domingo, 14 de julho de 2013

contemplando

Olho através da vidraça, o mundo lá fora. 
Não tenho vista para o mar.
Não tenho a linha do horizonte, nem margens, nem adivinhações.
Não tenho albatrozes voando, nem sonhos se aproximando.
Não tenho motivos, exigências ou planos.
Não tenho amores nem desamores nem motivações ou provocações. 
Não tenho paisagens na memória, que hoje amanheceu presente. Sem peneiras nem fantasias. 
Não tenho futuros de fé, neste dia outonal e farrusco.
Não tenho orações, preces elevando as mãos nem céus azuis e santos.
Não tenho terra nem crias junto de mim. 
Olho através da vidraça, o mundo lá fora. Tenho montes em tela castanha. Pintados de verde esperança. 
Tectos de casas já velhas. Chaminés e antenas. Parabólicas. Tentativa de modernidade. 
Oiço uma bola bater pela mão duma criança, no rinque dos dias calmos como hoje.
Oiço o choro d'um menino, que se lamenta noite e dia e que não há forma de o calar.
Oiço o sino tocar na igreja, a chamar para a missa dos crentes.
Olho através da vidraça. 
Cansam-me os olhos, indiferentes. 
Desvio o olhar desanimada e olho dentro de mim. E vejo o que não vi ontem nem verei amanhã. Em mais momento nenhum. E pestanejo. E tiro os óculos. 
E arranco-me sorrisos e conclusões. 
Não tenho o que não depende de mim. Mas oiço o meu coração, a razão. 
Apago o que quero e renovo o que me apetece.
Afinal, tenho-me por inteiro neste domingo baço e desinteressante. E faço de mim o que me for mais favorável. 
Nem que seja, chorarem-me os olhos de tanto olhar para o que vejo e não vejo.
Olho através da vidraça. Olho dentro de mim e capto com o olhar clínico, o meu melhor plano.

Habib Koité - N´Teri


Porque hoje é domingo, vivo na Europa e tenho um saudade visceral da minha placenta.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

o dia dê

É hoje.............................................................................

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Aimee Mann - You Do

 Porque senti saudades...

para te dizer olá

Depois de pés ao caminho, mente desejando e voluntariando-se na imaginação para não ser longo e chato, 
depois de passar a avenida dos castanheiros selvagens a passo de caracol, 
depois de avistar o azul ao longe e o desenhar todas as vezes que não venho até aqui e que hoje não esteve verde esmeralda mas que foi tão acolhedor como há muito tempo não era, num baloiçado embalo, umas vezes doce outras mais alvoraçado, sempre branco e divertido, 
depois do túnel das toalhas pindericamente garridas, eis-me finalmente, bem lúcida, na praia que é igual a ontem, e a todos os ontens e anteontens que já a vivi e se torna especial porque é a que tenho. E foi escolhida, imposta por mim para este fim. Um dia feliz.
Sim, porque não percorro tanto caminho para morrer na praia, se bem que facilite. Por vezes acho mesmo que me estou só a pôr a jeito. Mas não há-de ser grave. A insolação. Que mereça internamento e cuidados médicos e hospitalares. É verão, calor e ilusão.... 
Céu, mar e areia é tudo o que preciso para reconstruir o clima. 
Há um povoado inteiro na beira da praia. Na margem de cá. 
Como um rio navegável, há uma fileira de cabeças e corpos seminus ondulando-se ao sabor da maré. Correntes trazendo e levando prazer. Parece baloiço de kanuco. Parece posso ir ao sabor da espuma, na primeira onda que me há-de encorajar. Até chegar à outra margem, feito rio, eu jangada, chegando finalmente a terra quente e firme.
Até te avistar. Sim, porque mesmo na imaginação, mesmo na saudade do futuro, não faço a viagem em vão. O momento é este. E eu estou aqui só para te dizer, olá.

hoje

Acordei de alma adormecida e mente num turbilhão.
A alma diz que sim, a mente diz que não.
E eu digo que as duas têm razão.

m.c.s.

entre ditados e pensamentos

" Se bô nasce num pé d´manga ca tem hipótese de ser um laranja " ditado caboverdiano que muito gosto.
Se tu nasces num pé de manga (( d'uma mangueira ) não tens hipótese de ser uma laranja.
Não fui eu que disse mas assino por baixo.

m.c.s.

nem mais uma palavra...


quelle chaleur!

Abençoados os ricos. Deles é o reino do ar condicionado sem pensamentos pobres como a conta da luz no fim do mês.
Digo eu que quando ligo o único que tenho e é na sala, faço contas que sou rica e esqueço-me que era péssima a matemática.
É que com este calor, até o rico desconfia que fica burro quanto mais o pobre!

m.c.s.

lembrando...

Eu não me esqueci de ti. Eu tenho é a memória fraca para lembrar o mapa e te localizar no meu coração. Digo eu que ando meio perdida e não encontro a rota dos pontos cardeais.

m.c.s.

desejo

Hoje eu quero a rosa dos ventos. Para sentir a brisa do sul e florir poderosamente.
Digo eu que não costumo pedir muito, mas quem não pede, não ouve Deus.

m.c.s.

na busca da fé

" Eu não sei quem é Deus mas vivo como se o conhecesse " disse Manuel Sérgio, o professor das " estrelas ".
Maravilhoso! Belo! 
Também eu queria, todos os dias da minha vida dizer, que não sei quem é Deus, mas vivo como se o conhecesse. Estou lá perto. Um dia Deus me dará o privilégio de viver em mim sempre, porque me tirará todas as dúvidas. Acredito, eu...

m.c.s.

é o julho a acontecer

Acordei nostálgica. E assim vou continuar.
Julho nasce, sorri, vibra e chora em mim.

Estou em tempo de sentir-me a perder, num jogo que a vida trava com o meu tempo.
Digo eu, que me estou a envelhecer.

m.c.s.

pipocando


sexta-feira, 5 de julho de 2013

Musicas de Cabo Verde - ( Morna, na vós de; Bana- Isolada)


De repente vi a música. Abri o vídeo para tentar saber qual era. As músicas do Bana são demais conhecidas. E amadas. 
D'um tempo quando tinha quinze anos e fui viver para junto de uma família caboverdiana, cuja matriarca de nome Arminda, me ensinou a amar Cabo Verde e a estimar e respeitar o povo caboverdiano. Conheci ali na sua casa muita gente boa que jamais esqueci e que recuperei quando estive em Luanda há uns anos atrás. 
Esta música, esta morna, era cantada por uns e outros quando decidiam fazer serenatas, também a mim, por isso a sei de cor num crioulo invejável que me foi ensinado por essas pessoas que ficaram no meu coração para sempre.
Obrigada mano Zé por ires descobrir sabe-se lá aonde esta morna que tanto me diz...

aspiração

Há momentos que queríamos eternos. São especiais e únicos. 
Porque há pessoas especiais e únicas que nos oferecem momentos eternos. E nos tornam também únicas e especiais.
Quero o presente da eternidade dos momentos nas pessoas especiais e únicas mesmo que apenas num segundo. Para acreditar sempre na eternidade. 
Digo eu, que colecciono momentos eternos.

m.c.s.

no horizonte

foto tukayana.blogspot
Daqui eu vejo além. Penso além e amo além.
Daqui eu sei que a minha felicidade também está além.


m.c.s.

viajando na maionese

A minha casa é como um aeroporto. O lugar de partida e de chegada para os meus sonhos de andar nas nuvens. 
Vou voar hoje para sul, sem medo de perder o norte. Dia não são dias, digo eu, viajando na maionese...

m.c.s.

promessa

Um dia...
Bem, eu não gosto de promessas. Fiquei-me nesse preconceito de que promessas, tal como outras palavras, leva-as o vento.
Não gosto que jurem sangue de cristo com vontade de jurar sangue de barata.
Nem que prometam mundos fundos e não tenham nem uns trocados para dar. 
Nem que digam que sim quando não sabem, senão, ser nim.
Eu não gosto de promessas. Mãos erguidas e unidas como se estivessem a orar.
Dedo no pescoço e juntos o polegar e o médio sacudidos, num ritual antigo e fora de moda a reforçar juras que nem sempre, quase nunca se cumprirão.
Eu não gosto de promessas. Amanhã isto, aquilo e aquele outro. Faço, fazemos, compro, desisto, acabo, começo, terei, direi, irei, vais ver...
Eu não gosto de promessas. Tão pouco de as fazer. 
Mas hoje apetece-me fazer uma, numa excepção à minha regra.
Um dia...um dia prometo, que vou amar-te como tu mereces, de coração livre e inteiro.

acordei levando...


Hoje acordei a pensar em saldos. Eles andam aí. Os saldos. E não só.Também acordei dorida. Combalida e vencida.  A prostituta da idade não dorme, não se esquece, não me poupa. Poupados são os portugueses, nas palavras e nos actos. Ainda é pouco o que a gente vê por aqui. Por falar nisso, lá terei de ser testemunha de alguém que levou uma corneta para a ponte e vai daí foi à força parar a uma orquestra, orquestrada que foi a sua música. Quiseram provar por á mais bê num prazer mórbido e fascista, que cantava bem mas não alegrava e quem quer festa tem de lhe suar a testa.
Mas são também pobres os portugueses, pois que dão o dito e três tostões pelos  saldos que já espreitam, só para gastarem o que têm e não têm. E lhes foi roubado.
Tenho para mim que não é assim que lá vão, pois que sempre ouvi dizer que quem nasceu para lagartixa nunca chegará a jacaré e saldos, é coisa de pobre, tem cara de pobre e é dirigido aos pobres. Aos que lhes falta a garra e a vontade de vencerem, mesmo que não olhem a meios para atingir fins, nem os saibam justificar. Quem a sabia toda eram os caçadores de jacarés e crocodilos que os matavam, os exibiam como troféus, ficavam  bem na fotografia e depois lhes tiravam a pele para embonecarem as bonecas e calçarem os donos do povo, mas isso eram outros tempos e outros poderes, outros quinhentos de coisa colonial, se bem que por vezes parece  estou a ver esse filme,  rebobinada que é  a película. O cenário e as luzes da ribalta.
O povo, tal como eu, que hoje acordei a pensar nos saldos, suspira por eles. É um ritual. E o povo gosta de rituais. E da barafunda. E do vai e vem nos centros comerciais, quem dá mais, quem pode mais, quem se veste mais?!  Falando em vestir, faço um reparo, não é bem vestir, é mais  consumir, o que atrai a populaça sequiosa de novidades já que as notícias fresquinhas que quem manda, nos dá,  hoje são novidades e amanhã, mais do mesmo. É que para velho já basta a potassa. E continuando nos saldos que é um gosto que não compromete nem manda ninguém para a cadeia, a menos que roubem, o povo prepara-se para um assalto às lojas, para se vestir de moda que é isso que o meu povo gosta e quer, por pouco dinheiro, se bem que há por aqui, ali e acoli uns  perdedores que apostam em  deixá-lo nu em pelota, tal é o chá de sumiço que têm dado às poupanças do zé povinho.
E porque feirar é bem português já dizia o paulinho das dúzias, quando percorria as feiras de fio a pavio, hoje era o que me apetecia fazer, não fosse estar um calor dos diabos e ter acordado com uma dor limitativa e obscena, que parece me arrancam o coração pela boca e a alma pelos olhos. E me deixa prostrada a assistir aos quinquilheiros desta praça venderem a ervilha que é este kimbo, sem escrúpulos nem arrependimentos. Não fosse o big brother e acreditava que a minha hérnia está aos coices porque estou a pagá-las todas, já que não tenho humor nem estaleca para as provações.Acho vou ligar o 999 da MEO e assim acreditar que sou jovem, bonita, saudável, rica, feliz e burra e este país é um paraíso à beira mar conquistado, só para eu desfrutar. Ah e não será preciso lutar e contra os canhões marchar, marchar, até porque estou mal da coluna. Que se chegue à frente quem a tem. Não sei se os há.  Pois que nos últimos tempos entre bitacaias e carraças, venha o diabo escolha. Desconfio que com o acordo ortográfico acabaram as letras maiúsculas para  Homem com o dito h, big.



quinta-feira, 4 de julho de 2013

a posse


Abro a gaveta . Do armário da cozinha. Preciso de um espeto de madeira para com ele retirar uma torrada que ficou presa na grelha da torradeira. Dou-lhe pouco uso. À torradeira e também aos espetos. Agora.
A memória fotográfica diz que deve haver um ou mais espetos na gaveta. Tinha sempre. Faziam-se espetadas com frequência cá em casa. Nesta casa. 
Sorrio à visão d' um pacote de espetos, por encetar, novinhos a estrear. Na verdade não faço espetadas há mais de seis anos. Como sei? Sei e pronto. 
Abro a portinhola do velho bar do móvel antigo, tão antigo que lhe perdi o conto. É lá que guardo isqueiros de um tempo em que  se fumava à séria cá em casa. 
Avisto cigarrilhas e charutos que nunca fumarei. Entre as garrafas de licor, ofertas recentes, uma garrafa de uísque velho, meia cheia. Não evito um esgar. Não bebo álcool. Faz tanto tempo que aqui está que deve saber a tintura. Por mim aqui vai continuar.
Abro a porta da despensa. Preciso d' um botão. Estão alguns na caixa de costura. Que apinhada com as outras caixas sobressai pela cor encarnada, na prateleira forrada a papel claro. Há pouco tempo esta despensa foi arrumada. E tudo ficou nos seus lugares. Muito mais fácil ficou encontrar agulhas no palheiro. Por falar em agulhas, descubro o botão. E latas de tinta. E graxa castanha e preta. E frascos de cola. E cola sólida. E a pistola da cola.  E chaves de fenda. E parafusos. E um sem número de engenhocas que nunca soube para que serviam. 
Há um mundo silencioso, abandonado nestas paredes alinhadas e ocupadas de coisas votadas às traças. Não resisto a uma interjeição que me enche de som a boca, até aqui, calada.
Macacos me mordam! Estou na posse de utensílios que não fazem falta pois que a sua posse nunca foi reclamada.
Fecho gavetas e portas. Tranco lembranças que me estriparam, viraram do avesso, sugaram-me a pele e doparam-me a alma.
Sento-me no sofá da sala.  A casa quieta e silenciosa, enorme, limpa e harmoniosa descansa das guerras, mentiras, traições e abandonos. Depois de arrancados corações, escondidos cinzeiros, arrumadas as fotografias de família, trocadas almofadas, mudados móveis e candeeiros, tudo depositado na gaveta do esquecimento e da conformação, como finalmente a torrada. Vou acender depois o piloto do esquentador e pregar o botão que me caiu das calças. Nego-me a fazer espetadas e não fumarei charutos ou cigarrilhas, não brindo com uísque, não faço furos nas paredes nem penduro quadros. Porém tudo isto me pertence por usocapião. Ainda que não lhe dê uso. Pode ser que um dia destes, calhe.
Na vida quando parece que perdemos, vamos a ver e ganhamos. 
Ó p'ra mim cheia de espetos,  material de bricolage, charutos e cigarrilhas,  bebidas alcoólicas para dar e vender.
Ó p' ra mim protagonista de uma estória que não é de encantar mas que já não me desencanta mais. Depois de todas as gavetas aberta e fechadas.

lar doce lar

Hoje não saio de casa. 
Nem que a vaca tussa. Nem que venha o diabo mais velho.
Nem que me mandem ver se estou na esquina, eu vou.
Nem que me troquem as voltas.
Nem que tenham uma converseta de ao pé de orelha comigo e com os meus botões.
Nem que me acenem com tentações. 
Por falar em Tentações, já estou na primeira fila para ver e ouvir a minha cria falar para todos os que sintonizarem a CM TV no canal 8 da Meo por volta das duas da tarde.
Hoje troquei a praia pelo sofá. O panachê pelo sumo natural. O sol pela sombra. O dia radioso pelo ar condicionado. E as comidas calóricas por um gaspacho e umas fatias de presunto com melão.
Hoje a máquina fotográfica será trocada pela de lavar e as sandálias por pés descalços. 
O horizonte pela televisão e as conversas pelo teclado. Os corsários por calções e a blusa por t-shirt de alças. O cabelo solto por carrapito e a cara maquilhada por rosto limpo. Troco o mundo pelo lar e o povo pela Pitanga. Por mim. Em mim.
Hoje despojo-me do que é corriqueiro e usual e aceito o natural e simples da vida. 
Está um calor que, vai lá vai que até a barraca abana e eu estou numa preguiça de trazer por casa. Por isso na liberdade que me permite escolher, fico-me por aqui numa kunanguice gostosa onde tenho o que preciso e só me faz falta o que está. 

os putos

A porta abriu-se na estação do Saldanha.
Duas crianças de quatro anos entram a correr, carruagem fora. Mais atrás, o irmão mais velho e a mãe, mulher jovem e bonita. Olhos claros, cabelo castanho claro, ar feliz e transportando uma paciência ilimitada. À minha frente, sentam-se, mãe, menina ao colo dela e rapazinho ao lado. O primogénito, senta-se do outro lado, sossegadamente.
- Mãe, ó mãe...
A mãe penteia em tranças, o cabelo da menina que continua irrequieta como entrara. 
- Mãe, ó mãe, chama o menino de novo.
- Siiiiiiiiiim Gui! 
- Ó mãe estou farto que tu não falas comigo. Eu digo, mãe, mãe e tu não respondes.
Estou farto. E amuado estende o lábio para a frente e cruza os braços. Olha p'ra mim. 
Pisco-lhe o olho. A mãe também me olha. Sorri. Responde.
- Estou a pentear a Laura. Mas diz...
- O Miguel bateu num menino lá da escola. E foi atrás da Laura. 
- Eu não tenho medo, diz a Laura. O Kiko vai lá e bate nele. 
O Kiko diz lá do outro lado:
- Bato em quem? Estes miúdos estão marados, mãe.
- Não bates no Miguel pois não Kiko?
A mãe sorri para eles e para mim.
Eles percebem. O Gui ( perguntei os nomes e a idade ) diz-me: 
- Tenho estes anos e exibe os dedos em número certo. Eu e a Laura não brincamos juntos na minha escola. Sabes porquê? Porque eu brinco com o Miguel. Ele é meu amigo.
- E a Laura? perguntei em tom de provocação.
- É gémea de mim. 
A mãe sorri de novo. 
- Mãe, ó mãe, quero cerejas.
- Também quero. Kiko, queres cerejas? pergunta a Laura. 
- Não comprei cerejas, meninos. 
- Mas compraaaaaaaaaaaaaaaaaaa. Pede o Gui.
A estação do Campo Pequeno surge. Levantam-se os quatro. 
- Vais para onde? Não sais connosco? pergunta-me o Gui. De Guilherme com certeza.
- Não. Saio no Campo Grande.
Faz-me um gesto com a mão pequenina em sinal de despedida. A mãe ri. 
- Boa tarde, boa viagem, diz a jovem mãe.
De repente o metro ficou vazio. E silencioso. E constrangedor. Volto a olhar em frente, fixando um ponto qualquer da minha memória. Alheada do que não me faz falta.
Mãe, ó mãeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee... 
No Campo Grande, mudo de linha e passados 12 minutos estou na minha estação.
À saída, uma mulher vende pêssegos e cerejas. Oferece-mas. Não compro. A loja da Marta tem cerejas doces e frescas. A bom preço. É lá que as vou comprar. Hoje. Os putos abriram-me o apetite.

sem norte nem destino

Sem planos, caminhos, nem destinos, a segunda-feira instala-se no tempo, que me é leve e favorável. Inteiro. 
Sem preconceitos nem julgamentos, mergulho no dia ameno e nada espero. Senão de mim. 
O que vier por bem, é ganho. Mesmo que não seja pela tua mão.
Inicio a viagem sem pressa nem ambição.
A exigência pode gerar conflito. A ansiedade pode gerar equívocos. A confiança pode trair-me. 
Deixo-me ir ao Deus dará que Ele me guiará, não interessa para onde. 
Se for até ti, será. Se vieres a mim, melhor ficarás.
Hoje há um intervalo instalado no trabalho que tenho, sempre que te procuro. 
Encontrar-me-ei esquecida num sítio qualquer, só, ou cheia de ti. 
Que interessa isso?
Se fico aqui, ficas comigo. Se parto, partes também. Se te dispenso abres a porta. Se te sorrio foges de mim.
Nem sempre acredito em ti. Mais vezes duvido de mim. E no limite, deixei de fazer fé em nós.
Por isso, sem planos nem desejos, sem rotas nem julgamentos, sem norte, te digo, se quiseres encontrar-me, procura. Porque quem procura, acha. Já diz o velho ditado. Tão velho quanto o meu sentir.

não perder o norte

Ontem viajei de comboio do Oriente até Riachos, estação que serve Torres Novas.
Contrariamente ao que supunha, ia cheio. Muita gente na rota das férias, pelas conversas tidas. Sem qualquer cuidado no tom e som.
Ir de férias para a província, num retornar às origens, para quem as tem por terras lusas e no interior da pátria, deve ser fixe. Regressam à família, aos amigos de infância, às ruas, às oliveiras e figueiras, aos rios e às suas margens. Aos passarinhos e sossego. Ao silêncio e ao perfume das estevas. Aos fumeiros. Comida da avó. Aos costumes e tradições, que tantas saudades têm quando estão na cidade grande.
Cada um é como cada qual já dizia alguém e eu repito porque me dá jeito para a escrita. 
Na verdade tudo isso se consegue vivendo em Lisboa. 
Basta irmos para os jardins de Belém, da Gulbenkian, ou da Quinta das Conchas. Basta irmos andar para as margens do Tejo, ou fazermos a viajem de comboio até Cascais ou para Sintra. Ou irmos para a Expo. 
Basta termos familiares e amigos a viverem na capital ou nos arredores e os visitarmos ou os convidarmos para um almocinho caseiro com arroz doce da avó e tudo. E uns ovos mexidos com farinheira, de entrada.
Basta irmos à praça do Comércio em dia de feira que até ouvimos música popular portuguesa e vemos gente do e com o garrafão mais os bolinhos de bacalhau. E as iscas de fígado.
Mas há o ritual. De avisar a família, pelo telefone. Comprar umas lembranças, uma roupa nova para estrear na missa de domingo, fazer a mala e levar uns pastelinhos de Belém que se aquecerão no micro-ondas para se comerem quentinhos assim que lá chegarem. E levarem uma máscara de gente fina e de sucesso a iluminar-lhes o rosto.
Também eu, porque vinha " à terra " das minhas crias, terra essa onde os meus irmãos vivem, onde os meus pais estão sepultados, onde tenho a minha casa e onde vivi trinta e sete anos, comprei uma sandes de presunto e uma coca-cola zero e almocei no comboio, enquanto via as cegonhas esvoaçando por terras de Vila Franca, por margens do rio Tejo.
Tinha sono e sentia-me cansada mas as gralhas que se ouviam à minha volta impediram-me de olhar, sorrir e calar-me para dentro. Ainda é uma hora e meia de caminho, naquele comboio que pára em todas e mais houvesse. 
Porque viajo nesses comboios? Porque param em Riachos que é mais perto de Torres Novas que o Entroncamento. São menos uns dois euros e permite que aprecie a paisagem. Se não estou farta? Não. Nunca é igual. Desta vez surpreenderam-me os figos nas figueiras, o rio mais cheio, as cegonhas mais que as mães e a conversa dos " vizinhos " de carruagem. 
As crianças se não têm sono falam pelos cotovelos. E são giras. Colocam questões aos adultos que os envergonham e orgulham num misto que conheço muito bem porque já tive crianças espevitadas e curiosas a meu cargo.
A " minha criança " de ontem, menina bonita, esperta, ingénua, interagindo com a mãe e com outras passageiras que viajavam junto dela, ao tema, férias, pergunta:
- Ó mamã, ainda não estamos de férias pois não? Agora vamos à avó e só depois é que vamos de férias não é?
- Estamos de férias sim, Matilde. Por estarmos de férias é que vamos para a avó.
- Mas não disseste que vamos de férias para a praia? Na avó não há praia.
- Vais para o Algarve Matilde? pergunta a vizinha do lado, para a ouvir.
- Vai vai, diz a mãe. Até para lá vai viver.
- Não vou, não. No Algarve só há férias.
Risos. 
- Háaaa? Interroga pouco convencida. Eu julgava que o Algarve só tinha férias...
- Só há férias? Há escolas e lojas e hospitais e o trabalho da mamã também.
Ali à volta toda a gente riu. Eu sorri também. 
Não deixa de ter a sua razão. O Algarve nunca será " a província ". A casa da avó. Nunca as famílias irão à procura das raízes, do sossego e dos laços afectivos que permitem carregar baterias e adocicar os dias invernosos e solitários da cidade, no resto do ano.
O Algarve será sempre o local de férias. O local do exagero e da transgressão. Do romance rápido, mais rápido que o relâmpago e mais estridente que o trovão. Do verão.
Um lugar de passagem. Não sou eu que digo. Dirão, até os mais novos...
Ontem viajei para norte. Não fui à procura das raízes. E já me vou embora. Foi visita de médico, mas passei revista a tudo e visitei quem tinha de visitar. Direi, que a norte nada de novo. Tudo na mesma como a lesma.
Porque sou a eterna viajante, amanhã, daqui a uns dias, umas semanas, quem sabe, viajarei para o sul, para a terra onde só há férias, embora não vá à espera de trovoada, nem tão pouco de cometer exageros e transgressões. Até porque não conduzo nem bebo. 
Hoje, vou ali e já venho. Porque a minha Pitanga depende de mim e está à minha espera. 
As raízes? Estão onde fomos e somos felizes e sobretudo onde esperam por nós. Afinal, um pouco por todo o lado para que mesmo ao centro ou a sul, nunca percamos o norte. 

coragem

Só sou capaz, se for por uma boa causa e tiver um exército de pessoas boas, amigas, verdadeiros nadadores salvadores, na retaguarda, dando um empurrão. 
Digo eu, que por vezes mergulho de cabeça mas não sei nadar quando me falta o pé...

m.c.s

a caminho...

A vida faz-se por etapas. Que ninguém a deixe passar encolhendo os ombros. Ou num deixa andar de acorda, come, bebe, adormece e acorda, come e bebe, numa repetição pobre e triste. 
Depressa nos daremos conta que a não vida nos anulará e matará rapidamente. E é bem feito e visto, porque para vegetar temos já as couves, os nabos, as alfaces e os tomates. E outros legumes que não me ocorrem agora, apesar de observadora, cozinheira e consumidora.
A vida precisa de vida. Numa reciprocidade que faz bem a ambas. Que cresce, floresce e dá frutos. Que impede a sua destruição. 
O sol quando nasce é para todos, dizem, mas nem todos o sentem e recebem a sua luz. 
O que é preciso afinal? Na minha modesta opinião, para a minha continuação, é preciso acreditar, inventar e dar.
Que ando eu aqui a fazer afinal? Quem diz aqui, diz ali e acolá, lá longe ou num algures que muitos dizem que é nenhures. Não interessa onde nem quando. Interessa a busca do prolongamento da existência do corpo e do espírito. Com querer e poder. Sem repetição. 
Vá lá, de vez em quando voltarmos às nossas origens lava a alma. E o que são as nossas origens? O lugar onde demos conta que éramos mais que vegetais. O momento em que percebemos que a vida é importante e grata e depende de nós. E de amigos. E de amores. 
De pai e mãe ou de quem substitui. O lugar das emoções mais primárias. Dos prazeres inesquecíveis. Dos sorrisos que iluminam os momentos e das palavras que nos marcaram o pensamento e influenciaram o nosso destino. 
O nosso início...
E porque tudo tem um princípio volto atrás para dizer mais uma vez que a vida se faz por etapas. E os diários existem para nos policiarmos e disciplinarmos. E percebermos que não somos números...apenas.
E vale a pena conservá-los. Aos diários. Para nos fazermos presentes. E para nos recordarmos. E limarmos o que há a emendar. E nos obrigarmos a fugir da não vida. E fazermos na memória a lista do que não fizemos, não queremos, o que somos capazes e o que nos dará alegria ter e fazer. O que desejamos que aconteça. O que depende de nós.
Porque a vida se faz por etapas, abro o caderno de apontamentos que anda sempre na bagagem que me acompanha, faço um visto no dia de ontem dou-lhe cinco estrelas, assinalo o dia de hoje com ponto de interrogação seguido de um sorriso e inicio o que se chama a lista de prioridades. 
Entre elas, a oportunidade de ter um dia diferente de ontem em que viajei para sul, aquele sul mais a sul deste sul, porém movido pelos mesmos princípios que são a necessidade do reencontro, com afectos. Voltar aos lugares onde também fui feliz. Não perder a oportunidade de rever lugares bonitos, festas bonitas, pessoas bonitas. Voltar a norte. 
Não é assinalável o dia de amanhã, no entanto assinalo os tempos próximos, incluindo o de amanhã, com a devida precaução e margem de erro alargada que não sou inconsciente, mas assinalo-los. Porque a vida é por etapas, e quero, posso e só não mando porque acredito no Universo e Ele é que manda tudo, prevejo, numa intuição de quem vai à luta, que posso ter dias bons se acredito que hoje é o primeiro dia deste resto de vida que todos queremos seja melhor. A minha etapa próxima não deixa de ser uma repetição da anterior, porém renovada. Em mutação. Fazer de tudo para ser feliz com as coisas simples que a vida me oferece e não me negar a novas oportunidades. Acolhê-las como bênçãos de Deus.
A vida é feita por etapas e eu, bem, eu, vou pôr-me a caminho, nem que seja a passo de caracol... 

o tempo certo é hoje

O tempo dos tambarinos e das mangas, foi o tempo do nascimento dos afectos.
Foi o tempo das brincadeiras na rua. Dos contos de sereias e kimbandas. Homem do saco e simão toco. 
Foi o tempo da cacimba do bairro índigena. Da igreja de São Domingos.
Das bonecas de papel. Dos cigarros negritas e dos baleizões de gelo. Das maçãs da índia roubadas do quintal dos vizinhos. Das corridas, de pé descalço, atrás dos meninos e experimentando a velocidade e o risco, pedalando a bicicleta alugada na oficina do Sr. Arlindo.
Do amor de mãe e pai. Dos vizinhos. Foi o tempo da minha rua. Do meu bairro. Da minha cidade. 
Foi o tempo da minha angolanidade real. Da minha consciência de africana. Comigo, com as gentes e com a pátria. 
A construção da posse engrandece a alma e o coração de quem sente que é gente.
Ficou-me desse tempo, o encontro comigo. E com os sentimentos. Com os outros.
Ficou-me desse tempo prolongado até ao estado adulto uma imensa certeza de que nada é igual ao resto, quando se constroem sentimentos, se desenvolvem afectos, se olha a nossa terra como mãe que nos tem, nos dá e nos acolhe e protege.
Ficou-me desse tempo, gente que me ajudou a construir a minha angolanidade, sem triagens nem redes. 
Ficou-me desse tempo, eu própria. Em estado primitivo. 
Hoje vou fazer a reconstrução desse tempo. 
E sou feliz por isso.
A Vila Alice estará presente em mim mais do que ontem ou amanhã.
Hoje é hoje e o abraço do tamanho do universo que tenho para dar me envolve de alegria.
Hoje é o tempo certo de ser feliz.

( reporta-se a 29 de Junho último )

terça-feira, 2 de julho de 2013

Rádio Comercial | ViVi dos 741 dias - Música para Vitor Gaspar

constatando mais uma vez...


O bode expiatório foi uma ideia do arco da velha, para bater no ceguinho, até vir a mulher da fava rica. 
Digo eu, que nem defendo que a culpa morre solteira. 


m.c.s.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

hoje o dia é teu e não disse nada que tu não saibas...


Hoje, quero olhar-te nos olhos. Dar-te um abraço com o brilho que sempre iluminou o meu olhar, se te olhei. Quando te olhei, observei e amei... 
E quero receber esse olhar profundo, quase negro, sorridente e brincalhão, quase a gargalhar de pureza e alegria. Quase a confessar ser a luz desse teu olhar. 
Nunca mo disseste porque naquele tempo não era para dizer, mas não foi preciso. A nossa linguagem falava por si. 
Independentemente do tempo e das hierarquias afectivas. 
Tenho a certeza que viste, claramente visto, o presente e o futuro, através de mim. E iluminaste os meus caminhos guiando-me com a força do teu olhar. E que agradeceste a Deus a minha existência na tua vida. Tenho a certeza que não eram as palavras que nos uniam mais, mas os sentires. E nós amámo-nos sempre. Muito.
Hoje, para além de te olhar nos olhos, olho as ondas do teu cabelo negro, os lábios bem desenhados, o rosto trigueiro e bonito. Desbravando terras e subindo montes e serras, na descoberta e exploração da mocidade. E oiço contos de mares e marés, barcos e viagens. Riscos e aventuras. Mudança de vida e de continente. Mudança de amigos e de hábitos. Mudança de amores. 
E oiço a tua voz segura, quente e envolvente, contando uma história de encantar para me embalares, cantando uma qualquer canção ou rimando quadras de amor e paixão, para encantares. 
Vejo aos poucos o cabelo acinzentando-se, rugas de expressão e de preocupação. Vejo-te triste, cabisbaixo e vencido, mas desvio os olhos desse tempo que foi teu e meu e que te levou de mim. E calo a tua e a minha voz, de impotência e revolta. 
Para me silenciar nessa dor.
Hoje, quero olhar-te olhos nos olhos, sem lamentos nem lágrimas e quase em silêncio, porque as palavras nunca foram necessárias entre nós, dizer-te, a meia voz, que tenho muitas saudades tuas, meu pai, que hoje completarias oitenta e oito anos.

P.S. sô Santos, só para te dizer que se cá estivesses, faríamos uma farra das antigas, à tua moda, p'ra ninguém botar defeito, carai!

quarta-feira, 26 de junho de 2013

que calor!

Com temperaturas destas, um ar condicionado faz a diferença. No imediato...e no fim do 
mês na conta da luz, mas isso agora não interessa mesmo nada, que está um calor dos diabos.
Quem havia de dizer que eu ia adorar um gosto tão burguês! Digo eu...

m.c.s.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

À descoberta



Os caminhos que percorro em busca de maior agilidade e espiritualidade. À descoberta de mim e do que é bom para a minha vida.  

uma janela virada para a lua


porque hoje vai grande e mais iluminada que nunca


sábado, 22 de junho de 2013

eu às vezes leio mensagens

Mensagem bonita, esta. Não me parece que seja para mim. Que pena! E mais pena tenho mas não posso chorar, que faz rugas...de expressão. Mas deixo aqui as minhas impressões e expressões sobre o facto. 
Então é assim - As probabilidades de haver um " J " no pedaço são mínimas e eu não começo por " I ".
Mas que acho uma graça, acho. E fico até um pouco invejosa, eu que não sei o que isso é.
É nestes momentos assim que me lembro que a propósito de amor, não me posso queixar muito e que a coisa mais linda que me disseram foi, não me canso de repetir, até já cheira mal, mas para mim é perfume de flor de frangipani, - Gosto tanto, tanto, tanto de ti, que acho que te amo. 
É lindo não é? Pois é. Só que não ficou gravado senão no meu coração e na minha memória. 
Mas bem que merecia tal como esta, uma gravação na pedra da calçada. 
Enfim, nestas coisas dos sentimentos, parece que sou uma invejosa...
Serei? Pensando bem, não. 
A minha hora há-de chegar. E não a quero pequenina. Benza-a Deus. Se não for a bem será a mal que eu não sou de vinganças, mas...
Só tenho receio que não saiba escrever. Mas se for caso disso escrevo eu, agarrando na sua mão. Até que dá uma imagem bem romântica. 
Mãos nas mãos escrevendo uma mensagem de amor assim, que nem esta. Com e tudo. 
Caraca! Bem fixe. 
Isto deve ser do Verão que finalmente veio para ficar, como o toyota. Não me perguntem por marcas de automóveis pois que não percebo nada disso, estou-me borrifando para isso, sinto raiva de quem tem essas vaidades e quando me vêm com marcas, tiro-lhes logo a pinta.  E não gosto.
Enfim, fiquei tão perturbada que não digo coisa com coisa...Lol! 

dizer o quê? sou eu


segunda-feira, 17 de junho de 2013

lugar em mim

Coloco-me no lugar de sempre. Vago.
Quem quiser sentar ao meu lado, vai ter de provar que ocupa o espaço certo para não ficarmos acanhados. Digo eu, que não gosto de me meter em apertos.

m.c.s.

lugar por mim

Coloco-me no lugar de sempre. Vago.
Quem quiser ocupar o meu lugar, vai ter de lutar por isso, digo eu que não sou de vinganças, mas quem mas faz, paga-mas.

m.c.s.

as bolas de berlim da Costa da Caparica

foto.tukayana.blogspot

#$"&%=? e mal pagos


Estamos sempre a ser...tramados e mal pagos.
Agora é o bacalhau que já não é sueco e vem em modo de esquiva, driblando a nossa inteligência e não a passo de caracol, apesar do seu primo afastado ter esse nome. 
Aka, Xiça, penico! Fónix!
Olha que esta é de cabo de esquadra! 
Será que temos cara de ovo podre? Ou cara de #"#!%&=? 
E somos uns tansos que qualquer um pode e quer enganar? 
Já ninguém nos respeita, é o que é. 
Vamos mas é comer legumes. Um tomate é um tomate, um pimento é o que é, apesar das cores diversas, um pepino toda a gente sabe que não é uma courgete e uma couve até nos faz bem à cara porque às vezes é o que temos, cara de couve, para ouvirmos todas estas patifarias e aldrabices com que se enganam os tolos. Que não queremos ser. Digo eu...

m.c.s.

notícia feliz


foto.tukayana.blogspot.
Ena Pá! Gostei de saber.
As praias da Caparica estão classificadas como as melhores praias citadinas do MUNDO. 
Ocupam o 5º lugar.
Mas também é aconselhada ao turista, a Praia de Carcavelos.
Sim, senhores! Escolhas felizes, as minhas. Por acaso, só por acaso...
Toma, embrulha e vai buscar...canário!

domingo, 16 de junho de 2013

Anita Lane Bella Ciao

hoje estou e não estou

Hoje estou um pouco, muito, bipolar. Assim daquele jeito, com os sentires à flor da pele, se é que a pele floresce. E a cabeça a mais de mil, nas ideias e no coração, numa taquicardia de meter dó, numa carência do milongo milagroso. 
Já chorei, já ri, já ironizei e até já xinguei. 
Já escutei canções de amor, antigas como eu, daquelas que tocavam em quarenta e cinco rotações, num tempo em que judas teve sarampo. E curou-se.
Já suspirei amores perdidos, palavras coloridas, promessas juro por deus, sangue de cristo, que ficaram na poeira, do sótão do esquecimento. 
Lembrei beijos de mel, abraços do tamanho do mundo e albatrozes rumo ao sul. 
Cheirei acácias vermelhas e flores de frangipani.
Toquei ao de leve passados que não são presentes e futuros que nunca serão. 
Lamentei o silêncio e o tempo cheio de nadas.
Visionei amanhãs engalanados mas nem por isso conquistados. 
E gargalhei com o lugar comum. Que é mais que muito e sabe bem. Para quem tem gosto, já se vê.
Hoje sentei até no muro do quintal lá de casa. E dali lancei um papagaio às cores, parecia era arco-íris. Olhei as rosas brancas e as goiabas oferecidas. Escolhi então uma manga. Madura. E lambuzei-me sem culpa nem desculpa.
Desfolhei um malmequer, bem-me-quer, muito longe está quem me quer bem. A quem eu quero bem. E emudeci. Caindo na real.
Hoje agitei-me, misturei-me e estranhei-me. 
Ofereci-me e devolvi-me.
Despi-me e lancei-me. De cabeça para baixo. E só não fui avestruz porque dá muito trabalho. E a areia está a escaldar.
Hoje adormeci a dor e a saudade e acordei a ousadia e a liberdade. A alegria de sonhar.
Porque se sofro e sorrio, é porque sei gargalhar até à dor e fazer o caminho de volta. 
Com os pés no chão e a alma voando sem hesitar.

fatalidade

Acorda a manhã 
Amando o tempo e a cidade
Acorda a vontade de amar, 
A minha pele morena
Carinho da brisa 
E aroma de açucena
Desperta um desejo 
Quase uma fatalidade...
É o gato que mia no telhado
À sombra da alma inquieta
E o sino da igreja que toca
Entrando, estranho recado
Pela minha janela aberta
Repete, repete que sou louca
Nesta manhã tão desperta...
Embalo o sonho que sonhei
Noite fora, madrugada
Embalo o amor que foi rei
E que hoje não é nada
Acorda a manhã sorridente
Indiferente...
Acordo eu adormecida
No sonho de abraçar
A minha fé perdida
No amor, que vive ausente
Acorda a manhã p'ra se dar
E a insónia dorme por mim
Louca, sim, têm razão
Que para voltar a amar
Acordo o meu coração.

m.c.s.

Belito Campos - Joaninha Vasconcelos

quarta-feira, 12 de junho de 2013

existência

Há pequenos demónios dentro de mim.
Pequenos infernos. 
Fogueiras que a chuva destrata. Mas não expulsa.
Há vulcões. 
Lavas, vermelhos sangue bandeiras, correndo velozes.
Pulsos de ferro p' ra ganhar. 
Há opinião. Tendências. Motivos e esperanças.
Há um mundo que não conheço, suplico, espero.
Ou apenas peço, que se misture com a função.
Há apelos à imaginação.
Há alarmes, sirenes, fontes, correntes e marés, chamados a apagarem a combustão. 
Há também cravos vermelhos, rosas brancas que perfumam. 
Há até a melodia que embala e adormece os ímpetos. Em erupção.
Há uma chama sempre acesa. 
Há sois ressuscitando crepúsculos. E deuses maiores. A cada instante.
Há sobretudo um desejo incontrolável de existência. A copular com a ficção.
Há uma alma por descobrir dentro do ser que julgo ser.
Vou em busca de mim através do princípio que diz que o coração não se engana...

terça-feira, 11 de junho de 2013

declaração de amor

Sopra o vento, brisa leste.
O sol rompe a barreira. A música toca. 
A sirene anuncia a chegada do peixe que a traineira traz.
A bandeira verde, da liberdade de entrar no mar e misturar o meu cantarolar sussurrado ao marulhar, esvoaça ao sabor da música que as ondas orquestram e bailam num pé de dança latina.
O chá de cidreira arrefece.
Há uma paz santa neste lugar. 
Uma promessa cumprida.
Há uma paz santa e cumprida dentro de mim.
Reconhecem-me os odores desta praia partilhada.
Reconhecem-me as areias claras em constante movimento e a espuma branca da onda que vem beijar a areia fina em constante renovação e me vem segredar coisas do além mar.
Aqui nada começa nem termina. Para sempre.
Há uma lei implícita que me faz recomeçar. E sonhar. E chegar ao ponto de partida.
Este lugar pertence-me. Porque me pertence quem me protege e abençoa. E me oferece vida. 
Eu pertenço a este lugar porque me dou numa doação sem rede, filtro ou desconfiança. Sem caução.
Numa entrega recíproca e igual. Sem condição.
Aqui há uma fonte d' água cristalina e pura, que me acalma e me descansa.
Uma âncora que me prende e solta conforme a precisão. 
Aqui me declaro perdidamente encontrada e apaixonada num amor avassalador e eterno. 
Primário.
Aqui me declaro possuída por esta força que a natureza me oferece.
E grata, porque este é o lugar de dádiva, onde o olhar vale uma maré cheia, marés vivas de palavras e actos que não preciso temer. Nem inventar. Basta receber. Ser e sentir. 
Aqui sou somente eu...



azul mar



Mar azul
Manto branco
Onda alva
Que me vem beijar
Pele morena
Minha pena
Não ficar...
Espuma fria
Flor de sal
Limpa o mal
E o céu
Temporal
Barco à vela
Pescador
Lança a rede 
Com amor
Mar beleza
Salva a mesa
Ganha o pão
Bate na rocha
Solta-se o mexilhão
Mar azul
A navegar 
A suspirar, alma sorri
Não te deixei, pele morena
Minha pena
Mas já parti...

m.c.s.

na eternidade

Há uma eternidade onde se juntaram
As almas que na terra se amaram
E se completaram no sentimento
Há um amor eterno na memória
Um romance que fez história
Para lá do tempo
Nasceu o dia e o momento
Foi feito um juramento
Entre os homens 
E nos céus também
Eles são o meu pai e a minha mãe
Que em terras de além mar
Prometerem amor eterno dar
Neste dia de Junho, de então
Transborda-me de amor o coração
À lembrança doce e envolvente
Desta data eternamente presente
Testemunha que fui
Dessa feliz união
Há uma eternidade onde se juntaram
Estas almas que na terra se amaram...

m.c.s.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Viva Portugal!

- O que é que tu sentes ao ouvir o hino?
- Sinto que sou português.
- O que é isso de ser português?
- É ser especial.
A criança de dez anos responde. A jornalista pergunta.
Ser português, é ser especial.
É p'ra mim surpreendente esta resposta.
Ocorre-me um som antigo e ensinado há muitas décadas, num então pedaço de paraíso que diziam, era Portugal, onde nasci.
"...Pela pátria lutar, lutar, contra os canhões marchar, marchar..."
E é aqui que eu esbarro. Se não tropeçasse antes em toda uma letra, mais do que na música. Em toda uma voz em coro. Em toda uma força. Em todo um país. Em todo um número sem fim de questões que me fiz sempre. Em todo o conceito do que deve ser ser português.
Decididamente não sou um bom exemplo. A minha portugalidade é questionável. Sobretudo por mim.
Ensinaram-me que a minha bandeira era a portuguesa.
E que o hino, começava por - " Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal ". Ainda que os historiadores argumentem, não gostem da veleidade com que ponho em causa a necessidade de terem sido heróis do mar, nobres e valentes, também imortais, num crédito que a fé lhes deu, ( é que uma mentira repetida muitas vezes transforma-se numa inocente verdade ), e que a aplicaram e espalharam entre os povos que foram encontrando, a verdade é que hoje não me parece de grande préstimo a língua portuguesa ter sido espalhada pelo mundo, pois que é o espanhol que as escolas ensinam para assim outros povos poderem comunicar, pois que, se viram do avesso para que haja acordos ortográficos que ninguém quer. 
Os mares não lhes pertencem e o povo nunca terá as benesses da nobreza actual. A valentia, essa, adquire-se num qualquer ginásio, puxando pelos músculos e aconselhado por um PT profissional. 
Valentes ? São todos os que fazem o exercício de sobreviver às agruras dum país desgovernado.
E porque tenho o péssimo (?) hábito de me colocar no lugar do outro, responderia assim se mo perguntassem.
- O que é que tu sentes ao ouvir o hino? 
- Sinto que sei a música de cor. E canto-o bem mas nem a mim alegro. Sinto que sou quase tão antiga e desactualizada quanto o hino.
- O que é isso?
- São muitos anos a cantar e a ouvir a portuguesa. São muitos anos a fazer de conta. A apelar ao sentimento. A fazer o papel da desgraçadinha. São muitos anos a colher louros que não nos pertencem. 
São muitos anos a sentir um arrepio na pele. Algumas vezes, nos jogos da selecção. 
- Só? perguntar-me-iam.
- Quase só. É que apesar de me ensinarem que Portugal também ia de Cabinda ao Cunene, eu nunca acreditei.
É que em 1975 quando aqui cheguei, ninguém me reconheceu portuguesa.
É que ser filha de pais portugueses, ter nascido numa colónia portuguesa, falar português, viver há 37 anos em Portugal e ter BI nacional, não faz de mim portuguesa.
Mas...apesar de tudo me dizer que não basta, eu sou. Também legalmente. E cumpro. Cumpri sempre. 
E como cidadã exemplar, com direito a descarregar o seu voto, que gosta do país onde vive, com o qual tem laços afectivos fortes, desde ser filha de portugueses a ser mãe de dois portugueses, hoje, especialmente hoje, ocorre-me cantar uma parte do hino a ver se se cumpre também o meu e o destino dos portugueses, que muito respeito.
"...Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal! Entre as brumas da memória, ó Pátria sente-se a voz dos teus egrégios avós, que há-de guiar-te à vitória! Às armas, às armas! Sobre a terra, sobre o mar, às armas, às armas! Pela Pátria lutar..."
Viva Portugal!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

silêncio

Há um silêncio exigente que me atinge e desconcerta. Que me agrada e comove. Exigido pela brancura dos dias fáceis.
Aqueles que não precisam de palavras. Nem de anuência. Tão pouco de pose e retratos. 
Ilustrações. Legendas. 
Menos ainda de afirmações, reticências, exclamações e interrogações.
Ou flores da época, borboletas, perfumes e cores. 
Na brancura dos dias fáceis o silêncio é rei. Sem códigos. De conduta. 
Sem sinais nem leis.
Na brancura dos dias fáceis há isenção e originalidade. Princípios genuínos. Primários. 
Que não inventei nem ouso questionar. Que não quebro e somente constato. Com algum tacto 
e respeito. Com alguma dissimulada exaltação. 
O silêncio é poderoso. Um hiato divino. Existe antes de mim, em mim e existirá depois.
Está nos dias fáceis. Em que as palavras são demais. E não são necessárias vozes bonitas, nem baladas antigas. Apenas respirar.
Na brancura dos dias fáceis nada e tudo é por acaso.
São fáceis os dias porque são raros.
São brancos porque são puros.
São silenciosos porque calam fundo.
Há neste tempo, um silêncio raro, oferecido pela brancura dos dias fáceis, raros, à voz do meu coração. Que raramente emudece silenciosamente.
Faço-me rara e silenciosa, desejando mais dias fáceis e alvos. Livres de mácula.
Silenciosos.

sábado, 1 de junho de 2013

em dia mundial de...

Se todos os adultos pudessem sentir de novo as dores da criança que foram e recuperassem a memória ...
As suas necessidades.
Os seus pesadelos.
A fome e a sede.
O medo e a insegurança.
A descriminação.
A injustiça e o abandono.
O desamor.
A castração. 
O desrespeito.
Ah, como seria tudo lucidamente diferente e melhor!
Hoje, o Dia Mundial da Criança não faria sentido.
Digo eu, que fui uma criança feliz porque estive rodeada sempre de adultos honestos e felizes. E todos os dias foram dia de criança, para mim...

m.c.s.

o sonho

Tive um sonho. Cheio de sinais, gestos e palavras. Cheio de ti.
As palavras, essas, ecoam ainda dentro de mim. Gravidamente.
Sim, eu sei que foi um sonho. É sempre um sonho. Com intervalos pesados. Longos e vazios de ti. 
Nesse espaço de tempo cronometrado, sei-te como me sei. Como me aprendi. Almas que nunca serão gémeas vestindo a mesma cor, o mesmo tamanho, dançando a mesma balada. Abraçando-se como se fosse o último abraço, ou o primeiro. Dedos que se tateam e se encontram. 
Faz tanto tempo que não nos desenhamos simetricamente que até parece que nunca saímos do sonho que não sonhei, receosa de acordar. E do intervalo. Com medo de te esquecer.
Não, estou a pensar mal. Com dureza e desesperança. Eu nunca te esqueci. Tens sido a lembrança do sonho que não sonhei porque me acordaste tantas vezes como as que te quis sonhar.
Na verdade, és um sonho meu. Recorrente. Não existe nem talento nem imaginação para sonhar outro tu diferente. Só me conheço em ti. Só te conheço a ti. Na motivação. Na inspiração.
Não quero deixar de sonhar-te. Diz que quando a gente sonha, a gente vive. A gente convida e recebe. A gente é. Num tempo só nosso. 
Também não quero ser sonho de ninguém. Só teu. Já te sonhei tantas vezes que conheço os caminhos dos nossos sonhos. Os nossos encontros. Reencontros a darem-se as mãos. Lavarem as almas. Parar o momento. 
É isso. Sempre que te sonho o mundo pára. O relógio avaria. A calendário é rasgado. 
Fazes-te único. Fazes-te perto. Tão perto que te oiço a voz. O sotaque. A gargalhada e a piada. Te oiço emoção. Te sinto o coração.
Tive um sonho. Já tive muitos. Afinal não sei sonhar outros. 
Enquanto te sonho e não sonho vou calculistamente abrindo estrada para te fazeres perto. 
Sempre mais perto. Se não sonharmos juntos, ao menos que vamos para intervalo ouvindo a mesma canção.