira.
Mas ontem a Ria foi mais ela. Mais minha. Mais próxima e fascinante.
Foram olhos que já viram muito, que ma mostraram. Olhos que conhecem a beleza das coisas. A alma que existe no que é belo. Olhos que selecionam.
Fui eu de alma livre e receptiva. Fomos nós, pessoas que nos encontrámos num daqueles encontros e reencontros felizes, que sabem a amor que não morre, que é a amizade que une pessoas desde a escola, desde a terra onde nascem. E as pessoas dessas pessoas, também. 
Foi um dia maravilhoso. Longe da capital. No sul. Com sulistas.
Depois, o regresso. 
Trouxe na pele uma primavera antecipada e nos sentidos o iodo, o horizonte e o carinho com que fui presenteada. 
Trouxe no bolso um dia fantástico e no coração, amigos.
Não foi a primeira vez que fiz muitos quilómetros para abraçar alguém e voltar de seguida. E não quero que seja a última. 
Sou daquelas pessoas que diz que se Maomé não vem á montanha, vai a montanha a Maomé. Não terá sido bem assim, mas é com esta energia que ponho pés ao caminho e não perco as oportunidades que me são oferecidas, algumas vezes de bandeja. 
O caso...

aconteceste-me

Desperto sonho
Caminho segura
Na seta que indica destino
Linha que traça o caminho
Rio que vai ter ao mar

Sonhei com o teu olhar...

Deste-me um sorriso
Farol do teu luar
Dei-te a minha mão
Para me guiar 

Sonhei com o teu olhar...

Aconteceste-me...
Verdade
Sonho
Ou ilusão

Aconteceste-me...
E depois disso
Foi feitiço... 
Ocupaste a vaga
Do meu coração

Sonhei com o teu olhar...

m.c.s.

há notícias, que eu pagava para não as receber


A dona Maria José era mãe do Nuno e da Margarida. E proprietária da pastelaria mais conceituada de Torres Novas. 
Na época em que frequentava esse lugar, éramos muitos os que nos sentávamos na esplanada, nas noites de primavera e início de verão. Depois cada família ia de férias e a pastelaria fechava por quinze dias, indo esta senhora para Sesimbra, terra e praia de que falava com muita saudade, no resto do ano. 
Porque a filha Margarida era estudante de dança, tínhamos uma relação muito agradável e chegada. Como se percebéssemos muito desse tema. Os filhos colegas e amigos, uniam-nos. Juntando-nos muitas vezes nos mesmos locais para vermos peças da filha e também do meu filho. Para além das grandes conversas nas noites invernosas quando ia beber café depois do jantar e ela se aproximava para um dedo de conversa. Era uma pessoa bem informada e sabia de tudo o que se passava na terra. Porque se relacionava com muita gente. 
A dona Maria José partiu há uns quatro anos, talvez. Ficou doente e quando eu soube já ela estava enterrada. 
Na época andava eu a juntar cacos, a tentar equilíbrio mental e emocional, a fazer de tripas, coração, para seguir com a minha vida para a frente, porque ma tinham destroçado e a morte desta senhora acabou por ser um pouco diluída na importãncia que devia ter tido para mim. Mas eu não estava inteira, não tinha as cinco oitavas no lugar, o meu umbigo estava demasiado grande e era o centro do mundo, na minha própria desgraça. Se é que isso serve de desculpa. Não serve. E por isso de vez emquando penso nela. Desaparecida para sempre do meu círculo de amizades, pessoa afável, simpática, com quem partilhava um qualquer tipo de sentimento, se calhar, mesmo não sendo uma coisa muito chegada, permito-me chamar, amizade.
Esta manhã, acordei sobressaltada. Sonhara com a dona Maria José. O sonho, perturbante, por estar ao balcão e ela recusar-se a atender-me, ignorando-me, perturbou-me também quando acordei.
Perguntava-me eu porque diabo tinha sonhado com esta senhora, do nada, uma vez que não pensara nela, não falara nela nem nos que lhe eram próximos, tão pouco da pastelaria ou de torres novas, perguntara-me o que este sonho queria dizer, qual a mensagem a retirar, perguntara-me se alguém de torres teria morrido, quando o telefone tocou.
Era a minha amiga Manuela. E parecia o obituário. 
Primeiro falou-me da Esmeralda, uma senhora com alguma idade, que fora minha vizinha do prédio da frente e sua empregada doméstica. Já me tinha dado essa notícia mas não se lembrava. Foi antes do Natal. Depois, de outra pessoa, a Paula, com quem em tempos privámos bastante por frequentar o nosso clube de nutrição. E por fim, 
- Morreu a mulher do Jorge. 
- Que Jorge, perguntei, já com o coração numa taquicardia incontrolável.
Esta foi a notícia. Que me abalou.
Qundo desliguei o telefone entrou uma mensagem da minha caçula, dando-me a notícia.
Abalou-me porque ao longo dos anos, desde o meu estágio no tribunal que dela tenho memória, no Notário. Era a Amélia. De olhos lindos, azuis ou verdes, conforme a cor do dia. De sorriso tímido e voz doce. Mulher do Jorge. Bancário e cantor de música ligeira e fado, poeta e radialista num tempo em que a rádio local começou e eu estava muito por dentro de todas essas lides e bastidores. Cunhada do Júlio, meu companheiro de camioneta a caminho de Alcanena. 
Dia após dia nos cruzávamos no palácio de justiça. No café da frente, na loja, na rua, nas festas, nos festivais, nas sessões de fados, em casa de algumas pessoas, na pastelaria da dona Maria José...
Eu saí do edifício há 13 anos. Fui promovida e fui para Alcanena. Os meus fins de semana passava-os em Lisboa com os meus filhos. Depois, fiquei sozinha. Deixei de ir beber café á esplanada da dona Maria José. Deixei de fazer compras na mesma loja. 
Deixei de me cruzar com ela. Soube que se tinha reformado e que estava dedicada a artes nobres como a pintura e o desenho. Fazia exposições. 
Esta noite sonhei com a dona Maria José e não percebi porque tive um sonho com ela.
Não acredito em coincidencias. E Nem tudo o que parece, é. 
Nada sei. Mas sei que fiquei chocada e triste. Com a partida da Amélia. Mulher ainda jovem, aparentemente saudável, bonita, com vida para viver muitos e bons anos. 
Pessoa que comigo privou décadas e décadas. Desde 1976, data em que entrei para os tribunais como estagiária.
Há notícias que pagava para não serem verdade. Esta era um delas.


quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

oiço-te

Oiço-te voz
Inventada
Soletrada
Soprada até mim

brisa marinha
flor de jasmim...

Oiço-te desejo
Que me prende
E me solta o beijo
Na pele
Na alma, por fim...

mistura de manga
maboque e pitanga, assim

Oiço-te em eco
Cordas a vibrar
Música e cor
Na fímbria do mar
Na areia a bailar
Suave rumor...

Oiço-te simplesmente
Voz que grita
Chora de dor
Ri e chama
Cala e fala o que sente
E dá voz ao amor

m.c.s.

no canto da sereia

É no silencio da noite
Que me oiço
E me adivinho 
Canto da kianda,
embalando-me sonhos de menina

Pé ante pé
Antes que me sobressalte
Me assuste e chore 
E arrependa,
Mulher, 
ainda e sempre menina
Irei ao teu encontro
E te escutarei sem medo
Silencio da noite
Kianda do lago

Um dia tinha de ser...

Quero abrir os braços 
Respirar-te calmamente
Acolher-te 
E ouvir-te 
Melodias de amor
E no canto da sereia
Te acreditarei.

m.c.s.

á passagem do Rei Eusébio em dia de reis

Quando cheguei ao Rossio faltavam poucos minutos para as três.
Não fiz de propósito. Aconteceu. Porque tinha de acontecer.
Durante a manhã estive pouco ligada à televisão. A minha preocupação é o meu computador. Ontem à noite sofreu um acidente e a par disso, julgo que poderá estar com vírus. Isso deixa-me bastante aborrecida. Triste e desanimada.
Primeiro porque não estou na posse de uma quantia que me permita adquirir outro, segundo porque passo muito tempo acompanhada da internet e ligada aos familiares e amigos através desse meio de comunicação. E a custo zero. Um pormenor de que muita gente se esquece ou não quer lembrar, porque é mais fácil criticar, quando me " manda " viver a vida fora do pequeno ecran. 
Viver a vida é bom. Mesmo se através de transportes públicos. Mesmo se sem motorista. Mesmo que, sem marido. Sem mãe e pai. 
Mesmo que longe da terra. Mesmo que, com filhos ausentes. Mesmo que a viver sozinha. Sem amigos e familiares presentes, a viverem também as suas vidas. Como querem, sem que eu as belisque.
Viver a vida é o que eu faço. E nos intervalos da rua, do cinema, da praia, dos almoços e jantares fora, de encontro com amigos, da fotografia, da leitura, do trabalho doméstico, das viagens, estou na internet. Escrevendo. Publicando. Comentando.
Falando no chat. 
Hoje o meu destino era para o centro de Lisboa.
Cheguei ao Rossio faltavam poucos minutos para as três. Para viver a tal vida que é boa e eu gosto. 
Não fiz de propósito. Aconteceu. Porque tinha de acontecer.
Uma multidão aglomerava-se junto à rua. Desde os Restauradores, seguindo até à Rua do Ouro. 
Entrara na Casa da Sorte, antes, a tentar a minha sorte para amanhã, para no futuro não me lamentar por ter um computador, meu fiel e amigo companheiro, avariado.
Ao sair olhei a praça. 
Gente esperava, pacientemente, por que a morte viera roubar a vida ao Rei. Eusébio. E os vivos estavam ali para lhe prestarem uma última homenagem.
Porque não? Sei que não preciso de me emocionar. Sei que não preciso de chorar. Sei que não preciso de me castigar e fazer-me masoquista, mas, Eusébio, o Rei, merece. A minha espera, ao lado de anónimos, portugueses, ou não, benfiquistas, ou não. Para ver o rei passar na sua última viagem a Lisboa. Para lhe prestar assim a minha simples, sentida, homenagem.
Porque foi um homem bom, simples e popular. Embaixador de um país que o acolheu e estimou, até à hora da sua passagem, para lá disso, porque há-de lembrá-lo para lá de todas as cerimónias que a comunicação social com toda a justiça dará cobertura em directo. Para lá dos tempos. Bons e maus. 
Porque foi o melhor jogador de futebol de todos os tempos do futebol português. Porque cresci a saber das suas vitórias que foram as vitórias do Benfica, o meu clube. 
Porque o meu querido pai o admirava profundamente bem como o meu querido tio, benfiquistas até à medula. 
Porque é o Rei. Um ser de excelência. Singular. Especial. Cidadão universal.
Porque também eu lhe devo muito. Alegrias para o meu clube. Vitórias e campeonatos. Sorrisos e olhares de ternura perante a sua humildade e simplicidade.
Assim, no dia dos Reis, eu, anónima entre os anónimos tristes, consternados, emocionados, chorosos, vi passar pelas ruas de Lisboa, na sua última viagem, o Rei, entre flashes, lágrimas e palmas. 
Até sempre Eusébio.

- a seis de janeiro último -
existem erros no texto como sinais agudos quando deviam ser graves e outros, porque as palavras dependem das teclas caps lock e shift e um acidente com o computador danificou estas teclas impedindo-as de muitas das suas funções. 

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

amor

Não te procuro.
E também não te encontro por aí...
O que não há em nós que não cruzamos caminhos?
O que os astros temem e o universo rejeita?
Porque há uma estória terminada na narrativa que o livro dispensou?
Edição não vendida, falso romance de amor?
Não te procuro. 
E também não te encontro por aí...
nas linhas desse destino que pela primeira vez se enganou. 
Silenciaram-se as palavras. Perderam-se as rimas e os versos.
Antes do poema nascer. 
Porque será que o amor insiste, em nós, não se perder?
Não te procuro. E também não te encontro por aí...
Mas se um dia a lua sorrir ao sol, o mar sorrir à serra 
e a rosa desabrochar, no silêncio do nosso olhar, saberei que te encontrei. 
E não mais de ti me perderei, amor que ainda não sei.


m.c.s.

quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

...

Penso-te

e sorrio...

nunca deixei de te amar...

por isso sobrevivi

por isso te penso 

e sorrio...


m.c.s.

Bom Ano 2014


ontem, hoje e sempre


missiva e ... Viva o Velho!

Querido Ano 2013!

Começo esta minha missiva, dizendo-te, assim num repente, desses que me dão e não consigo silenciar-me, de caras e olhando-te bem nos olhos cansados de veres tanta sacanagem , mais eu, feita ao longo do ano, que te respeito muito. 
Também te digo que não sou de guardar para amanhã o que posso dizer hoje, até porque é só este momento existe, o que lá vai, lá vai e o que há-de chegar não sabemos como será. E também porque é hoje que estás na posse do dia. Ainda. Como dono absoluto destas derradeiras horas, que alguns queriam despachar e esquecer. Não eu. 
Se mandasse, acredita, inventar-te-ia mais alguns meses, todos com trinta e um dias, todos com a energia que tiveste em mim ao longo das estações. Todos com a coragem e a nobreza de que te vestiste, até quando escapaste por entre os pingos da chuva por via de actos, omissões e retaliações dos homens deste burgo, pretendendo, eles, tornar-te um ano antipático, difícil, de que tantos se queriam despedir logo nos primeiros meses.
Antes de mais e para que também eu não me torne ingrata, te digo, com toda a franqueza que me esforço por ter sempre, que foste um ano fixe. Para mim. E para os meus. O mais bacano, dos últimos que te antecederam. Especial. Por isso te agradeço do fundo do meu coração.
E porque não seria eu se não te escrevesse uma carta, já que tanto escrevi ao longo dos teus 365 dias aqui estou nas minhas escrevinhadelas, a que estás habituado e até tens incentivado. 
Aqui estou eu com as minhas pieguices. Claro...
Ter esta " delicadeza " não é obrigação alguma. Tão pouco me estou a querer insinuar. Ou penitenciar. Estás de restos e há quem diga que a cães mortos não se dão pontapés. Eu direi que é uma cobardia sem tamanho. E duma ingratidão desmedida. E é por isso que te quero meu igual, a fim de poder dizer-te umas quantas sem que te ofendas ou envaideças. Assim como dois amigos partilhando vidas. Tempos. Despedindo-nos.
Por onde é que hei-de começar? Talvez pelo fim, que é hoje. Chove lá fora. É inverno e faz frio. Eu não me importo. Ao longo dos dias fui criando defesas para me suportar, mesmo se o tempo é adverso. Pensar positivo foi lei este ano. Dei um basta ao pessimismo que nos rodeia a todos e nos quer envolver com teias e truques, sendo que as tarântolas ( perdoem-me as bichinhas ) vão ter de pagar ( espero por isso ) pelos castigos impostos a quem é inocente e não predador. Como essas espécimes.
Bem, mas não te quero baralhar até porque és velhinho e respeito as tuas barbas brancas e algum lapso de memória ou confusão mental. Mais nova sou eu e já me baralho toda e até tenho de pintar as brancas que me vão aparecendo.
Agora que estou mais descontraída e tu também, chegou a hora de abreviar a missiva, até porque outros como eu, há para aí tantos, é o que há mais, também querem dizer-te umas palavrinhas, só que não sejam pais nossos tortos, mas vamos ao que interessa. 
Pois então, passando em revista a minha vida e os acontecimentos vividos ao longo do ano posso dizer-te que não me tenho do que queixar. Não digo que foi mais ou menos, nem, assim nunca pior, não foi mau mas podia ser melhor, ou estava a ver que nunca mais acabava, à boa maneira tuga. Não caio em absurdos nem lugares comuns. De quedas estou eu farta e até me safei porque não caí ao longo do ano, nem no conto do vigário ou da desgraçadinha. Diz que era um ano protegido e não é que foste mesmo? Diz que era mais para voar. Não sei se voei, mas que tentei, tentei. O que já é um princípio. Ou por outra, voei, voei sim senhora. Do tribunal para fora, a caminho da liberdade pois que consegui a minha reforma, com o título de técnica superior do lazer, como diz a minha kamba, ela também já TSL e tornei-me num ser quase livre. A conjuntura política e económica deste país não me permitiu uma maior liberdade, mas isso foram outros quinhentos; fui enganando a crise, ajudada por uns e outros e Deus não me permitiu desacreditar de continuar a voar. Voei do Ribatejo para a Estremadura, voo esse que sonhei muitos anos, todos os anos da minha vida vivida no centro do país. Foi portanto um voo de vitória. Como o da águia. 
Não, não. Não vou dizer piadolas para te atingir. Tu lá sabes porque deste a vitória aos outros. E depois, é para o lado que durmo melhor...
Também voei de férias para sul, numa generosidade ilimitada de terceiros. Há quantos anos não fazia duas semanas de férias no Algarve. Sol e mar. Praia e água morna. Amizade. Fotografia. 
E fui de férias para Peniche. Com tudo o que isso significa para mim.
E estive de companhia da minha amiga de sempre, desde Abril a Setembro e estou agora mesmo, no finalzinho do ano. 
E no mês de Agosto outra amiga do liceu me fez companhia na praia de Carcavelos, o que não seria possível se estivesse no ribatejo. 
E nasceu o meu sobrinho neto. O único que é do meu sangue. 
E fechei portas ao passado. E abri portas ao presente. 
E esqueci mágoas. Enterrei-as e fiz-lhes o luto. Completo.
E assisti ao sucesso profissional dos meus filhos. 
E o Alfama-te fez-se presente. 
E conheci pessoas. Que estão na minha vida.
E tive convites interessantes que se poderão tornar realidades que me alegrarão.
E apaziguei-me.
E fiz cinquenta e oito anos. E estou viva. E as pessoas de quem gosto, também. 
Por tudo isto, porque foste tão generoso, apesar dos pesares exteriores, muito agradecida ano de 2013.
Desejo-te um descanso merecido. 
Ficas na minha memória como um ano bom. Para sempre.
Não sei virar costas ao passado e atirar-me de cabeça para mergulhar no que não existe. Ainda...
Nunca soube mergulhar e nem com tantas tentativas este verão, consegui. Burra velha não toma ensino. 
Por tudo e mais isso, ficas no meu coração. E assim, aqui me despeço.
E mais não digo...só adeus e ... Viva o Velho!

( a 31 de dezembro de 2013 )

toma lá uma passa... ( rescaldo do fim de ano )

Odeio passas.
Se insistem muito, eu até as aceito, conto doze, guardo-as na mão e com o propósito que lhe dão, ainda começo. A contagem. 
Rídicula a meu ver, já se fossem bonbons...
Passa número 1, 2, 3 e por aí adiante. Mas lá para o meio do ano, passa 6, 7, já estou enjoada e a sentir-me estúpida. Por essa altura, já estou em desespero e sem tempo, pois que os segundos são mais rápidos do que a função de as comer uma a uma e meto-as duma só vez na boca sem o menor prazer e sem o espírito que se pretende. No primeiro grande sacrifício do ano. 
Conclusão, nem entro com o pé direito, porque, ou estou sentada, ou parada, nem brincando com os hábitos e costumes que nos podem trazer alegria, prosperidade e tudo o que é bom. Do mais rico e belo.
Será por issso que...? ... não, não é por isso que...
De que me queixo? Tive um ano de 2013 muito bom. Agora que penso nisso. 
Por isso, com passas ou sem elas a coisa deu-se. O ano passou-se. Bem. 
Com mudanças significativas que me melhoraram a vida. Há quem diga até que sou uma felizarda. E no final das contas, sou. 
Também porque vivi um dia de cada vez e não exigi do universo nada que não pudesse ser-me dado. 
Odeio passas. Mas gosto de uvas. E de ver gente feliz.
Então por isso e porque há quem acredite, toma lá uma passa...duas, três, uma dúzia...

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

esperança

Na brisa que sopra eu quero voar, 
leve e segura para te inspirar
Nas asas de albatroz eu quero chegar 
A esse destino
Que é o sul do meu, teu, imenso mar
E mergulhar
E me revelar...
Nas horas que nascem ao sabor do vento, 
Da chuva e de um novo tempo
Eu quero aprender
Eu quero viver
De ti, horizonte em mim
Como se não houvera fim
Na flor que nasce, no pássaro que voa, 
No deslizar daquela canoa
Eu quero deixar de ser a criança
E ser a mulher, como a vida que avança
No dia que cresce
No sol que aparece
E te quero brilhar
E preciso de te amar...

m.c.s.

o primeiro dia

No dia primeiro
D' um ano tão novo
Só quero ser eu
Só quero ser povo 
Rir e chorar
Cantar e dançar
Olhar o caminho
E avançar....
No dia primeiro 
D' um ano tão novo
Só quero sentir
A brisa do mar
A música a tocar
Ser dança
Ser voz 
E esperança
E força vencendo
Em coro a gritar
Somos povo a lutar
Temos de acreditar...

m.c.s.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

caldinhos de galinha

Há dias que a gente salta a manhã e quando acorda diz naturalmente - boa tarde mundo - espreguiçando músculos, tendões, nervos, preguiça e vontade de despertar. Energicamente.
Não interessa se a manhã passou e não me bafejou com a sua frescura. 
Assim como assim não me parece que tenha perdido muito e o que ganhei numa noite em claro foi cansaço para me deitar na manhã fria e monótona deste lugar. E dormir frente a uma janela que acorda com os primeiros sons da madrugada, sem que isso perturbe o sono habituada que fui a viver perto de lugares onde a vida acontece. 
Incomoda-me bem mais o silêncio que o som dos dias e assim, hoje foi dia de levantar-me com a tarde.
O que fazer? O que comer? O que esperar?
Depois d' um batido para aconchegar o corpo e o espírito, é hora de pensar no almoço. Desengane-se quem pensa que os que vivem sozinhos não cozinham. Claro que sim.  Sobretudo se já são reformados. Essa é uma experiência que ainda não tem um ano, mas que não incomoda nem exige demais de mim e da vontade de estar na divisão da casa que me é mais grata. 
Cozinhar é um prazer diário. A minha terapia também. Cozinhar bem é a minha satisfação. 
E porque me apetece uma canja,  ( há anos que não faço canja ) o organismo lá sabe, foi atar e pôr ao fumeiro que se fez uma pressa. 
Enquanto a preparava pensei no Vítor.Não, não se ponham a adivinhar. Não o conhecem. 
Eu? Mal. Afinal quem conhecemos bem? Eu? Ninguém...
Pensei no Vítor porque está aqui à mão de semear, entrar e pedir um frango. 
- Minha senhora, partido em dois? 
- Sim, corte-o ao meio e depois aos bocados. Separe-o para duas vezes.
O Vítor do talho faz lembrar o Simpson dos desenhos animados. Uma personagem. 
Gigante,largo, impecavelmente fardado não faltando o avental branco.  
Sempre corado. Bem disposto. No seu vozeirão. Muitas mesuras, simpatias e sorrisos fáceis, palavra na ponta da língua, o que vai ser senhora dona...? e a gente nunca sabe se ele sabe o nosso nome ou faz isso com todas, até que há um momento em que o atira como quem não quer a coisa. 
- E o que vai ser mais senhora dona Clara, e eu suspiro aliviada porque odeio ser apenas um número. No mais das vezes, um zero à esquerda, talvez por ser canhota, talvez por outros motivos mais políticos e sociais. 
- Está bem assim minha senhora? 
- Não, não percebeu. Queria que partisse aos bocados.
- Aos bocados? Julguei que queria o frango para canja.
Na verdade eu ainda não sabia se ia fazer canja. Na verdade, fiquei preocupada por estar na fase de já só precisar de caldos de galinha. Na verdade, não era suposto estar na cara. Na minha cara. 
Afinal, não é que hoje fiz mesmo uma canja? Com hortelã e tudo. E soube-me pela vida.
Como é que ele adivinhou? Notar-se-á muito? 
Não quero nem saber porque caldinhos de galinha cada um toma os que quer. Desde que os pague...

saudades


Como não hei-de dizer aos quatro ventos e espalhar pelo mundo fora que a minha terra é o melhor lugar do universo, se depois de três décadas de ausência, foi ali, ao regressar,  o momento em que cheguei mais perto de Deus
Digo eu, numa saudade celestial, desses dias em que toquei o céu com a palma das mãos.
m.c.s.

reconhecimento

Conhecer os cantos da casa é um privilégio do dono da casa.
E que facilita a vida entre quatro paredes. Nossas...
Digo eu, que nem sempre sei a quantas ando, onde é a minha casa, qual o meu verdadeiro chão.


m.c.s.

incompreensão

No dia que o poeta for compreendido, nada mais haverá a dizer.
Fecham-se cadernos. Descansa-se a inspiração.
Acabam-se as rimas e os versos de ilusão.
De amor e paixão.
Porque o mundo será um poema.
Digo eu, preocupada com a poesia.

m.c.s.

impossibilidades

Deixo cair os braços para amores impossíveis.
Deixo cair os braços porque o impossível não se abraça.

Digo eu, a pensar no idiota que diz que o impossível acontece.

m.c.s.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

amanhecer

Acordo a tempo de me despertar
Manhãs claras
Nascidas da madrugada
Lugares do mundo 
Intimidade de mim
De ti, dos outros, 
E mais aqueles que adormeceram
Sem vontade de amanhecer
Sorrisos e gestos de paz
Acordo a tempo de me renovar
Hora certa, mais certa não há
Onde o sol me brilha por dentro
A pele amanhece grata e pura
E a mente, leve e segura
Acordo sem faltas nem sinos
Nem culpas
Remorsos
Desatinos...
Sinais que o tempo não espera
Não pára
Não devolve 
Nem recua
Acordo desejos de me amanhecer
Nas horas que o dia dá 
Nas linhas, palma da mão
Batidas do coração...
Abraça-me a saudade do tempo
Esse velho e sábio tempo que se perdeu 
Não existiu
Ou não sonhei
Adormecida no sonho que partiu
Que hoje me amanheceu
Acordo abraçada assim
Acordo desperta em mim

m.c.s.

era uma vez...uma história de Natal, precisa-se

Se eu fosse contadora de histórias recuava no tempo. Animadamente. Àquele tempo longínquo. Que se escondeu na memória, numa recusa de se findar. 
Àquele tempo tão longe que em dias do presente me assaltam dúvidas à lembrança real já tão rebuscada.
Àquele tempo tão bom que tem o tamanho da minha saudade. E voltaria assim, com muita imaginação e uma boa dose de boa vontade, a esse tempo feliz da infância. 
Ao Natal da minha casa, da minha rua, da minha terra. 
Não sou contadora de histórias. Não sei se tive o meu tempo nesse tempo longínquo. Não sei já se fui feliz, como fantasio nos tempos de hoje. 
Não sei se o Pai Natal existe. Mas queria a sua presença. Com todas as forças do meu ser sonhador. Neste agora de vazios.
Longe de casa. Longe da minha rua e da minha terra. Perto do desencanto e da frustração. Da saturação.
Os anos magoam. O tempo devora. As histórias choram saudades.
O presente é duro. 
As faltas são muitas. As montras ofendem. As famílias separam-se. Guerras, apoiam-se. Os jovens partem. Os velhos estão sós. 
A saúde adoece. A educação perde-se. A justiça é injusta. A humilhação violenta. O desamor mata. A fome incrimina. As esperanças morrem todos os dias. 
O Natal é uma fraude. O Pai Natal não existe. 
E eu, não sou uma contadora de histórias. 
Só que fosse uma aprendiz, sem responsabilidade nem perfeccionismo e atrever-me-ia a contar uma história de Natal, com final feliz. Como as dos livros de contadores de histórias de finais felizes. 
Nem que para isso banisse ( colocando-os nos calaboiços ) os vilões das histórias, que impedem os ouvintes ( desencantados ), de histórias de encantar, de viver uma feliz história de Natal. Justa, farta e merecida.

angústia

O Natal morreu-me nas mãos...

Os sinos deixaram de tocar 
E a meia-noite não chegou
Nem a missa do galo 
Nem os reis magos
Os presentes ficaram na lembrança e o musgo secou
Oiço ao longe os cânticos, quebrando os meus silêncios 
Afastando-se...
Não brilham estrelas no céu
O pastor perdeu-se na escuridão
O Pai Natal adormeceu na neve, minha solidão
O espírito natalício gelou 
E até o menino que era para nascer, abortou.

O Natal morreu-me nas mãos...

m.c.s.

os ses da vida

Se eu soubesse fazer um poema, 
daqueles que dizem que o amor me quer e eu quero o amor, 
daqueles que inventam borboletas, albatrozes e mares do sul, 
daqueles que não precisam cartas, recados, declarações, palavras, tempo, 
abraços e beijos, 
daqueles que não têm promessas, nem coração às avessas, partidos, colados, arrependidos, 
daqueles que a gente sabe quando é hora de amar, 
daqueles de juras para sempre, eternas, mesmo se por apenas uns versos, uma rima, 
hoje, domingo, soalheiro e abençoado,
hoje seria o tal dia, o escolhido, para te dizer num repente antes que se faça tarde, o poema rasgado e o dia amaldiçoado, que gosto de ti.
Quando me ensinares, se me ensinares, a inventar o poema , será hora de o declamar e nesse momento, o certo é sermos o amor. Do poeta...

domingo, 15 de dezembro de 2013

sinais dos tempos

O mundo vai civilizando-se. 
Cada vez mais, há divórcios. Pelos motivos mais variados. Pelos velhos motivos. Por não haver motivos.
Há porém uma nova atitude de quase todos os ex. ( odeio esta designação, mas fazer o quê? até eu que a odeio, a uso )
Em vida mantêm a devida distância. A necessária para que sejam civilizados. 
Ocorre-me até uma frase que no Ribatejo se usa muito e se calhar em todo o lado, que descreve um pouco essa forma de sentir que está no espírito de quase todos os ex: " Xó, xó melga, desinfecta a zona ". Cada um na sua, não vá o diabo tecê-las. 
Se se encontram, por via de circunstâncias, como, acontecimentos que envolvam filhos, há uma educação que se promove e faz questão, um engolir de sapos indigestos, nada que uns sais de fruto não resolvam, para que conste e fique bem, não vão os constrangimentos atrapalhar ou prejudicar. 
E à força do fazer de conta, do hábito, torna-se fácil esse relacionamento ocasional e civilizado. 
O mundo vai civilizando-se. E espero que seja para a vida. 
Mesmo que, no mais das vezes, cinicamente. Lavar roupa suja é para os electrodomésticos adequados. E não há necessidade de despertar falecidas questões.
E por falar em mortos e enterrados, termino com a situação fúnebre com que todos terminam. 
Não que seja uma coruja, ou carpideira, mas porque sim, já vai acontecendo o(a) defunto(a) ser acompanhado(a) à última morada pelos ex. e pelos actuais. 
Ainda é um prato cheio para os vivos que acompanham o morto mas tornou-se oportuno celebrar, perdão, chorar o seu ex vivo in loco, ao lado do (a) actual viúvo (a ).
Pode ser por educação, cinismo ou até para terem a certeza de que a dita criatura perdeu o pio de vez, mas que é muito civilizado, é.
É o que vale!

que dia!

Numa cidade a rebentar pelas costuras nesta sexta-feira treze, a duas semanas do Natal, centros comerciais à pinha, metros lotados, sacos aos montes, chapéus de chuva, correrias, centro da cidade molhado, iluminado, em festa, buzinadelas, castanhas assadas, Jovens vendendo droga numa mão e óculos de sol noutra, trânsito, muito trânsito, grupos cantando nas estações de comboio, metro, na rua, cânticos de natal, a palavra que me ocorre é SOCORROOOOOOOOOOOOOOOO! Tirem-me daqui. 
Depois de quase uma volta ao bilhar grande, de taxi, finalmente este pára em Santa Apolónia. Deixo a caçula no comboio das 18,46 horas e desço as escadas rolantes que me levam ao metro. Espero breves instantes. Ele chega. A estação é terminal. A carruagem onde entro está vazia. Sento-me numa ponta. Estico as pernas até ao banco da frente. Fecho os olhos e respiro fundo. Giro o pescoço para a esquerda e depois para a direita. Por fim, para cima e para baixo. Olho em frente. Ninguém.
Há uma sensação agradável e doce na solidão da carruagem. No silêncio. Em mim.
Finalmente o dia descomplica-se. Por breves minutos. O tempo de uma estação a outra. Mas vale a pena.
Ainda me falta muito para chegar a casa. Mas este tempo só meu, valeu para recuperar a paciência que terei até lá chegar, que é como quem diz, a espera do 36 no Rossio e a respectiva viagem até à rua de Angola. 
Percebo depois que não tenho tido muita paciência para as pessoas e situações. E ainda não melhorei. 
No autocarro, vai uma criatura transtornada, à minha frente. Homem de mais de sessenta anos, olhos esbugalhados, testa enrugada, voz desagradável. Insulta os fiscais. Insulta os " pançudos " das carris. 
Por isso é que não querem a privatização da empresa. Vinham todos para a rua. Perdiam os tachos, diz ele.
Olho-o mas ele desvia o olhar. Não quer ninguém a perturbar-lhe o raciocínio. A impedi-lo de dizer aquelas barbaridades. Meia dúzia de verdades, pensa ele. 
Ao meu lado, uma mulher negra. Que ri para a amiga que vai no banco de trás. Olha-me de lado. O homem da frente continua no seu relambório um pouco desarticulado, ofensivo e mal educado. Vão todos para o c.......a mim ninguém me manda calar. Tenho razão, há-de nascer o primeiro que me cale.
O fiscal que vai ao pé do motorista e que já passara com a máquina em tudo quanto era bilhete dos passageiros, franze a testa, sobe uma das sobrancelhas e com ar ameaçador dirige-se-lhe, tocando-o no ombro:
- Ó amigo, se diz mais alguma asneira vai para a rua. O meu amigo não viaja sozinho.
- Não sou seu amigo, f......! Não me volta a tocar. Já é a segunda vez. Estão a ver? Estão a ver? Os da carris são todos uns f.d.p.. Gorilas. Olhem para eles. Autênticos gorilas. E aponta para mais dois fiscais que se apeiam na paragem seguinte. No Saldanha. 
Nisto o telemóvel da minha companheira do lado, toca. 
- Ainda vou demorar. Hoje vim na camioneta. Porquê? Apeteceu-me. Estava na porta, quando ele me apanhou. Parou, eu subi. 
Estou mesmo aqui bem sentada a descansar. Já não estava mais com vontade de descer, apanhar metro, outra vez no Marquês até no senhor Roubado, para apanhar camioneta de novo. 
Deu uma gargalhada e continuou. 
O louco da frente calou-se. Para voltar à fala, quase murmúrio, asneiras umas a seguir às outras. Dá um pontapé num dos meus sacos que vai perto dos pés dele. Desculpe senhora. Não tem importância, disse-lhe. 
- Fingida maria clara, disse eu para a criatura de mim que vai morta de cansaço e exausta de aturar gente. A tua vontade era atirares-lhe com uma coisa qualquer às trombas. Uma coisa daquelas bem pesada. A ver se se portava com decência. A ver se se calava de vez e parava aquele murmúrio carregado de palavrões cabeludos.
No Lumiar pede licença para passar e sai. 
Dali à rua de Angola é um instantinho. 
Saio do autocarro. Já não chove. A noite menos fria, está mais húmida.
O pedinte que tem os cabelos parece um ninho de cegonhas lá está sentado no banco de madeira, em frente à marisqueira. Apesar da hora a rua esta concorrida. À medida que o tempo vai passando e eu aqui diariamente, menos receio tenho, mais segura me sinto. Deve ser de me começar a sentir em casa.
O Fernando do supermercado está a arrumar a fruta, que, em caixotes está o dia inteiro no passeio. Pergunto se ainda posso entrar. A Marta logo me diz que, sim, claro dona Clara. Desta vez não me chama Olívia. Nem sei como. 
Num instante as minhas compras atingem a quantia exigida para usar o multibanco. 
Ainda bem que estão abertos apesar de ter passado da hora deles. Amanhã madrugo para fazer quatro dúzias de pastéis. A pedido. As compras ficam feitas e já posso madrugar despreocupadamente. 
Abro a porta da rua. Subo as escadas. No segundo andar oiço miar.
Ocorre-me que há uma certa gata que desde ontem iniciou um cio assustador. Será que vou dormir esta noite? É que a noite passada, essa gata deu-me água pela barba. Só a mim...
Abro a porta de casa e ela não está logo ali. Percebo que está deitada no móvel onde deixo as chaves quando não ficam na porta. Olha-me em desespero. Faço-lhe uma festa. Poiso os sacos. 
Toca o telefone. Atendo.
Que dia!

À memória de Nelson Mandela

Felizmente, finalmente o corpo de Nelson Mandela vai repousar para sempre. 
Este arrastar das cerimónias é uma tortura para quem é próximo. E próximos somos todos os que admiramos a figura de Nelson Mandela.
A única homenagem que me ocorre neste momento, enquanto vejo a reportagem em directo da TVI 24, de Qunu, terra do Pai da Nação sul africana, não tem palavras minhas, mas de Paulo Salvador, o repórter da estação televisiva e muito nosso conhecido e estimado angolano do Lubango, que disse tudo o que há para dizer.
" Nelson Mandela é o homem que qualquer um de nós, qualquer homem, queria ser "
Eu, humildemente me curvo perante este Guerreiro de Luz e me despeço com um obrigada e até sempre.
Descansa em paz Madiba.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Estátua de D. José I - Praça do Comércio





ai que nervos!

Finalmente em casa. 
Fecho a porta à chave. Largo o saco e a carteira.
Atiro com as botas, com o cachecol e o casaco. Descalça, vou à cozinha beber água.
Que securas! Horas e horas rodando, enganando-me, voltando atrás, perguntando. Aborrecendo-me com a menina da caixa central. 
Por causa da incompetência da outra. A da caixa normal. 
Cheia de fome. Empurrando o carrinho com três módulos, de um móvel. Pesando horrores. 
Encalorada. Farta. Derrotada. Irritada. Ai que nervos!
Não desisti mas esteve por uma unha negra. Estava já a mandar tudo para as urtigas quando vi um funcionário. 
- Pode ajudar-me? 
- Boa tarde. Diga lá.
- Preciso de chegar ao corredor nº 2, secção 11, a esta referência. 
- O que é que não encontra?
- Tudo. Se não me ajudar, desisto da compra. 
- Mas eu ajudo-a. Vou lá com a senhora.
E foi. E colocou os módulos no carrinho. E lá fui eu empurrando, batendo em tudo o que me aparecia à frente. Do tipo, robô. 
Se desmanchasse o personagem, parava, sentava-me em cima dos módulos, batia com os pés no chão violentamente, desatava aos gritos e a puxar os cabelos, histericamente.
Raios partam isto, maria clara, estou eu agora a pensar. 
Um pouco mais calma. Já capaz de recapitular a tarde que vivi. Sentada no meu sofá preferido. Respirando fundo. Enrolada na manta. Sozinha com Dona Pitanga. Que está empoleirada nas minhas pernas. 
Raios partam isto, digo eu tão baixinho que nem me escuto, porque se oiço a minha voz, sou acometida duma vergonha gigantesca. É que apregoo liberdade e vai-se a ver...
Dou a mão à palmatória. É que...
Nem sei como hei-de dizer isto. É difícil. Engolir o orgulho e dizer que um homem faz muita falta.
Os músculos do homem. 
A força do homem. 
A vaidade do homem. 
A frase preferida do homem. Quero, posso mando. 
Hoje eu deixava. Que quisesse. Que pudesse. Que mandasse.
Que usasse os músculos e a força e carregasse os módulos. A vaidade de o conseguir.
E mais, porque não é tudo. Que me fizesse poupar 68 euros.
Sim, porque tive de pagar 29 euros pelo transporte e 39 pela montagem do dito móvel.
Decididamente um homem faz falta. Ou quem se faça passar por ele. 
Porque eu, bem, eu não tenho nem músculos, nem força, nem vaidade. Tão pouco sou do tipo, quero, posso e mando. Não sou motorista. E também não faço biscates.
Sei lá eu o que é uma chave de fendas, uma porca ou um martelo de orelhas. Tenho ideia do que é um parafuso porque não sou doida. 
Finalmente estou em casa. Não desisti. Não gritei histericamente e também não rezei pais nossos tortos, nem chorei baba e ranho por me ter faltado um homem. Esta tarde.
E assim como assim, foi melhor assim. Para evitar uns quantos nervos, uns metros de esforço empurrando o maldito móvel e poupar 68 euros, a festa ficava-me demasiado cara. 
Há gostos que não valem os desgostos. 
E depois, está tudo resolvido. Móvel comprado. Transporte e montagem paga. Agora é só esperar que um ou mais homens me entrem casa dentro, montem o dito e mo deixem no lugar que eu escolher. Porque da minha porta para dentro, eu sou o homem da casa. E quero, posso e mando. Às vezes...