segunda-feira, 21 de outubro de 2013

os homens

Não gosto da expressão pouco imaginativa e sem graça " Os homens são todos iguais ". Ou " Daaaaaah homens! " ou ainda " Homens, está tudo dito ".
Menos ok? Nem tanto ao mar...
Acho injusto, que é que querem?! Recapitulo a minha história e encontro nela,homens fantásticos. A saber, o avô Carvalho, sô Santos, tio Augusto, mano Zé, o meu filho, para não falar daqueles ( alguns ) de quem recebi algo parecido com amor.
Hoje não é o dia do homem. Parece. Mas não. Tão pouco vem aí chumbo.
Há dias que uma mulher tem rasgos de consciência e pensa. 
Ontem calhou-me. Dei comigo a pensar nesta espécie com alguma tolerância.
Perante factos. A que me rendi. Portanto ressalvo que não estou a ser puxa-saco nem tão pouco me deu agora para o elogio. 
Poucas vezes distingo homens de mulheres. Mesmo caindo no lugar comum arrisco dizer, porque é verdade, que para mim, há pessoas. E mais nada. 
Claro que, se estou com os bicos da placa do fogão faiscando, sem que os tivesse acendido, entro em pânico e não me ocorre sair a correr de casa direita ao supermercado para pedir ajuda à Marta. Páro em frente ao Mário e digo-lhe que estou com um problema que por acaso sei descrever muito bem, como mulher que sou e decepciono-me quando ele me diz que não percebe nada do assunto, mas o cunhado ( homem portanto ) pode resolver-mo, ignorando qualquer aptidão da Cristina, sua cunhada e eu até acho pensando bem, com cara de quem desaparafusaria o forno para desligar o fio do isqueiro do fogão, na boa ( agora que já vi estou pronta para o fazer ).
Claro que se sair à noite, prefiro um homem para me levar a casa. Os músculos servirão para alguma coisa se for molestada.
Claro que se penso no amor, na paixão, no colo, é em homem que penso.
No mais, são pessoas. Importa pouco se não vestem saias, não pintam os lábios de vermelho, as unhas dos pés, não dão importância a pormenores, deixam a tampa da sanita levantada, discutem no trânsito, ouvem relato de futebol no rádio do carro, ou têm vergonha de passar a ferro. 
Volto então a dizer que ontem a minha tolerância, para não dizer admiração, que isso seria dar-lhes muita confiança, aumentou de forma inequívoca. 
É que as mulheres, lá estou eu a cair no mesmo erro, mas não sei de que forma posso dizer isto a parecer que tudo é a mesma coisa, porque não é, as mulheres adoram comprar. Consumir, gastar, exibir. E vão às compras. Sem eles ou com eles.
Se o fazem sem eles são mulheres felizes. Isto se têm poder de compra e usam o seu próprio cartão de crédito. 
Se o fazem com eles, mulheres felizes são. Porque...aqui é que está, eles ficam à porta. Pagando, ou não. Esperando. 
Ridiculamente esperando. Quase sempre. Sentados nos sofás e bancos, nos corredores dos centros comerciais, empoleirados nos varandins. Lendo jornais. Desfolhando revistas. Dormindo de boca aberta, babando-se para o lado. Ou no limite, entusiasmados, olhando por cima dos óculos as boazudas que passam mexendo provocantemente as coxas. 
Não há dúvida. Os homens são uns santos. Uns anjos, alguns, papudos, mas não vou desvirtuar agora a espécie, porque eles merecem que me debruce sobre o assunto.
É que dar volta a uma loja leva no mínimo meia hora e estou a ser muito razoável. Escolher a mala, a calça, a mini-saia, a blusa ou o casaco, ou tudo isto duma assentada só, leva mais uma hora. Continuo benevolente. Experimentar as peças pode custar mais meia-hora, até me sinto ridícula a fazer estas contas de cabeça, entrar na fila e pagar, outra meia. Nisto passaram-se duas horas e meia se não estou em erro. E o desgraçado lá fora. Coçando a cabeça, metendo conversa com o segurança da porta, mandando mensagens à dita compradora, por vezes compulsiva, bufando, avermelhando-se, ameaçando entrar na loja e fazer um escândalo, fazendo figura de otário, ou ficando aliviado e feliz quando finalmente ela sai da loja. E nem sequer quer saber quanto gastou ou em quê. 
Não! Tenho de me render. Homem ganhou! Como se diz na banda. E rendo-lhe as minhas homenagens. Para além de que há homens e homens. 
Não são todos iguais nem andam todos as medir pilinhas. Por isso, quando falarmos de homens, devemos sempre pensar - Homens? Ponto e vírgula, devagar com o andor. Não são todos iguais. Há uns...mais iguais que outros. 

outonando-se


sexta-feira, 18 de outubro de 2013

sempre acreditando

Quem tem medo não arrisca nem se surpreende. Sem riscos, morre de susto e solidão.
Digo eu, que já fui medrosa... 

m.c.s.

acreditando

O improvável se faz possível. Assim nós o queiramos.
Digo eu que já vi cada coisa do arco da velha!

m.c.s.

chove ou não chove?

Diz que hoje chovia todo o santo dia. 
Preparei o espírito para um dia caseirinho e descansado. 
Mas...tão? Cadê a chuva?
Se é para chover, venha ela.
Não precisa de chover a potes. Nem a cântaros.
Tão pouco que chovam picaretas. Ou até que os cães a bebam de pé.
Mas não gosto deste chove-não-molha. Destas encolhas. Deste tempo que nem..., nem... sai de cima. 
É que eu preciso de parança. De me organizar. De me disciplinar.
De parar. 
Esticar as pernas e descansar.
De não gastar. 
Se chove, poupo. E a conta bancária, a carteira, o cartão relaxam. 
Se chove não saio de casa. Falo ao telefone ( fixo ).
Escrevo, e enxoto o senhor alemão. Que senhores destes não me fazem falta nenhuma.
A Pitanga fica contentinha.
A casa também, cheirando a limpeza. 
A cama rejubila feliz, à maciez dos lençóis. Mudados.
O sofá adora. E eu adoro o sofá neste amor mútuo e interesseiro.
O pijama não se importa de se passear pelo dia.
O banho não se importa de esperar.
A cara não reclama de maquilhagem nem esta reclama a função.
A máquina de lavar excita-se nas lavagens. 
A chaleira assobia alegre.
O fogão pisca-me o olho.
A batata doce salta bailando à frente dos meus olhos.
A manga espreita-me madura. 
A vela quer chama. 
A antena 3 quer uso.
O muzonguê segreda-me ao ouvido, mágicas palavras. Provocatórias. 
Que me fazem água na boca.
A televisão sorri-me. 
E o computador idem.
Ligo-me ao mundo. Israel, Timor, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Brasil...
E o chapéu de chuva? Esse fica peladinho por ir ao multibanco ou à loja.
Enfim, tantos planos para esta sexta-feira e a chuva a falhar!
Que desilusão! Afinal chove ou não chove?
Quero cumprir a parte e deixar o espírito satisfeito.
Só hoje...Nossa Senhora da Conceição. Faça chuva, sol não.

por falar em medicamentos

Há uns 3 dias achei ter sido mordida por mosquitos. Num braço. Depois noutro. E fiquei por isso mesmo. Começaram as comichões dolorosas, sobretudo no braço e mão esquerdas. Muito piores que aqueles dias comichosos que tive por via dos mosquitos algarvios.
Odeio consultas médicas. Tenho medo deles que me pélo. Acho sempre que pessoa que caia num consultório nunca mais de lá se tira. Uma queixa puxa outra. Uma dor também. E de repente dói uma unha do pé e quando damos por ela já nos doi a virilha. Isto é o que eu acho e por isso e porque a saúde, dizem, é uma utopia, não fui eu que disse, foi mesmo um médico que se preparava para operar a minha cria caçula quando tinha nove anos, que me disse olho no olho. Passados que foram dezoito anos, posso dizer que, felizmente, a saúde venceu o pessimismo (?) desse médico, mas não deixei de ser hipocondríaca. 
Por isso quero estar longe de medicamentos. Em minha casa apenas existe o inderal que tomo diariamente por causa da maldita taquicardia. Se dói a cabeça nunca tenho um comprimido. Se tenho uma dor de barriga bem tenho de me aguentar com ela. Se tenho uma dor na costas vou a correr comprar reumom gel. Enfim, passo a vida negando sintomas, ou dando-lhes cobertura. Entre o esquecimento e o medo da doença. Sempre quieta no que respeita a visitar médicos e comprar medicamentos.
Agora percebem porque é que há três dias tenho uma borbulhagem que dá uma coceira desgraçada e ainda assim nem sequer toquei no assunto? 
Hoje, ao passar pela farmácia que tenho mesmo ao pé de casa, decidi entrar. Três dias já eram demais.
Fui explicando que tinha umas picadelas de mosquito, outras que pareciam de pulga e outras ainda que davam muita comichão.
A farmacêutica tirou logo o retrato aos meus braços. Detergentes novos ( pode ser ), pó, porque lhe tinha acontecido o mesmo, disse ela. 
Vim para casa com menos 18 euros e com a esperança de que a noite não fosse tão má assim. No que respeita a comichões. 
A pomada já a pus. O comprimido debaixo da língua ( confesso que achei estranho ) também. E agora estou atordoada e com um sono que nem me deixa ver as fotos que tirei hoje, a Lisboa.
Há vidas melhores, mas eu , já só quero a minha. Sem comichões.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Angola



Angola é uma lágrima que tenho presa na alma 
Solta-se e rola sem qualquer razão 
Na emoção... 
Meu país, meu choro.
A minha descompressão

O meu sorriso. Um arrepio 
A minha diferença
Angola é o meu sol. Desde a nascença...
Meu astro brilhando 
A ideia me envolvendo.
Tudo se renovando...em mim

Tal e qual num jardim
E é a lua cheia e um céu estrelado 
Um universo de luz e sonho.
Magia 

A minha alegria
É um mar de saudade
Por vezes calema...

Por vezes silêncio e calmaria 
Angola é meu hábito de receber e dar 
Meu eco
Minha teimosia de amar 

Palavra habitando em mim num poema suspenso 
Numa razão 
Na minha inspiração
Minha miragem
Angola é a porta, a saída,
O meu destino

A minha força
Angola é a minha viagem...

m.c.s.
( foto retirada do google )

domingo, 13 de outubro de 2013

é o Outono

Olho, através da janela, o monte verde que o verão desmaiou para castanho, em frente a mim. E eu, de olho nele, todos os dias, vendo as mudanças. Adivinhando pincéis borrando a pintura. Esbatendo coloridos. Parece lhes escuto os gemidos.
Olho o céu branco, acinzentado, se é que se pode dizer, sem restos de dias solarengos e andorinhas esvoaçando. 
Por aqui não há nuvens, quais carneirinhos e ovelhinhas passeando-se pelo universo. O firmamento é de cor branca de uma nuvem só. Sustendo as lágrimas, mas pronta a desabar. Inevitavelmente.
O sábado silencioso parece se calou à sua condição outonal. E concordou com ela. 
Assim mesmo é que é. Faça-se justiça ao tempo.
Afinal estamos no outono ou não? Pode lá ser? Andar de chinelos, blusas de alças e calções e olhar as lojas repletas de Natal. Cheirando a família, rabanadas e perú recheado. Presentes.
Pode lá ser, castanhas aos pulinhos e o suor misturando-se com o fumo e o velho pregão?
Chocolate quente apelando ao espírito e o gelado seduzindo a saudade do mês que acabou. 
O chapéu de chuva novinho em folha, resto de saldos de loja fechada, mais uma, e nem uma gota, caindo do céu. 
E a camisola trazida pelo carteiro, para começar a nova estação? E a bota que a loja acertou, na cor, no preço, e até no salto.
E o edredon afagando o corpo? A meia, o chá de gengibre, o pão com chouriço, o leite com mel, o casaquinho cardado, a manta, o sofá, a televisão, os filmes de amor.
Então e as folhas caídas no chão? Árvores castradas, estrelas escondidas, noites mais longas, dias chovendo, frio fazendo? E a preguiça, o sono, a lágrima e a depressão? O vazio e a negação? 
A criação? Poemas e versos de solidão...
Então e a culpa morrendo solteira?
É o Outono em ascensão. A ponte para a outra estação. Oposta ao verão.
Olho através da janela, o mundo lá fora. Assim mesmo é que é. 
Cumpre o outono a sua missão. 



sábado, 12 de outubro de 2013

ser feliz

Ser feliz, é uma condição da alma. Não se anula a circunstâncias adversas. Digo eu, que apesar de ter já vivido perdas, dores, sofrimentos, não sou a imagem da infelicidade. 

m.c.s.

reflectindo

Abrindo o facebook constato que o people é muito feliz.
Está na cara. Está na atitude. Está nas publicações.
O facebook é um universo de alegria, positivismo, ostentação, competição, realização.
Os meus amigos ( do facebook ) são felizes; alegres, bonitos, elegantes, ricos, bem sucedidos, bons pais, bons filhos, bons amigos, bons cidadãos e óptimos convivas. Convivem todos os dias da semana, a todas as horas.
Socializar é a palavra de ordem. As imagens de luz assim o dizem.
Ele é fotografia de sorrisos, olhos brilhantes, roupas bonitas, bebidas de excelência, pratos de porcelana. Casas fantásticas. Automóveis de luxo, barcos de recreio. Animais com pedigree. Férias de sonho. Viagens.
Ele é lugares mediáticos. Da moda. E da cultura. Do lazer. 
Ele é amigos dos amigos, lindos, bem dispostos, interessantíssimos, ricos. Como eles.
As melhores pessoas do mundo. A melhor vida, também. 
Os sorrisos e os olhos brilhantes dizem tudo. O nariz empinado também. 
De facto, os meus amigos são pessoas felizes. 
Apesar de terem dias de publicações tristes. De desabafos iguais a todos, que não saem das suas mentes positivas, mas são lugares comuns. Vulgares. Populares.
Críticas. Apontando dedos em direcções várias. Endereços mais que certos. 
Apesar de ressabiamentos. Maldades. Cinismos. Provocações. 
Apesar de publicações preconceituosas. Xenófobas. Homofóbicas. 
Apesar de cutucarem onças, mandarem recados agressivos, exagerarem na dureza das palavras, terem mau perder. 
Apesar de tudo, os meus (?) amigos são pessoas felizes.
Fico a pensar nisto... 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

uma história de afectos

Chamava-se...pois. Cresci vendo-o diariamente na loja de sô Santos. Tratando este por tu.
E ainda hoje não sei como se chamava. Se Seitas, se Setas ou se Seta.
Sempre falei dele como Senhor Setas.
Já não pertence ao mundo dos vivos, porém ficou para sempre na minha memória.
Razões, muitas. Várias, me levam, neste dia ruim para mim, a recordar um amigo do pai. A falar do meu pai. Sô Santos.
O senhor Setas era um homem gigante. Fui crescendo e olhando sempre debaixo para cima e mesmo quando parei de crescer não consegui apanhá-lo nessa medida de comprimento. 
Castanho cor de cacau, pertencia a essa terra que era ver para crer. São Tomé. 
Trabalhava na Fazenda Nacional, na Mutamba. Era casado com uma mulata clara, que se chamava Ester, se não estou em erro. 
Vivera no largo onde eu cresci brincando e angariando amigos que ficaram para a vida inteira. Ainda hoje o são.
Usava balalaica e chapéu na cabeça. Calças de linho brancas sujas ou cinza claras com dobra e muito engomadas e vincadas. 
Sapato picotado branco e preto. E bengala. Mas não coxeava. Devia ser só para a banga, como se lhe faltasse esse pormenor para o estilo. Fumava cachimbo. E o jornal andava sempre debaixo do braço. Era uma figura e tanto. 
Homem sem idade, porém mais antigo que sô Santos, era dono de uma educação esmeradíssima e nunca falava comigo ou com a mãe, que não tirasse o chapéu e fizesse uma vénia. 
Todos os dias ao fim da tarde, descia do maximbombo que iniciava na Baixa, na Mutamba e parava em frente à loja. E entrava. E ficava horas, até escurecer, conversando com o meu pai, encostado ao balcão, de cerveja na mão e descascando jinguba. Que comia, a par com o senhor Eurico, que trazia sempre uns camarões, num saco, para os três. Amigos que eram, os três. 
Esta figura fez parte do meu dia-a-dia na avenida brasil. Quando eu comemorava aniversários ele rompia a barreira do corredor, que separava a loja da sala e entrava para me dar dois beijos de parabéns e comer uma fatia de bolo.
Tratava-me por Clarita e sorria de orelha a orelha cada vez que me via.
Um dia, quando tinha dezasseis anos, adoeci. Parecia uma coisa simples, mas complicou-se bastante. O avô tinha deixado Porto Alexandre para ser internado na casa de Saúde de Luanda por via d' um problema pulmonar e ali permaneceu algum tempo. Depois convalesceu em nossa casa e mais tarde partiu de novo rumo ao sul, onde o esperava mulher e filhos. No dia em que viajou para o seu destino, fui parar ao hospital. Não sei se de pena, de dor de ficar de novo sem ele, de saudades, ( eu fui sempre, completamente apaixonada pelo avô ) se de quê, que não sei até hoje. 
Sei que a minha tensão subiu, deixei de comer, entristeci, emagreci bastante e tornei-me hipocondríaca do nada e vai-se lá saber porquê.
Na fase em que já estava a entrar nos eixos, no caminho de regresso do liceu para casa o senhor Setas saiu-me ao caminho. 
Parou, fez a costumada vénia, tirou o chapéu e estendeu-me a mão para me cumprimentar. 
- Clarita, como estás? 
Respondi que estava bem mas ele insistiu.
- Já estás boa? O pai anda preocupado. Muito preocupado contigo.
- Porquê? Perguntei surpreendida. 
- Porque ficaste doente. Um dia destes vi-o tão triste que lhe perguntei o que é que tinha. Até chorou. Disse que estava com medo que não melhorasses. Com medo que perdesses o ano na escola. Anda muito triste, o teu pai.
E nesse momento eu cresci. E angustiei-me. Pelo pai. Pela preocupação e tristeza do pai. Não sabia que os pais choravam pelos filhos, que o pai, chorava por mim. Por tão pouco. Achava eu...
E percebi que o amor de pais é o mais forte que existe. E nunca mais olhei o senhor Setas do mesmo jeito. Se lhe tinha respeito, passou a ser um ser sagrado. 
E nunca mais olhei sô Santos, o meu pai, do mesmo jeito. Eu há muito desvalorizara os meus achaques e no meu egocentrismo nem me apercebi do mal que provocara nas pessoas que me amavam, o meu estado de saúde.
Nesse dia compreendi que amava o meu pai acima de qualquer suspeita. E que o amaria para todo o sempre. Incondicionalmente.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

hoje, porque sim

Guardo memórias antigas. 
Tão antigas que me convenço que são do ventre da mãe. 
Do colo do pai.
Queria reunir numa grande festa de comemoração de vida, quem me carregou nos braços, me beijou o rosto, me acompanhou na escola, me ensinou a ler, me contou estórias, me limpou as lágrimas, me disse adeus.
Gostava de parar o tempo. Manipulá-lo. Imortalizá-lo.
Enfeitá-lo de fé e esperança. E não sofrer às lembranças. 
No meu percurso, não apaguei o que vivi, quem amei, no ontem e anteontem que ficou para trás. 
Não ocupa espaço. É cósmico. É energia.
Vagueia entre o coração e a memória. 
É a minha história. 
E eu apaziguo-me do que já vivi. Recebo o presente e espero o futuro. 
Hoje o dia é de ontens. Aninha-se nesse tempo remoto. 
Partiste tão cedo para o passado, pai...

na posse duma estrela

 Eu já desconfiava que tinha uma estrela...
Bruxa não sou. Mas pareço, nesta adivinhação que a sina me dá. 
Alguém reafirmou a minha intuição. Com créditos...
Senti-me brilhando por aí, qual sol de verão prolongado.
Qual estrela de mar, rainha das águas prateadas. Salgadas. Amadas.
Qual constelação iluminando a terra dos sonhos, que hei-de sonhar.
Qual estrela de Hollywood bonita e elegante, famosa, brilhante.
Qual estrela da tarde, iluminando caminhos, percorrendo as estradas, atravessando as pontes, para a felicidade.
Hoje sinto-me poderosa. Não é todos os dias que nos dizem que temos uma estrelinha...
Não por isso. Mas por acreditar nisso.
É caso para dizer que hoje me sinto abençoada.
A bem dizer... estrelada. Clara já eu sou...

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

em dia de greve do metro ( ontem )

O compromisso, assumi-o antes de saber que havia greve do metro. Mantive-o apesar disso. O 36 está aí para o que der e vier. E na pior das hipóteses está o barraqueiro ou a rodoviária para não falar dos taxis. Estes, só se de todo não lhes puder escapar. Porque os preços escaldam. Só por isso, claro. Quem não prefere andar de taxi? Eu nem sou masoquista. 
Antes de sair de casa vi as entrevistas aos utentes do metro, hoje, dos transportes públicos a funcionarem. Quase todos revoltados. Quase todos intolerantes. Quase todos contra tudo e todos. Quase todos a favor dos seus umbigos.
Cheguei à paragem do 36. Deparei-me com uma fila nunca vista. Não costumo sair de casa em dia de greve de transportes. Fi-lo hoje por via do compromisso que não quis desmarcar. E também, para quê disfarçar? Para ver como a cidade funciona em dia anormal e condicionado pela greve. Afinal não sou kunanga? Não sou senhora de mim própria? Não gosto de observar? 
Na paragem do 36, fiquei a ver navios mais de uma hora. Passou o primeiro completamente lotado. Nem sequer parou. O segundo apenas iria até ao Saldanha. O último, finalmente me serviu. Entrando empurrada e empurrando, deparei-me com um espaço cheio e confuso. Fiquei junto dos lugares para deficientes. Na paragem antes do Campo Grande uma das passageiras ali sentada ergueu-se e eu sentei-me. Não havia deficientes físicos por ali se bem que gente completamente desprovida de senso e educação, era mato. Quase pedi desculpas por estar bem disposta, sendo que qualquer mal encarado recebia aplausos.
Junto ao motorista um aglomerado como se estivessem a fazer um comício ou melhor, em conspiração.
Um homem senta-se atrás de mim. Ao lado de outro muito mais jovem. O primeiro critica.
- A que propósito é que se amontoam na entrada quando têm lugar aqui ? Nem deixam entrar os de lá de fora. Parecem bichos. 
- Sua estúpida, diz uma mulher que fura o grupo e aparece junto de mim. Está ali colada ao motorista e não deixa passar ninguém. Deve querer aquecer o homem. Gargalhada ( quase ) geral. Encorajada pelas gargalhadas, repete, sua estúpida...
Assim passámos o Saldanha quase uma hora depois de ter deixado o Senhor Roubado.
- Não sei o que é que eles querem mais, ganham mais de 2.000 euros, só os maquinistas, porque os da manutenção limpam 1.500. 
O país de tanga e estes palhaços a brincarem às greves. Ainda se acautelassem os direitos dos utentes...eles que façam as greves deles mas não nos prejudiquem.
- Se não fosse para ser assim não adiantava nada, diz o rapaz que vai sentado ao seu lado. Embora que não seja o governo que eles prejudicam, porque esses já lá têm o dinheiro dos passes. E deslocam-se em grandes bombas, não precisam dos transportes.
- Você é da Guiné? pergunta o mais velho.
- Não. Sou angolano.
- Angolano de Angola ou já nasceu aqui? 
- Angolano mesmo. Aqui estou só a estudar. 
- Aquilo lá está a ficar bom...
- Já esteve pior, mas enquanto a educação e a saúde não estabilizarem não fica bom.
- Sou amigo do filho d' um que já lá estiee a fazer grandes obras. 
- Quem? Soares da Costa? Mota Engil e ainda há outro. Teixeira Duarte.
- Desse mesmo. 
- Eles agora também estão mal. O governo fez um acordo com a China e os chineses como são mão de obra barata são os preferidos. Pior é que os edifícios estão a ruir. Mas alguém está a ganhar com essas negociações. 
O autocarro pára nos Restauradores, para outro carregamento. Sai muita gente também. Começam a aparecer lugares sentados. 
Alguém toca para a saída no Rossio. Finalmente a minha paragem. Saio sem dificuldade nem atropelos. Desta já me safei. Logo ao regresso, se verá. Entre mortos e feridos alguém há-de escapar. Espero estar na lista dos sobreviventes a uma greve que reconheço como legítima e que respeito porque é da minha natureza fazê-lo. 


segunda-feira, 7 de outubro de 2013

até um dia destes...

A porta fechou-se. 
Desceste as escadas. Em voo antecipado.
Nas asas que te dei. Que conquistaste. 
Que usas. Em jeito repetido. 
Em vão, tento que esse gesto não me seja sofrido. 
Oiço vozes de mim dizendo que não vou chorar, não vou chorar, não vou chorar...
Sento-me no sofá da sala.
Rola vagabunda uma lágrima rebelde e desobediente. 
Uma voz do meu eu mais lúcido diz que respire fundo. 
Porque não há forma de não doer.
Não há forma de me habituar.
Ficou um silêncio que me magoa.
Ficou também a certeza de que és uma casa cheia.
Fiquei só, de novo. 
Até um dia destes...

Vivam os noivos

Como diria o mwangolê, está a sair um casamento búlgaro aqui ao lado. Paredes meias com as minhas.
De facto eu não sou cusca. Mesmo nada. 
Porquê? Porque fui apanhada de surpresa...com música ensurdecedora, muito acima dos decibéis aconselhados; ele eram trompetes, flautas e clarinetes. Como deve mandar a tradição.
Também uma fila descendo barulhantemente as escadas; convidados, e familiares ( conheço alguns ) vestidos a preceito e para o efeito. Eles de branco, fato completo, brilhante, de doer as vistas. Elas, de vestidos de noite, longos, rodados e cheios de folhos, como se vestiriam as damas nas festas antigas, com um toque de exagero piroso no brilho, mas pronto, cada um veste-se como quer e gosta...e pode. Saltos agulha e cabelos artisticamente penteados. Maquilhagem exagerada. Bonitas, espampanantes e alegrezinhas, a bem dizer.
Alguns dos convivas transportam para baixo, doces e bebidas e uma limusina branca na rua aguarda pela noiva que se fez esperar mais que a conta, dada a impaciência dos restantes, que esperavam na rua.
Fui surpreendida por um casamento mesmo ao lado de mim. Paredes meias. Mas gostei de ver a animação da festa que envolve este acto antes tão importante e para toda a vida e hoje banalizado e que já não é a carta fechada, mas sim, um e-mail, descarado e breve muitas vezes mandado por terceiros e acabando com a vidinha a dois. Felizmente que para alguns povos ainda é levado a sério e os convidados não se chegam a arrepender do dinheiro que gastam, do tempo que perdem nos retratos e da seca que é no mais das vezes.
A estes noivos desejo uma vida feliz. Como nada sei, não sei se serão meus vizinhos. Eles são mais que as mães por metro quadrado, por isso não me admirava que aqui ficassem a viver. Mãe, pai, nora, filho, bebé e a noiva já cá vivem. Há tempos apresentaram-se. Simpaticamente. A noiva desfaz-se em sorrisos quando me vê e já me abordou por causa do meu perfume. Cheira muito bem, senhora. Disse-me, ao mesmo tempo que me olhava de alto a baixo, sabe-se lá porquê. 
Enfim, já cá vivem tantos que mais um, dois ou três, o que é isso? Pormenores sem importância, para eles que saíram das suas terras para procurarem uma vida melhor por terras lusas. Dá vontade de rir, mas fazer mais o quê?
Vivam os noivos! Que casaram hoje. E são meus vizinhos. Será bom prenúncio? A ver vamos.

descomplicando

Nos tempos que correm, Lucidez, para mim, significa descomplicar.
E num círculo vicioso, descomplicando, a vida me torna muito mais lúcida.
Digo eu não querendo complicar...

m.c.s.

domingo, 6 de outubro de 2013

reflectindo

Perante altares sagrados, mais terrena e vulgar pessoa me vejo e sinto. 
Digo eu, lendo geniais obras primas, pérolas, com que enfeito a minha necessidade de sonhar. E de ser desenhadora de escrevinhadelas.

m.c.s.

pleonasmo

Manter um espírito feliz é uma arte do coração.
Uma inspiração da alma criativa.
Eu quero ser uma eterna parideira da felicidade.
Digo eu, prenhe de esperanças...

m.c.s.

a propósito

No meu percurso, Maturidade, significa desvalorização.
Perante os fracassos. 
Significa, juntar e embrulhar os desapontamentos, colocá-los na beira do caminho em recipiente próprio, não os valorizando. E seguir adiante. 
Num misto de amor próprio e determinação. Quem sabe, memória curta, coração robusto e renovável?!
Transformá-los em experiências e ensaios para os sucessos.
Cada vez mais, sou madura...digo eu!

m.c.s.

porque é sábado e porque sim

Onde estou? 
Puxo o lençol. Tapo a cara e ponho a descoberto uma alma sedente de sol. São os primeiros raios entrando pela janela, no tecto.
Há uma gaivota esvoaçando por cima da minha cabeça, por cima do sótão da casa. Por cima da minha noite pequena. 
Parece lhe estou a ouvir o chamamento para o dia. Para o rio já ali, que até parece lhe posso olhar a partir daqui. Parece me está a chamar para me debruçar à varanda e inspirar o ar conseguido da manhã.
Sem pressas, nem relógio marcando tempos programados, repetidos, escusados, oiço o sino da igreja próxima. Parece desperta acordes em mim, sem fim. D' um passado que não tenho por aqui. Parece quer provocar arrepios de pele. Parece quer inventar borboletas brancas esvoaçando. Cânticos. E coros, cantando-os.
E oiço vozes de gente pequena brincando na travessa empedrada do bairro que adivinho daqui porque lhe vejo as escadinhas, subindo para a tradição do fado, da boémia e inspiração, dos mais velhos. 
É sábado e isso muda quase tudo. Até a vontade de permanecer deitada, pés doridos da caminhada da noite, verdadeira empreitada de obra muito apreciada. Até a preguiça reinante, merecida e desejada.
Porque é sábado, este dia assinalado no século de então, perdurando através do calendário do tempo e dos homens, comemorado com orgulho e abnegação,  há uma luz, semáforo verde da minha esperança de o passar tranquila e em segurança. Sinal perfeito para um dia com tempo de história, de pátria de quem a ela pertença. Mote para a contemplação, para a alegria e para os pequenos nadas que o tempo de agora oferece de bandeja, outono mascarado de verão. Puxo o lençol. Vermelho, de moderna forma de estar. Gosto disso. Aprecio quebra de tradições e costumes. 
Deixo o rosto a descoberto. Olho o tecto falso deste laço verdadeiro que me prende ao espaço, ao bairro, ao ser que aqui respira noite e dia e sinto-me pronta para mais um dia. De sábado. De amor. Nesse laço eterno na minha eterna forma de sentir, prendendo e desatando a vida e quem pari. 
Onde estou? No lugar onde o universo me coloca para me brindar. Na rota do amor mais puro. Na curva da sua chegada. E aqui quero permanecer enquanto for sábado. Também por o ser...

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

desejo

Quero uma sina fácil.
Dias simples. 
Pertencer a um lugar e cuidar das raízes. 
Parar para escutar a voz da minha alma. 
As vozes do mundo que me abraçou na nascença.
Saber o que quero. Saber o que preciso. 
Saber o que posso esperar.
Sentar-me. Deixar o horizonte para trás. 
Rodear-me das lembranças e envolver-me de histórias. 
Abrir o álbum e sorrir às memórias.
Reconhecer o meu povo, minha família. E amá-la.
Respeitar o voo dos pássaros e as ondas do mar. 
Receber da terra, campos de papoilas e girassois.
Quero uma sina fácil.
Vozes bonitas, mil ecos de risos e canções de esperança.
Nos rostos negros das crianças. 
Rosas brancas cheirando a colo de mãe. 
E o colorido das buganvílias enfeitando o muro, assento da minha solidão.
Flores de frangipani espalhando o perfume pelas manhãs.
E quero na facilidade dos dias, tardes longas e noites estreladas.
Madrugadas sonhadas.
Mão amiga. Olhar sorridente. Palavra cumprida. 
Silêncio prometido. Meta alcançada. 
Quero uma sina fácil. Um dia...vou conseguir.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

estado d' alma

Por vezes sinto-me vagueando pelo passado, alma que não cabe no presente.
Por vezes sinto-me vinda do futuro, chocando nas almas que vivem no momento.
Por vezes, muitas vezes não sei em que tempo caibo. 
Não sei se tenho o tempo a meu favor. 
Não sei se tenho alma. Se a entendem.
Se sou uma alma livre ou uma dor d' alma.
No mais das vezes deixo falar a alma, não importa a que tempo pertenço.
Não importa se duvido dela. Se duvidam dela.
Queria ser uma alma em busca do tempo certo, d' um caminho, uma luz.

m.c.s.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

no fio da navalha

O tempo, hoje, fazendo-se sentir a meu favor...
Me tocando. Não de leve. Não roçando, como a pena d 'um albatroz o faria. 
Ou dedos de amor platónico. Ou a timidez de recente amor...
O tempo, hoje, fazendo-se sentir a meu favor... 
Me tocando. Com a destreza do ser velho e sábio. Desapegado e primário. 
Como sacristão toca o sino da igreja. Ecoando. Acordando os distraídos. Chamando para a sua fé. 
Como pianista toca as teclas do seu piano, na força da inspiração, no talento da alma inquieta. Na loucura do solitário. Incompreendido.
Hoje, a vida me toca. Mais. E me grita que existe e eu faço parte dela. Sacudindo-me. Espicaçando-me. Emocionando-me. 
E eu me arrepio. 
E eu me sorrio. 
E me choro, por dentro. 
Deixo soltar-se, livremente, este pranto e entrego-o por conta dos momentos belos. 
Dos dias de sol e mar da minha necessidade de me suplantar, pessoa humana, que veio, não para ficar, mas para eternizar pequenos sopros de vida, pequenas emoções, pequenas correntes de ar fresco e puro. 
Fossilizar pequenas partículas de talento, pequenos poemas, grandes almas em construção. Mesmo que apenas para uma breve imagem de luz. 
Eu choro soltamente, rios transparentes, procurando caminho, sem filtros e sem rumo traçado. Porque a emoção chora juntamente 
com a minha vontade de viver explodindo caudais de alegria de ser desconhecida do mundo, íntima de mim. Amiga de mim. 
Esperança de mim...
Reconheço-me hoje ser vivente com todas as fraquezas e pecados. 
Perdões e salvações. 
Anónima. Pequena. Insignificante. Eu, irmã de mim.
E estando o tempo a meu favor, hoje, me declaro emocionada com os pequenos grandes nadas que o presente me oferece. 
Agradecida.
Mesmo se a vida me é apresentada hoje e sempre, no fio da navalha. 

outonando-me

Cheiro-te terra molhada
Sinto-te vento feroz
Oiço-te trovão desgarrado
Calando-me o medo
Roubando-me a voz
Outonando-me em segredo
Há um não sei quê de triste
Um choro calado
Um suspiro contido
Um fatal destino
Nas folhas que caem
No musgo da estrada
Na calha inundando
No dia começando
No tempo que não evolui
Que não disfarça
Não se anima
Não desiste
Nem floresce
Tão pouco se dá, à nova estação
Há um não sei quê de usado
Antigo e lúgubre
Repetitivo
Magoado
Neste sinal de vida
Olho-te noite que cais
Escorregando pelos beirais
Às aves já de partida
Ao sonho que foi adiado
Toco-te céu carregado
Nuvens negras
Furacão
Espero-te sem muitas esperas,
Que te renoves, coração...

m.c.s.

domingo, 29 de setembro de 2013

chegar a casa...

Quem faz sete horas de viagem, atravessando o mar e o mapa, espera este momento com ansiedade. 
O da chegada. A casa...
Ela faz-se quando nos anunciam que estamos a chegar a Luanda. 
E a emoção acontece. E a ansiedade, dá lugar, naturalmente, sem imposições nem exigências, a esse sentir tão forte e incontrolável que é a felicidade. 
Olhamos pela janela e vemos a nossa terra. Melhor, o nosso mar. 
São as primeiras imagens de luz. As nuvens, a água, o nevoeiro, os barcos lá em baixo. 
É Cacuaco!
Que felicidade! Que emoção! Quando se chega a casa depois de décadas, de vários anos, de dois, três anos, ou mesmo de um ano, passados. 
Nesse momento somos imortais. E o mundo pára. 
E não há nada, mesmo nada que seja mais importante que esta imagem de amor e de fé.
A nossa terra diante de nós. 
E nós tocando o céu com a palma das mãos...
Aiuê Luanda! Minha querida terra que te amo tanto...
Aiuê Luanda! Minha querida terra que tantas saudades te tenho...

m.c.s. ( fotografia kapiangada à querida amiga Ana Domingos, a sua chegada a Luanda; os barcos no mar em Cacuaco )

Luanda à vista

Aiuê Luanda!
Aiuê kamba Ana Domingos. Agora deste cabo da minha resistência. Desabei literalmente. Viajei e cheguei a casa...
Já algumas vezes vi Luanda fazer-se presente em mim, deste jeito. É uma emoção que só quem está a vivê-la sabe quão forte e avassaladora é. 
Agora e aqui esta imagem de luz teve o condão de me fazer arrepiar mais do que a pele, a alma carente da nguimbi e os meus olhos fizeram-se mar...
Obrigada querida amiga por me fazeres tocar o céu com a ponta dos dedos, através da visão que foi real para ti ontem e é aquela que já vivi e com que sonho deste lado da vida e do tempo, enquanto não chego... 

( foto de Ana Domingos, tirada a chegar a Luanda, ontem, quando já se vê um pouco da cidade o mar e a Ilha de Luanda ou Ilha do Cabo ) 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

entre palavras

As palavras esconderam-se de mim.
Parece estar a ouvi-las ao longe dizerem, não digas nada...não há palavras, para o que tu queres dizer.
Calo-me então. Acho têm razão. Faltam-me as palavras. Aquelas certas, direitas ao sonho e ao coração. Aquelas que enternecem, sorriem, choram e memorizam. Aquelas que nunca serão esquecidas. Aquelas que calam fundo...
Não digo nada, porque me faltam além das palavras, as vírgulas e os pontos de exclamação. E também as reticências ou um simples ponto de interrogação. 
Falta-me a verdadeira arte para a intenção, para o recado e suposição, para a provocação.
Não dizer nada é quebrar este silêncio da manhã e olhar para trás. 
É lembrar todos os dias, horas e momentos. 
Todas as ilusões e ambições, todos os propósitos de paz. As soluções. 
Acenar ao vento. Colher a rosa do jardim, inspirar o perfume, oferta do mar, observar o voo do passarinho livre, sentir o cheiro da terra orvalhada e mergulhar nas cálidas ondas do azul, verde esmeralda da minha paixão. 
Sorrir ao sol e à lua crescendo. Embalar cansaços e insónias. Abraçar noites de descanso. Receber o colo da amizade e adormecer a minha saudade. Navegar no sonho e acordar manhãs.
Não dizer nada, é, avistar horizontes de suposições e agarrar presentes, sem olhar a promessas. Futuros planeados. Jurados. 
Sortes sorteadas. Acasos. 
As palavras esconderam-se de mim. Fiquei com as mãos cheias de nadas, mente suspensa, coração sentido, alma agradecida e tanto por dizer...
Oiço ao longe repetirem, não digas nada...não há palavras, para o que tu queres dizer. E eu, fico assim, entre palavras...

aurora

Há nas primeiras horas da manhã promessas cumpridas. 
Aquietam-se os grilos. Param os pirilampos de iluminar o negrume que se clareia à luz da lua e do tempo passando veloz no relógio da torre da igreja.
O gato mia à janela. O guarda-noturno completa o quarteirão. Mais uma ronda na calada da noite dando voz às primeiras horas da manhã. 
De quando em quando, uma viatura cruza as ruas que se encontram na porta de casa. 
Em breve outras promessas se farão cumprir.
Em breve, a noite deixará de dormir.
Há nas primeiras horas da manhã, o nascer do dia, igual a tantos outros. 
Há preguiça, sono e fome. Pressa. Discussão. Desencanto. Metro. Autocarro, barco, comboio. Pesadelo. Dever. Resignação. 
Só nos corações boémios e livres nasce um poema. 
Hora rimará com aurora, manhã com maçã. Queixume com perfume. Flor com amor. 
E eu, juntarei as rimas, subestimarei os poetas ávidos de noites partindo e dias chegando e soprarei palavras soltas para enfeitar esta madrugada em trânsito. 
Depois...depois a prosa me inspirará e despertarei para este novo dia. 
Envolta em poesia. 

m.c.s.

digo eu...

Depois da bonança, vem a paz e a perseverança. Digo eu que nada sei...

m.c.s.

para lá do que não vejo

Olho o horizonte sem fim
Perdido dentro de mim
Tacteado pela minha mão
Coração
Sonho breve a sonhar
A perpetuar
Ilusão...
Em união
Céu e mar
Memória de solidão
Perdida e encontrada
A minha história traçada
Na linha onde é poente
E com alma de quem sente
A minha viagem marcada
Faz sentido
Não findar
De repente...
Olho o horizonte presente
A alcançar
A prometer
Não se afastar
Sonho breve
Em comunhão
Céu e mar
Não desisto de o tocar
De o sonhar
Com a alma de quem sente
E não mente
Olho o horizonte sem fim
Prometido 
Gerado e encontrado
No infinito que há em mim



m.c.s.

por falar nisto


Adoro crianças. Dizem mulheres que não têm filhos. Ou mulheres que querem mostrar bondade de carácter.

As crianças crescem, gente. Digo eu de que...

m.c.s.

reflectindo sobre o silêncio

foto tukayana.blogspot.
Quando o silêncio nos mexe com a alma e lhe fala palavras de emoção e lhe transmite a paz santa que lhe reconhecemos, eu acredito que o silêncio é sagrado. De ouro...

m.c.s.

Reflectindo sobre o sorriso

Sorrir faz bem à alma. À nossa e à dos outros. 
Sorrir é aceitar. É dar e receber. 

Se me fosse pedido um último gesto, uma derradeira manifestação de vida, eu sorriria...para sempre.

m.c.s.

reflectindo sobra a vida

Tenho p' ra mim que quem se cruza no meu caminho, mesmo que brevemente, já fez parte da minha vida, quem sabe numa outra vida, numa outra encarnação...
Eu acredito. E isso permite-me aceitar também, os encontros, nas esquinas da vida, que me deixam marcas que doem. Fazem parte do meu crescimento.
Felizmente são mais os encontros que perduram nos tempos e nos lugares. 
Tempos felizes. Lugares inesquecíveis, pessoas para a vida. 
Fazem parte da minha memória e moram no meu coração irremediavelmente.
Há encontros que nunca se dão. Porque não têm de se dar. Porque se calhar é um erro de casting. 
Será que o universo se engana?
Tenho p' ra mim que não. 
Quando olho de frente para Deus, peço-Lhe que me tire do caminho quem não me fará bem. Que me evite desgostos, desilusões, prisões.
Ele deve fazer isso, porque me sinto, feliz, esperançosa, livre.

No outono quer se queira quer não

Estes primeiros dias de chuva fraquinha, qual cacimba prazerosa, limpando a poeira da estrada, trazendo cheiro de terra molhada, apelando ao casaquinho fininho, ao romantismo, ao chá de gengibre e ao livro de cabeceira, ao filme que está no cinema, são muito fofos. Como bálsamo que acalma os loucos e quentes dias de verão.
Parecem abraços bons de quem nos quer bem. Beijos de mel. Afagos...
É Setembro no seu final.
É uma estação a começar...
Mas quero ver só quando o acordar for chuvoso e o deitar também. 
Quando as folhas cairem e as andorinhas partirem.
Quando a hora mudar e o dia findar cedo demais.
Quando o frio chegar...
Eu em casa. Eu dormindo cedo. Eu sozinha. Eu...e mais de mim. 
Aborrecendo-me. Esforçando-me. Reconstruindo-me. Outonando-me.
Que deprimente!
Não há pior estação para o meu coração que o Outono.
Acho que porque o universo sabe disso, pari as minhas crias em Novembro. 
Para me dar algum alento. Vida...
Por enquanto, ainda com a memória cheia d' um verão fantástico, a pele morena do sol amigo, o sul em mim, vou passeando os olhos pelo tempo, inspirando o ar fresco da manhã e aproveitando este presente que a natureza me oferece. 
Depois? Logo se vê. 

karma

Tenho uma gata que me quer acordada logo pela madrugada. E da cama p' ra fora, o que é mais grave e caricato.
Se eu finjo ( que cena! eu a fingir perante uma gata... ) que estou a dormir, não desiste.
Faz de tudo para que eu abra os olhos. Assim que percebe que não vou dormir mais, mia mia mia, como se o mundo fosse acabar, até que lhe vá pôr comida húmida ( gulosa ).
Consegue, porque tudo é preferível, a ouvir miar logo de madrugada. 
Entretanto, com toda a logística que isso envolve, acordo para a vida e para o dia. 
Resultado, quando chego a esta hora, isto passadas 4 horas de ter sido acordada à má fila, estou a pender, de sono. E não posso com uma gata pelo rabo. Só me apetece dar com a cabeça nas paredes. 
Bem me avisaram que ter um gato em casa ( há 4 anos ) era ter quem mandasse em mim. Fingi que não acreditei. O resultado está à vista.
Ai Dona Pitanga, Dona Pitanga! Deve pensar que sou mãe dela, ou filha, ou quê...

Mundo Cão "Anos de Bailado e Natação"

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

quase

Foi quase a palavra certa. 
O olhar e o sorriso. 
A voz.
Foi quase um passo...de mágico. A arte do encontro.
Foi quase uma onda. Um barco. Um mergulho. 
Uma viagem...mais.
Foi quase um voo. De albatroz.
Quase uma linha, uma ponte. Um passadiço. Quase um horizonte.
Foi quase o sul. O meu verdadeiro sul da expectativa da rendição. 
Da liberdade de ser o que quero. Para o que fui destinada.
Há no quase que me aproxima do sonho convertido na realidade que ainda não fiz chegar, um destino adiado. 
É na viagem e não na chegada que construímos a felicidade. 
Que a reconhecemos.
Que nos preparamos para a viver.
Vou, enquanto isso, viajando dentro de mim, ao encontro do meu eu, pronto, para ser feliz. 

m.c.s.

Sagres



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barragem do Arade

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Pescando na barragem. Desafiando o risco.

espreitando o horizonte

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quarta-feira, 18 de setembro de 2013

ria do Alvor

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terça-feira, 17 de setembro de 2013

em modo turista


paz

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domingo, 15 de setembro de 2013

emoção

foto tukayna.blogspot
Os sinos não tocaram à minha entrada. 
Ninguém para mim olhou. 
A passadeira vermelha se a tinha não dei por ela. 
A luz das velas misturava-se com o tempo chuvoso e tristonho deste verão em despedida.
Acho porém que Alguém me viu, me tocou, e me convidou a entrar e me fez chegar ao altar.
Os cânticos, as vozes em coro, descendo até mim, vindos d' um céu que os homens oferecem para a meditação, também me tocaram. 
A pele se arrepiou e os meus olhos, ai os meus olhos... choraram. Na emoção. 
Na presença de mim, força que cede e se declara vulnerável. E vê ali um colo. E encontra ali refúgio. Abrigo.
Queria acreditar. Queria acreditar na igreja, na mensagem que tenta passar. Não sou capaz. De elevar a alma e entregar-me à causa, cegamente. 
Mais apaziguada seria. 
O que me leva então a me aceitar neste lugar de culto? A paz. A serenidade. 
O alvoroço do meu coração. A meditação. 
O ajuste de contas com a vida e comigo. 
A luz que acendo às velas que coloco. 
Os cânticos. As vozes que se erguem aos céus e tocam o mais fundo de mim e desencadeiam um soluço. Que me despem e vestem e me viram do avesso e me fazem chorar sem filtros, nem silêncios.
Sem culpa nem angústias. 
Num desabafo imenso. Num alívio. 
Num excesso de adrenalina. 
Afinal, uma necessidade.
Sentei-me a olhar as imagens. Em tarde de céu encoberto e alma exposta.
Repleta. Completa. Agradecida.
As lágrimas correram soltas. O soluço, mil soluços, contive-os. Melhor, asfixiei-os. Guardei-os. Para outro tempo, outro lugar, outra estação. 
Os sinos não tocaram à minha entrada, mas ainda ecoam dentro de mim.
Alguém me viu, me tocou e me convidou a orar. E eu orei...

sagres

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fim de tarde em Ferragudo

foto tukayanablogspot

para mais tarde, recordar...

Celebrando o verão, a noite, a amizade.

paz

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olá cegonha...

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em modo fotógrafa

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Medronhos, na serra.

em reflexão

O que me faz comunicar sem desistir?
O desejo de abraçar meio mundo e ser abraçada pelo outro meio.


m.c.s.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013