terça-feira, 12 de março de 2013

uma janela virada para o mar


Há uma nesga de dia entrando pela nesga que foge do cortinado da porta da varanda.
O sol escondido pelo sono, aparece. Dorme-se no quarto. Profundamente. Pé-ante-pé chego-me à vidraça.
As dunas parecem falar-me. Levantam as suas areias em sinal de cumprimento. Nunca vi areia mais fina. E branca. Ontem, no entardecer, o vento brincava com ela, atirando-a ao ar. 
Executando danças exóticas, movimentos insinuantes, num espetáculo voluptuoso...
Mais adiante o mar espreita. Silenciosamente. Acena-me a onda que se levanta e se vem render à praia do meu amanhecer.
Nesta manhã bonita de domingo, as gaivotas trazem-me recados que não quero interpretar. Um bando de gaivotas pequeninas segue os surfistas que vão ao encontro do prazer, da aventura.
Do mar. Do seu marulhar. 
Doem-me os gémeos. Porque se chamarão assim? A minha ignorância é medonha. E depois, os meus não devem ser bem gémeos. A perna esquerda tornou-se menos musculosa depois duma crise que me ia atirando para a cama por muito tempo. Esta hérnia já me provocou dissabores de vária ordem, um deles criar-me constrangimentos, quando abordei a Dona Lena, minha costureira de eleição. Gosto dela. Do seu jeito. Ó minha senhora! Diz ela a cada minuto. 
Acho-lhe piada...
- Ó dona Clara, a senhora acha que eu ia fazer uma perna mais apertada que outra? Sou poucochinho mas não tanto.
- Não sei dona Lena, o que sei é que a perna esquerda está justa e a outra não. Aconteceu aqui qualquer coisa de estranho.
Vesti, despi calças, foram medidas em cima da mesa profissional vinda duma fábrica de confecção onde trabalhou e que faliu. E era ela quem tinha razão. 
- Veja minha senhora, eu sei que sou tonta e podia ter-me escapado, mas desta vez a culpa não é minha. E não era. Era da minha hérnia que mirrou os músculos da dita.
Ela sabia do pânico instalado quando quis vestir as calças xadrez a preto e branco e simplesmente não passaram das coxas. Horas antes de embarcar para o Funchal. Ou o casaco beje do fato tipo colonial, de linho, que parecia um saco, horas antes d' um festival de pequenos cantores ao qual concorria com uma letra ( que ganhou ) e inevitável, a subida ao palco. E a última foram umas calças de cetim pretas, horas antes d' um casamento. Ficaram tão más tão más e ela apanhou um susto tal que decidiu comprar tecido igual e fazer-me outras e não me cobrar qualquer quantia pelo trabalho.
E os gémeos ( os meus, falsos ) que não deixam de doer!
Ontem à tarde fui usufruir da piscina interior. Aquecida numa temperatura perfeita.
- Quer fazer a aula de hidro-ginástica?
Ham e tal e coiso, aula? Professora? Grupo? Não me parece.
- É giro. Vai gostar, continuou a menina bonita e elegantemente trajada de acordo.
E sim. Fiz a aula. Uma hora fazendo todos os exercícios pedidos, ordenados, sorridos.
- Não vão? Tem vergonha? perguntou-me, quando mesmo na parte final pediu que nos puséssemos em fila, fazendo comboio. Sorri-lhe e disse que não. 
Ó minha senhora! Como diria a dona Lena. Vergonha eu?
E os gémeos que me doem tanto. Foi da aula. E das caminhadas.
Olho as gaivotas pequeninas. Cinzentas. Voando em bando. Como se de andorinhas do mar se tratassem. Serão gaivotas? Ou andorinhas? O horizonte lá longe. E os meus sonhos também.
O despertador toca. Olho a cama. Fim de semana romântico...Não. Não é o lugar certo. O quarto demasiado grande. A cama com medidas escandalosamente exageradas. As paredes brancas e a da cabeceira, castanha. E os tapetes? Não, não é um fim de semana romântico.
Regresso para o interior. Para me arranjar para o pequeno almoço. Gosto desse ritual dos hotéis. A sala das refeições é comprida e clara. O jantar de ontem não correu muito bem. 
Uma espera que nem o pai morre nem a gente almoça. E a espetada demasiado pequena. Umas rodelas de chouriço à mistura. As batatas fritas, pré-congeladas. Não lembra ao diabo. Os doces foram oferta. Julgo que para salvar a honra do convento. Não salvou.
Como podia tratar-se de um jantar romântico num fim de semana romântico? Nem as velas à mesa faziam lembrar romance. Faltava o piano. As flores. Uma dança a dois. Morangos e champanhe. Chantily. Digo eu, que leio sobre jantares românticos.
Decididamente, se tiver um fim de semana romântico não será aqui.
As gaivotas pequeninas a intrigarem-me... serão gaivotas ou apenas andorinhas do mar?
E os gémeos que não param de doer-me. 
Sempre que venho para este lugar ando até à exaustão. À beira-mar. 
- Como é que estás? pergunto à minha companheira de fim de semana que só agora acordou.
- Doem-me os gémeos… disse ela.
E assim começa a minha manhã com a certeza de que este não é o lugar certo para um fim de semana romântico. Mas tem uma janela virada para o mar.


sábado, 9 de março de 2013

viajando


O meu tempo começou há poucas horas. 
É sábado e supostamente devia estar ainda aquecida pelos lençóis térmicos num Ribatejo que acordou solarengo mas gelado.
Tudo preparado, o computador fechado, colocado no saco que lhe pertence, não reclama. O seu tempo comigo também é feito de algumas viagens. Conhece estações e carris. O Tejo, o Douro, o Sabor, o Almonda, o Sado, ouve o mar bater nas rochas do molhe leste e no farol do Cabo Carvoeiro. Conhece até o sorriso e a delicadeza do motorista da camioneta da carreira, sabe deus para onde e dos expressos aos fins de semana. Conhece os mergulhos dos veraneantes na piscina do hotel Praia Norte. Conhece Paris, Madrid, Genéve. O Algarve e Trás-os-Montes. Conhece Angola e os aviões da TAP e da TAAG.
Que hei-de dizer do meu computador senão que é um companheiro de todas as horas mesmo as mais tardias, fáceis e difíceis horas, fiel quanto baste que a cega é p'ra animais de 4 patas como o cão e o meu computador não ladra. Nem me lambe as feridas.
Toca o telefone. É o sinal. Para descer. Alguém que devia estar no vale dos lençóis, porque será que se diz vale de lençóis? 
Nunca percebi mas como sou pessoa de lugares comuns também digo, essa pérola de pessoa aguarda por mim na entrada. Desligo. 
Agarro nos sacos e desço. Na rua, olho a generosidade, de óculos escuros, cabelo molhado colado à cabeça, roupa desportiva, sapatilhas e um sorriso onde ainda não se vislumbram rugas, nem sequer de expressão. Aquece-me a alma. E o estômago. Porquê? 
Porque foi onde as emoções se instalaram quando há quase 6 décadas o meu tempo começou. Pouco romântico, mas tendo em conta que sou Caranguejo, diz que é mesmo neste órgão que a sensibilidade se faz presente e o fragiliza. Dizem e eu acredito. 
O saco pesa. Habituada não estranho. Não me aborreço, não reclamo. Doze minutos me separam da estação do comboio que me levará para a capital. Aquele que pára em todas.
- Porque não vais no intercidades? 
- Porque sim, respondo. Sempre. Mas como sempre, não me fico por resposta tão arrogante. Até porque me dizem tal como eu o diria: Porque sim, nao é resposta. E não. Se querem ver alguém a fritar é dar respostas destas. Eu fico podre se as receber.
E passo a explicar. Gosto de explicações. Acho que devemos dá-las. Dou-as a mim própria, até porque me estou sempre a pedi-las que até meto nojo, mas é do hábito. E depois, fica tudo claro, pratos limpos. Sem equívocos nem desculpas, assim o queiram os intervenientes. P'ra tudo é preciso compreender. Acreditar. Humildade para escutar.
No caso a explicação é esta: Gosto de viagens. De paisagens. De ter a possibilidade de perceber o que está para além da janela aberta e nua de cortinas. Do estendal repleto de lençóis de flanela aos quadradinhos e às florzinhas, dos atoalhados com aplicações em renda e panos de cozinha arrematados com picô ou lá como isso se chama que a caçula é que está bem dentro desse assunto pois que é a rainha do croché. Eu dispenso porque não há pachorra para dar ao dedo e à agulha. Aprendi. Não vou dizer que não. O suficiente para me surpreender há 4 anos em Luanda quando a Filú, filha da minha querida Arminda me recordou que aprendeu croché comigo. Eu que já nem lembro quem mo ensinou. Mas fiquei orgulhosa, vaidosa, para ser franca, por aquela kanuca dos anos 70 que colocou Clara de nome na sua filha caçula em jeito de homenagem a mim que até fiquei parece aquelas pessoas que fizeram qualquer coisa de extraordinário em prol de alguém ou da comunidade e viram o seu nome em nome de rua onde todos passam e lêem. 
E sim, gosto de ver o rio correr por entre a lezíria, por entre margens verdes da primavera antecipada e sonhar pontes que me unem a tempos que serão meus assim o universo o queira e por isto e muito mais, gosto de chegar a Lisboa num comboio pachorrento e sem desigualdades. Todos iguais. Igual à vizinha da frente que lima as unhas despudoradamente, ou a do lado que colocou óculos escuros para desistir da paisagem e deixar o sono apanhar-lhe o subconsciente. Igual ao puto chato que a cada minuto diz ao pai: ÓOOO paiiiiiiiii, paiêeeeeeeeeee, quanto falta? Paiiiiiiiiii, já chegamos?
Os 12 minutos chegaram para atravessar a passadeira de madeira, despedir-me da generosidade que me transporta o saco.
-Boa viagem e bom fim de semana. Retribuo. Entro no comboio. Começa o meu tempo de viagem. Pouca-terra, pouca-terra, curicuteléeee, e vem-me à memória o Duo Ouro Negro e viajo para outro tempo nas asas da imaginação que me da a canção que a cantei todinha no meu coração.
Páro. De me envolver com o meu passado por dá cá aquela palha. Hoje não. Não me arrancarei lágrimas de sábados distantes. Não hoje. Sou feita de tempos e hoje o meu tempo caminha para Santa Apolónia. Para a Baixa. Para almoço em família. Conversas.
Hoje o tempo é de multidões. De punho levantado e bolsos vazios. Na voz, Grândola vila morena, na atitude a indignação. Direito à revolta. À manifestação.
Destino - Lisboa - Santa Apolónia. Paragem Azambuja. São 9,33. As cidades acordam. Para trás ficou cidade do Almonda. E a Pitanga. Instalada no pufo vermelho p'ra gatos. Olhar azul celeste intenso. Como que a dizer-me: Já vais não é?
Passa o rápido. Enquanto isso penso com saudade noutros tempos e lugares. Não. Hoje não é dia. É tempo de civismo. De luta. De voz. Em coro. União. A mesma mensagem e intenção. Hoje vou dar-me voz porque ainda é tempo. E para além disso é dia da mulher angolana. Que quer dizer bravura, persistência, sabedoria e fé. Na qual faço fé desde que me conheço. Tal como faço fé no dia de hoje. Que não me desiludirá. 
- Paiiiii já chegámos? Quando é que chegamos? 
Finalmente. Entrada para o metro. Stª Apolónia, Terreiro do Paço. Os media preparando-se para a cobertura do grande acontecimento. Ou não. Sigo pela rua Augusta. No meu destino coloco o dedo na campainha. Três toques. O nosso sinal desde sempre. Abre-se a porta. Subo as escadas. Sorrio. Cheguei.

( sábado 2 de Março 2013 )

divagando para não desesperar na espera




Sentei-me. No banco de pedra da minha vontade de ficar à espera sabe-se lá de quê. Sabe-se lá porquê.
Há muito tempo não encontrava o banco certo para te esperar e agora que decidi esperar sentada não sei se fique não sei se vá ao encontro da tua indiferença. Ou serão dúvidas, incertezas, incapacidades?
Enfim! Estou entre as dez e as onze e já vai sendo horas de me decidir, dirás tu, ou direi eu, porque é a tua indecisão que me confunde a vontade e o tempo para te esperar. 
Diz que quanto mais a gente se ( a )baixa, mais o rabo se nos vê. Olha, nesta fase da vida, neste cansaço de esperar mas porque a esperança é a última a morrer te digo que tanto me faz como me fez que me vejam as vergonhas. Até costumo dizer que desde que tape a cara para não saberem quem eu sou, podem ver tudo.
Mas vamos ao que importa. Nós dois que é como quem diz, ou melhor, quem queria dizer, um mais um. Dá sonho. Poesia. Palavras bonitas, desejos. Dá uma grande confusão de ideias mas dá sobretudo inspiração. E se acrescentarmos a terra ao nosso desejo de a abraçar dá uma saudade do pôr do sol a fugir de nós, na praia e do perfume das acácias que floresceram há pouco, que encontramos já já o grande motivo em comum para partilharmos o banco de pedra onde te espero sabe-se lá porquê, sabe-se lá para quê.
Olha, esquece. Na verdade o banco de pedra onde me sentei foi uma escolha minha. Provocar-te, também. E deixar-te a batata quente na mão. Já basta o que basta e por isso, pratos sobre a mesa.
Ou te decides...ou te decides que comigo não há nins. Vale a pena esperar sentada ou isso quer dizer que eternamente ficarei a ver navios ? Bem sei que o meu banco fica mesmo em frente ao mar do nosso encanto, aquele que nos levará para lá do horizonte e nos fará encontrar a kianda, e também sei que é uma grande indelicadeza fazer esperar uma senhora, que o sou, não é preciso dizeres-mo, mas tenho dias que penso naquele ditado que nem o pai morre nem a gente almoça e parece que te estou a retratar nessa nova atitude de negação ao que é para lá de evidente.É inevitável o nosso encontro. Porque os desencontros que já nos demos não são coincidências porque não as há. E nada é por acaso. 
Sentei-me. E espero sentada. Não faz sol nem sombra. A chuva é daquelas, molha tolos, por isso estou a salvo e um banco de pedra é o lugar certo para uma bela prosa. 
Sabes que mais? Aposto que não espero em vão e um dia...bem, um dia me darás razão. 
Só mais uma perguntinha, demoras muito ou fazes serão?

sexta-feira, 8 de março de 2013

hoje

foto tukayana.blogspot
Não sei se é da chuva, se é do frio do inverno, se da tarde que cai, 
Não sei o que tenho, porque tenho ou se tenho motivo a provocar esta tristeza, 
esta saudade...
Não sei se porque deixarei a cidade, o rio, o castelo,
não sei se por me envelhecer na solidão voluntária que busco tantas vezes...
Não sei se porque a casa está vazia, há um perfume no ar e uma tranquila penumbra, um abandono do corpo , um entorpecimento da alma, fragilidades,
não sei se é da culpa, ou desculpas
Não sei se porque simplesmente existo, há uma melancolia toldando-me a vontade. Acinzentando-me o crepúsculo. Hoje...
E anoiteci-me chorando...

para um mundo mais justo, lutemos

Bora lá Mulher fazer alguma coisa por nós. Para que deixe de ser assinalado. Para que o seja diariamente.
Para que sejamos iguais. E o mundo mais justo.

quarta-feira, 6 de março de 2013

terça-feira, 5 de março de 2013

ser mãe


E...pronto, volto à forma primitiva. Ao lugar de sempre. De espera e saudade. De prece e esperança. 
De orgulho, respeito e amor à distância, onde me vejo sempre lambendo a cria que há-de chegar depois de partir.
Já não toco à campainha para ver a porta abrir-se.
Já não preparo a refeição com o coração nem recebo o beijo doce que nunca será de judas. 
Não passarei o serão no sofá onde nunca me sento nem acenderei velas por toda a casa. 
Já não serei mais mãe que qualquer outra personagem nem terei a minha alma completamente tranquila.
Não serei ouvida nem aprenderei um pouco mais. 
Já não receberei elogios, nem sorrisos francos. Nem lerei preocupação na transparência do olhar que me observam, olhos transparentes, nem me sentirei amada.
Já não respirarei a dois pulmões.
A minha casa já não será um lar...
Terei de voltar à forma primitiva. Tem de ser e o que tem que ser tem uma força que provoca duras penas, mas, ou vou em frente ou...vou em frente.
É nestes dias que me queria enrolar em posição fetal, recuperar a minha placenta na terra de todas as terras e mais que mãe voltar a ser filha e regressar ao ventre da minha mãe. 
Para voltar a nascer. Mais forte, mais corajosa, mais animadora e crente. Uma rocha. Com coração. Mas uma rocha inderrubável. Para aprender a ser Mãe.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

reflectindo


As mulheres, quer dizer, o mundo, eu, melhor dizendo, para não falar por terceiras pessoas pois podem ofender-se e não desejo ofender ninguém, que fique claro, portanto, eu, diariamente, tento ficar maravilhosa. Sentir-me maravilhosa. Quase nunca o consigo, mas isso não é culpa minha. E sim da santa natureza que não me brindou em beleza e jovialidade como eu merecia, pelo menos para que abordasse o espelho com confiança: Espelho meu, espelho meu..." maravilhosa, maria clara, maravilhosa " diria o próprio.
Olho o espelho de qualquer forma. Diariamente. O que ele me devolve agrada-me. Apesar das olheiras que me esqueço de disfarçar se bem que me ofereçam os cremes próprios, apesar das manchas no rosto, diz que,  marcas do tempo, apesar das rugas, mais que muitas, mais sinais do tempo e só não falo do código de barras porque felizmente não tenho como muitas mulheres mais novas até, têm, ali por cima dos lábios e que marca muito as feições não lhes dando saúde alguma.
E porque olho o espelho todos os dias, hoje também me calhou. O que não calhou foi não me reconhecer.E pude então perceber que basta um momento, um minuto e tudo muda. E de bestiais passamos a umas grandes bestas horrorosas e ceguetas a fazer lembrar a cantiga que diz que, sou o perneta com perna de pau, olho de vidro e cara de mau.
E não adianta convencermos-nos que a beleza é intocável e eterna, porque nos deitamos belas e podemos acordar uns monstrinhos de meter medo e dó. O caso, mas no que concerne à última parte, a dos monstrinhos, brrrrrrrrrr.
E anda uma criatura a fazer coisas bem feitas como, batidos de fruta, comer legumes, peixe e carnes brancas, andar sete quilómetros diários, beber mais de dois litros de água, não beber café, nem álcool, não fumar, tudo as tais coisas bem feitas que nos ficam bem à cara  e vem uma constipação de trazer por casa e deita por terra todas as verdades, teorias, suposições, conceitos.
O chavão que é a frase que diz que não há bela sem senão, não sei se se aplica mas que estou com um belo senão, estou. 
E aquele que inventou que, quem feio ama bonito lhe parece, devia ser cego, porque ninguém de mim se aproximou hoje. 
Logo, quando se tem conjuntivite o melhor é não olhar para o espelho porque metemos medo a um susto. E também não devemos aparecer em público porque afinal as pessoas não são sinceras ou não nos prestam atenção nenhuma pois que não houve uma única que me perguntasse o que se passava de errado com a minha cara. Ou será que o meu rosto é um erro a que todos já se habituaram menos eu?
Nunca o saberei. Há perguntas que não se devem fazer sob pena de não gostarmos das respostas.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

domingo de manhã

foto tukayana.blogspot
O sol já ia alto quando acordei. Espantada e contente por ter dormido umas horas mais, deixei-me estar na preguiça. Há quanto tempo não me deixava estar...
Dona Pitanga contente por finalmente me ver a cor dos olhos, salta à minha volta. Tenta morder-me o nariz. Leva uma sapatada sem balanço. Lambe-me a mão e reclama alimento.
Penso na minha caminhada que já é um vício diário e decido ir andar. Posso matar vários coelhos duma cajadada só. Hoje é dia de caça mas ainda não ouvi tiros perto de mim. 
Há umas compras p'ra fazer, coisa pouca, que não estamos em maré de gastar como se não houvesse amanhã, há umas fotografias para tirar,há sempre e uma ida ao cemitério. Para visitar os meus mortos. Há muito tempo que não entro àquele portão.
O frio é muito. Agasalho-me. Disfarço-me tanto que nem me reconheço ao espelho. Avanço para o dia descendo as escadas.
Não, não vou contar cada passo nessa esquizofrenia do doutor que agora diabético passou a andar a pé, de fato de treino e sapatilhas, numa receita de médico, como xarope às colheres, lhe prescreveu passos apressados. Uns quantos. Será que ele os conta diariamente ou faz sempre o mesmo percurso e já sabe quanto esforço terá de fazer? Deve ser uma maçada p'ra ele. 
Conhecendo-o como conheço, aposto que deita passos pelas ventas. Havia de preferir pintar a cara de negro a andar de fato de treino e sapatilhas pela cidade. Olha-se p' 'ra ele e parece que não bate a bota com a perdigota, quer dizer a sapatilha com a marcha e com o fato de desporto. Coitado! O que havia de lhe acontecer! É boa pessoa. Ambicioso que eu sei lá, mas, quer dizer, e boa pessoa. Já me safou uma vez. Foi só perguntar-lhe se me podia fazer esse jeito que precisava muito, pagando,  e ele deu o jeito. Ele e a sua bonita, digníssima e vaidosa esposa. Não tenho razão de queixa da A....., há quem se queixe que lhe subiu a importância à cabeça, dizem que nasceu em berço de palha e enquanto não deu um berço de ouro à filha não descansou. Acho bem. Porque não? Sei que a sua casa ali para o lado do Areeiro serviu à minha cria e o que paguei foi irrisório. Não me esqueço, até porque temos de ser gratos que nos fica bem à cara e serve de moeda de troca nos sentimentos.
Bem, começo a minha caminhada, respirando profundamente. O dia está lindo. Frio mas solarengo. O vento é seco. Diz que é o da serra. Ela está ali ao dobrar da esquina. É só olhar para trás e já lhe vejo os contornos.
Num instante chego ao rio. Um pescador olha a água à espera que o peixe venha. Ocorre-me a anedota do Sr.Lopes, meu ex-colega. Curiosamente, o marido da empregada do escritório do doutor de que acabei de falar, que contava uma estória, ou caso verídico, nunca o saberei, duma nazarena que esperava na praia os homens que vinham da faina. Corpulenta e distraída, a dona da praia, a bem dizer, calca um veraneante todo pipi que estava deitado na areia. O senhor sente-se calcado e delicadamente pergunta-lhe: Vai estar aí muito tempo? Já a sufocar. E a nazarena responde: É até que o pêeeexe venha... 
Vou fotografando. Cheira a fumo que sai das chaminés e as giestas já floriram. Cheira-me a estevas também. Que grato é este perfume... Sô Santos parece que está junto de mim falando da sua aldeia.E eu viajando nas estórias que ele contava...
Olho o cemitério. Vou entrar. É a última morada dos meus pais. E de tanta gente com quem privei. Mas surpreendo-me. O portão está fechado. É hora do almoço, só pode. Os coveiros não estão. Ninguém mexe. Espreito e não há vida. Já pouca coisa me surpreende mas isto apanhou-me desprevenida. Como é que o cemitério fecha à hora do almoço? Quase não posso crer. 
Volto atrás e entro no Aldi. Aqui sim, surpreendo-me favoravelmente. Na relação qualidade/preço dos produtos.
Olho à volta. Pouca gente.Não deve lembrar ao diabo vir às compras ao domingo na hora do repasto. Só a mim e a uma mulher que não via há tantos anos que já nem me lembro quando foi a última. Continua bonita, no seu jeito diferente de estar em Torres Novas. Quando está. Era uma menina linda, parecida com a minha amiga e madrinha de casamento Manuela. E sua chará. 
Cumprimenta-me sabe-se lá porquê, porque estou tão diferente...fala em inglês com um homem que a acompanha. Interessante espécime. Porque será que se percebe logo quando as pessoas não pertencem aqui? Ela própria nunca pertenceu. Militante da UDP noutros tempos, meio hipie e frequentando os cafés mais alternativos da então vila. Um discurso fluente e inteligente e uma atitude que não cabia na cidade. Foi ver mundo, procurar esse espaço e eis que não mais será torrejana porque não se encaixa já neste lugar. 
Vejo uma betinha antiga aparecer de braços abertos a cumprimentá-la. Deixo-as para trás.Curiosa manifestação. Lembro a expressão, todos diferentes todos iguais. Porque não? 
Naquele tempo os betinhos chamavam-se " queques " e tinham o rei na barriga .E vestiam capotes alentejanos e samarras.
Calçavam botas tacão de prateleira e afinavam a voz como as tias de Cascais. Naquele tempo a gente cheirava-os ao longe e gozava-os. Eles olhavam-nos por cima do ombro, tratavam-nos por você e mostravam-nos que os lugares onde estavam lhes pertenciam e nós estávamos ali a mais. E eu, que não sou nem fui teimosa, nunca gostei que me olhassem de lado e nunca abandonei os espaços que gostava por causa da presença de indesejáveis. É que sempre achei que vozes de burro não chegam aos céus e cá para nós que ninguém nos ouve, esses betinhos eram uma cambada de ridículos e emproados que até metiam fastio.
Avanço para a caixa. Pago e arrumo as compras num saco. A betinha de que falei está já a pagar. Olho-a. É bem feiona. Tem olhos de coruja e nariz de papagaio. Muito magra e cinzentona. Fala com a filha, futura betinha mas mais bonita. A empregada pergunta-lhe se quer factura. Diz que não. Depois ri-se e diz: Só se for em nome do Passos Coelho.
Ora toma uma passa! Quem havia de dizer. Soltei uma gargalhada. Ela nem para mim olhou. Não deve ser surda mas é como todas. Meio idiota.  Problema dela. Teve piada o que já não é mau.
Volto pelo mesmo caminho. O pescador foi almoçar. O cão preto também. Outros cães saem-me ao caminho mas bato o pé com força e afastam-se. Há sempre muitos cães por ali. São dumas famílias que se odiavam. Rivais. Tiveram processos em tribunal, coisa feia. Bulhas fortes com insultos à mistura. Por falar em processos volto à betinha que me ignorou. Acho que porque me passaram tanto processos pelas mãos, também desta corja de betinhos, ricos, educados, honestos, tudo a fingir, é que me habituei a ignorá-los. É que foram tantos os cheques sem cobertura, penhoras a casas, apreensões de veículos, tantas insolvências que se me acontecesse pintava a minha cara para que não me conhecessem. Enfim...
Chego a casa. Subo as escadas. Encontro a minha vizinha do 1º andar. Não foste de fim de semana? perguntou. Conhece-me desse tempo das betinhas. Mas longe está de o ser. Esta é populaça e adora saber da nossa vidinha. Lá lhe disse que nem sempre vou. 
Na verdade troco-lhes as voltas com uma pinta que nem me apercebo bem quanto, senão quando acontecem destas. Pensava que estavas em Lisboa, disse. E quase me saltou: E a pensar morreu um burro, mas, aguentei-me. Levava a mal e tinha razão. 
Entro em casa. A Pitanga indiferente à minha chegada dorme enroladinha, no sofá. No meu lugar. Sento-me também.

" Deus está comigo, nada está contra mim "


Há dias que me ponho em frente à televisão e o canal, porque é domingo, está a transmitir a missa dominical.
Gosto dos cânticos e da cerimónia em si. Não tenho pachorra para me dirigir a uma igreja e tranquilamente participar na missa mas de vez em quando sinto que me faz bem seguir o ritual pela televisão.
Mas...estando a Igreja pelas ruas da amargura não me confesso a Deus todo Poderoso, humildemente, pelos meus pecados.
Que pecados?
Sou apologista da teoria de que o único pecado mortal é não Amar.
Logo, não sou Pecadora. 
O Mundo peca porque não Ama.
A Igreja tem seguidores que pecam muito. Que se servem da Igreja.
Não posso evitar olhar a televisão e não me sentir profundamente triste. Envergonhada por pertencer a esta Religião. 
Na vida, se os lideres são desonestos não os respeitamos.
Na profissão, se os chefes o são, não os respeitamos.
Na religião a mesma coisa. Se não são dignos, não acreditamos neles.
Por ser sagrado, maior, intocável, divino, o que espero da Igreja e da religião, sinto uma profunda vergonha do que está a acontecer com os cordeiros de Deus, transformados em lobos famintos, com cérebro para pensarem. O que os torna mais irracionais.
O que me resta? Perdoar? 
Quem sou eu? Sempre me coloquei ao lado dos fracos e oprimidos. Sempre. Por isso o meu afastamento à Igreja dá-se inevitavelmente, esperando que a justiça se faça e os culpados de denegrirem uma instituição tão superior, sejam penalizados.
Olho a televisão. Quero acreditar que esta missa a que assisto é feita de fé e de boas intenções.
As leituras de hoje parecem-me especialmente escolhidas para cépticos como eu. Há portanto uma intenção dirigida tal como uma posição independente e feita, quero acreditar, de boas intenções. Com esperança na salvação ...
Não ponho em causa a fé e a missão de alguns membros da Igreja. O que me consome por dentro é haver gente ( demasiada ) que se serve dela para tirar dividendos nas hierarquias que ocupam, em campos que são tão sagrados como a dignidade e a liberdade de cada ser humano.
Espero que a minha vergonha, não abale a minha fé.
Oiço o padre que faz a leitura. Tem uma boa dicção. Uma voz bonita. Como deve ser.
" Porque o medo tira-nos a alegria do coração " diz. E eu repito agora para mim, o que sempre digo quando tenho medo e estou desacreditada - " Deus está comigo, nada está contra mim... "
Oiço o padre da voz bonita, e batina roxa, pose segura e rosto impenetrável ordenar a oração e todos em coro dizerem:
Creio em Deus Pai todo poderoso...
Eu também creio...Graças a Deus! 

anda comigo...


Se queres ser feliz, mesmo que apenas por breves momentos, umas horas do relógio que toca na torres da igreja,
Um sábado de sol duma primavera a despontar...
Anda comigo ver os campos a florir.
Anda comigo apanhar laranjas. E nabos e beterrabas. 
Salsa e coentros. Cidreira e hortelã pimenta.
Anda comigo dar de comer às galinhas, aos patos e aos bezerros.
Anda comigo dar milho aos pombos.
Acender o forno. Preparar a farinha, amassá-la, deixá-la a levedar.
Fazer pãezinhos. Pô-los a cozer.
Anda comigo pelo caminho da estrada de terra batida, pelo meio dos ciprestes e oliveiras. A céu aberto. Azul, enfeitado de nuvens brancas e douradas.
Anda comigo comer à mesa do alpendre enquanto as andorinhas, pardais e melros voam alegres e dançantes.
Anda comigo ao café da aldeia beber a bica. Arriscar uma moeda na máquina dos chocolates. Ouvir as conversas dos mais velhos. 
Anda comigo para os campos. Para a tranquilidade. Para a beleza da natureza.
Anda comigo se queres ser feliz hoje...por breves momentos, umas horas do relógio que toca na torre da igreja. 
Anda comigo abraçar o dia. Receber o abraço do universo.
É tão simples esse caminho.
É tão fácil ser feliz...

m.c.s.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

quantos passos?



Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez...
Conto, a cada passo, a cada degrau, a cada lance de escadas.
Chego à rua. Distraio-me. É sempre assim. Quando me proponho fazer algo que escapa à rotina, distraio-me. Mas se é rotina distraio-me também. A vida é uma distracção. E de distracção em distracção sorrio-me num sorriso alargado pelo bâton rosa forte com que pintei os lábios. E chega-me o aroma de perfume que coloquei. Aquele, o tal, o que me lembra lugares, momentos felizes, pessoas para sempre, mãos tocando céus com as pontas dos dedos. E toca-me e desperta-me os pensamentos, a chuva miúda que escolheu a hora da minha saída para me lembrar e nem o impermeável e as botas altas, o cachecol e o chapéu de chuva impedem que me molhe. 
Um, dois, três... recomeço. Quando passo com passos apressados e contados o lugar onde escorreguei, caí e me adoentei por alguns meses no tempo passado há pouco, avisto ao longe uma gabardine esverdeada, desbotada, velha e cansada que traz de reboque o João S, velho conhecido d'um tempo que pertenceu ao século anterior. Chegado d'uma terra que me pertence. Da época da liamba fumada em charros e trazida de lá, do vício de cravar cada cigarro fumado e a esfumaçar, das longas estórias do mato e da tropa, quem sabe verdadeiras, quem sabe inventadas e deliradas. 
Pára. Nunca me cumprimenta. Inicia a conversa como se já tivesse achado o fio à meada e começasse a tecer. 
- Sabes o que me preocupa? Que um dia nos resignemos. E não passemos deste rua abaixo rua acima, indiferentes. E depois estamos feitos, ninguém nos ouve e ficamos a falar sozinhos.
- Deixa lá João. Disse eu um pouco indiferente à sua conversa. Vale mais falarmos sozinhos do que não termos quem nos oiça.
- Estás muito espirituosa, logo pela manhã.
Ouvi, sorri e continuei o meu compassado contar. 
Um, dois, três...
Sem me distrair, cheguei ao viaduto. Descia o dr. F. F. S, de automóvel. Ao contrário do fim de tarde em que tira a gravata, calça as sapatilhas e conta dois mil e setecentos passos pelo menos, numa tentativa um tanto inquietante e ansiosa de converter em energia os açúcares em excesso que análises lhe ditaram a sina. Por ele, por causa dos seus açúcares, pela caminhada apressada em tão preciso número de passos aconselhados por alguém especializado é que hoje conto os passos que distam de casa ao local onde entrarei em automóvel de colega minha que diariamente me transporta numa generosidade que me deixa grata. 
Um, dois, três...pergunto-me se darei esses passos contados e recontados. Distraio-me com as árvores gigantes e tombadas à beira do rio desde o temporal que vivemos há umas semanas atrás. E com o rio que corre veloz e alargado de margens pouco cuidadas.
Oiço uma buzina. Paro de contar. Há uma absurda vontade de não contar até três e mais absurdamente, espetar o dedo médio para a frente e gritar para os três rapazes não menos absurdos " monangambêeeee " mergulhando no passado sem contudo sair do presente. O que fará homens cheirando a fraldas buzinarem a uma mulher da minha idade? Estar de costas com certeza. E pela figura, pelos cabelos compridos, convencê-los que estou em tempo de ser incomodada. 
Com mil diabos! Distraí-me de novo e afinal não sei se já andei mil e cem ou mil e duzentos passos desde casa. 
Um, dois, três...no cimo do viaduto viro à direita. Do bairro de S. Domingos surge a Lainha, que não me buzina, mas me diz adeus com toda a energia que se consegue pela manhã ainda que não haja açúcar a mais para combater. Brinda-me com o melhor sorriso que sabe fazer. Que faz ao longo dos anos que nos conhecemos. é mulher de um amigo da mesma terra que eu e isso faz da sua mulher pessoa muito mais querida e amiga. 
Faltam-me poucos metros para chegar à primeira paragem do meu destino diário. Em passos talvez sejam trezentos e muitos.
Não me posso distrair para que leve a bom porto o meu propósito.
Um, dois, três...
Abro o portão e paro de contar. Contei mil e setecentos passos mais coisa menos coisa. 
O dr. F.F.S. teria de descer o viaduto e voltar a minha casa para perfazer o número que lhe dá o aval para uma vida mais saudável. E eu? Será saudável contar os passos que dou? 
Contar não direi mas já saber o terreno que piso...


utopia?


Há uns dias, a uma mesa de um restaurante em Campo de Ourique, enquanto saboreava comida japonesa, nomeadamente sushi que é um vício p'ra mim, rodeada de três mulheres inteligentes, sensíveis e atentas, surgiu a conversa. E como a conversa é como as cerejas, fomos de tema em tema. Chegámos ao ponto de questionarmos porque já pouca coisa nos surpreende. Mesmo as mais bizarras. 
Na verdade eu que já vivi mais tempo que as outras pessoas que comigo almoçavam estou já nessa fase, o que considero triste e muito solitário. Que elas também estejam não me surpreende porque somos farinha do mesmo saco.
Há conversas interessantes entre pessoas do mesmo sangue, crescendo com os mesmos princípios, com a mesma atitude. Aprendendo a questionar desde logo e encontrando justificações para os actos que se dizem anormais em sociedade.
Gosto de saber as minhas pessoas à imagem de mim. A nossa existência solitária torna-se menos só. 
É olhando a folha do vencimento, ouvindo as notícias, lendo rodapés de telejornais que eu gostava de me surpreender. Mas não. 
Estou cansada e triste das notícias que nos chegam do mundo. Quando a vida vale tão pouco que a troco de nada ou seja do que for, se tira. 
Estou cansada e triste. São vigaristas, corruptos, oportunistas a cada hora, a cada notícia mexendo na minha, nossa vida, na nossa harmonia, saúde, formação, conforto, no nosso equilíbrio. 
São escândalos atrás de escândalos que me fazem questionar e entristecer.
Não evito pensar com orgulho, carinho e agradecimento em sô Santos, meu pai. Na minha querida mãe. No meu avô Carvalho. No tio Augusto. Figuras demais importantes na minha vida. Não evito pensar que se todas as famílias do mundo tivessem uma frisa destas, o mundo inevitavelmente seria mais honesto, mais amigo, mais sensível, mais generoso, mais saudável.
E porque saúde emocional é um bem que está em carência, entristeceu-me embora não me surpreendesse, lá está, eu queria surpreender-me mas não sou capaz, a notícia de assédio sexual na Igreja. Há uma hipocrisia sem tamanho que me dá volta às entranhas quando a gente ouve que a Igreja que me baptizou, fez-me a 1ª comunhão, solene, crisma e me casou, essa Igreja que neste país é soberana e sagrada, que condena o aborto, a homossexualidade, as relações sexuais se os intervenientes não estiverem unidos pelo casamento, os contraceptivos, é esta Igreja que com os escândalos que os jornalistas trazem a público, não me surpreende, vai-se lá saber porquê, mas me envergonha. Não pelos actos só por si vergonhosos mas mais pela hipocrisia.
Qual é a solução para isto? 
Recordo mais uma vez uma mulher que partiu há pouco tempo da minha vida, mãe de uma amiga, que dizia: Este mundo já não é para mim. Ou poderei recordar Jesus Cristo ou Saramago quando diziam que este mundo não é do meu reino ou este reino não é do meu mundo...
Gostava de não ser tão só nesta coisa de não me surpreender. Ou gostava de me surpreender e não de me entristecer. 
Gostava de ligar a televisão e ouvir a notícia de que sou governada por gente de bem, que quer o melhor para o seu povo e seu país. 
Gostava de ligar a televisão e ouvir que a Igreja contribui para a fé e a esperança entre os seus paroquianos. Para a verdade e transparência. 
Peço muito? Utopia? 
Eu só queria que o mundo melhorasse. Começando por mim, pelos meus vizinhos, amigos, conhecidos e continuando pelo que não conheço e está mais além. 
Eu só queria abrir a boca e numa expressão incrédula, surpreender-me...

quando for primavera...


Há nas árvores nuas, nos seus troncos cor de terra, uma súplica aos céus.
Há no sol que promete uma tarde amena, promessas de primavera. 
E na chuva que insiste em cair fustigando as sebes do jardim, arrastando as folhas secas caídas nas ruas, um acenar fugitivo à estação que se prepara para nos deixar. 
Há nesse fim de tempo um não sei quê de nostálgico que nem os melros e as andorinhas atenuam com os seus voos rasantes e graciosos.
Há um estado geral de melancolia poética no ar, que se abraça às almas sensíveis e toca os corpos fragilizados pelo inverno rigoroso. 
Há um desejo de mudança sem dramas ou precipitações.
Um dia destes sem darmos pela passagem estaremos no meio das amendoeiras em flor, colhendo cerejas e desnudando-nos no fim da tarde à beira-mar enquanto as gaivotas perseguirão o peixe que a traineira pescou no mar alto. 
Um dia destes, os dias serão maiores e as noites mais quentes. 
E eu estarei finalmente a caminho d' um tempo de mudança. Quando for primavera...




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ADELE - Skyfall (Official video HD)

memórias




Nasci na cidade. Em África.
Com cultura portuguesa mas uma cidade africana. Nos seus contrastes.Sabores, cores, linguajar, hábitos, gentes.
Foi importante o crescimento ali. Foi igualmente importante os pais serem portugueses. Nascidos na " Metrópole ". Um numa aldeia da Beira Alta, outro, numa de Trás-os-Montes.
Não sabendo, até cá chegar, o que era uma aldeia, sô Santos decalcou-as a papel vegetal na minha romântica forma de olhar as coisas, de as sentir e de as desejar viver.
Nesta minha já longa vida, Vivi apenas um mês numa aldeia. A do sô Santos. Num lugar tão longínquo que agora é que vem ao caso dizer que, onde o Judas perdeu as botas.
Desse tempo ficaram mágoas que vou esquecendo. Lágrimas que secaram. Ficou a aldeia. A memória.
Na época desvaneceu-se a idéia romântica apesar de ser uma aldeia de casinhas em pedra, da igreja à entrada,tal como a escola, da capela bem no centro, do largo do Cruzeiro, dos palheiros, dos muros em pedra negra, da venda, da casa dos grandes senhores de brasão, com o dito encrestado na pedra, dos miúdos brincando pelos lameiros, do balir dos rebanhos,do eco da serra, das vinhas ao fim das tardes sopradas pelo vento, do sol a pique em Agosto, da água da fonte, das amoras 
silvestres, dos grilos e dos pirilampos nas noites quentes, do céu estreladíssimo. Do silêncio. 
Da voz de Deus...
Desvaneceu-se porque não era o tempo certo. Não estava no tempo certo.
Desvaneceu-se porque era urgente chorar. Fazer o luto da dor de ter deixado, quem sabe, a minha cidade, para sempre. A cidade dos contrates. Africana, apesar de ser talhada ao jeito dos portugueses.
Apesar da minha realidade completamente afastada da idéia romântica dos montes e serras cobertos de estevas e giestas. De oliveiras e pinheiros e pasto. Apesar da ordenha doleite. Da coalhada. 
Dos queijos feitos com saber e arte, na mistura de cabra e ovelha, dos chouriços, salpicões e alheiras secando à lareira. Apesar das procissões. Das festas de verão em honra do santo padroeiro, da música pimba e das recusas aos convites para dançar. Apesar dos serões e das estórias de raposas e lobos famintos. E do sobrenatural...
Apesar de tudo resisti. Apenas um mês que hoje me parece ter passado num ápice e que na época custou uma eternidade.
Trouxe para o centro do país uma realidade que não queria para mim e esqueci-a de seguida. Mas as estórias que o pai contava quando estávamos na minha cidade, essas ficaram para sempre e reconheci-as nos olhos, nas mãos, na voz, na postura daquele povo que vivia para lá do Marão.
Trouxe a minha realidade e acho que me prometi nunca viver numa aldeia. Rodeada de montes e serras. Afogando-me. Aprisionando-me, limitando-me. 
Viver numa aldeia sem quês nem porquês...
Passaram quase quatro décadas. Ontem passei o dia numa aldeia do Ribatejo. Abraçada pela serra. 
Debaixo de um tecto maravilhosamente azul e dum sol que brilhou especialmente para mim que o recebi de braços abertos. De oliveiras, figueiras e ciprestes. Montes e lameiros. Torres de igrejas ao longe. Chaminés deitando fumo. Cheiro a lenha. Cães, gatos, ovelhas, pombos e codornizes, cabras e galinhas. Alfaces, couves, nabos, coentros e beterrabas. Limoeiros, laranjeiras, amendoeiras, pitangueiras e cana d'açúcar. Flores e trepadeiras. Tanque com peixinhos vermelhos. Adega. Telheiros. Cheiro a pão a fazer-se no forno a lenha. O cheiro da aldeia aguçando os sentidos. Despertando-me o romantismo. Romanticamente... 
É tão simples estar à distância da liberdade de aceitar o tempo e o lugar e vivê-lo!
O sábado a tocar-me os sentidos. A aldeia a tocar-me a emoção. A família a tocar-me a alma!
É tão fácil ser feliz!

auto-desconhecimento



Conheço-me?!
Não, não tenho essa pretensão 
Conheço lugares de mim 
Cores e gestos
Palavras e afectos
Conheço-me na canção
Conheço as mágoas e os passados dias de desilusão
Os sonhos e as pontes
Alguns dos meus eus instáveis
Conheço-me o ego elástico e a elasticidade dos sentimentos
As suas variáveis
As fúrias e as frustrações 
Os ódios e as paixões
E os heróis em mim
As emoções
Conheço-me?!
Não. Não tenho essa pretensão
Conheço-me no limite mas não o ilimitado de mim
E pouco mais sei que matéria sou e também coração
E o meu início e o meu fim
Não conheço, nem quero conhecer 
Apenas desejo o conhecimento de em mim permanecer...

m.c.s.

figos da índia


velhos tempos em que eu cantava no Cazumbi


o meu coração mora em Angola


sábado, 16 de fevereiro de 2013

porque hoje é sábado


logo pela matina, espelho meu, espelho meu


Porque hoje é sábado eu devia estar ainda a repousar do cansaço e do stress da semana. Mas não. Porquê? Porque não me sinto cansada nem tão pouco stressada. Felizarda, dirão. 
Sempre que acordo cedo quando não tenho obrigação de o fazer, lembro um homem bom, inteligente, sábio, que tive a felicidade de ter conhecido, amado e admirado profundamente e que contribuiu para me sentir bem com a minha pele, na maior parte das vezes. O avô Carvalho, que era um homem que se deitava cedo e cedo se erguia, cumprindo o ditado. Saúde teve sempre, pessoa de porte elegantíssimo, um senhor, material e espiritualmente.
E falando de saúde, estou na fase de me cuidar um pouco mais. Porquê? Porque estava a ficar uma bazaruka. Com a fratura do ombro fraturei-me um pouco. Na vontade. Deixei de fazer por mim aquilo que ninguém o faz que é tratar-me bem. Com a desculpa de que estava fragilizada, doentinha, atirada às traças, fui enfardando o que devia e o que não me fazia falta. Resultado, um cachalote de águas turvas, feio e roliço. E com dificuldades em me sentir saudável. O que me vale é a lucidez de me analisar, criticar e voltar a fazer coisas bem feitinhas, que eu sei como se fazem e que me dão até algum prazer. Sobretudo nos resultados. 
Afinal, eu gosto de andar, nadar, gosto de fruta, vegetais, saladas, sopas, carnes e peixes grelhados, água, batidos, limonadas. Não fumo, raramente bebo café, não adoço nada com açúcar, raramente bebo bebidas álcoolicas. Sei pisar chão seguro e seguir pelo rumo certo. E agora surge a pergunta. Então porque não sou sempre elegante e saudável, bem disposta e optimista? Porque não sou perfeita. Ah, nem quero. Pecar é bom. O problema não está no pecado mas na inércia. Na falta de lucidez para se sair do pecado. 
Mais uma vez deus deu-me descernimento para pular fora e aqui estou eu há duas semanas desinchando veloz e alegremente que nem aqueles balões a quem tiram o ar viciado.
Porque hoje é sábado e me levantei cedo por motivos que não vêm ao caso, mas que têm a ver com afectos, dei uma espreitadela na Sic Mulher e o Dr.Oz, fresco, rico e belo, apareceu-me a dizer que papaia e ovo cozido ingeridos em jejum e simultaneamente acelera o metabolismo, contribuindo assim para o emagreciemnto.
E eu acreditei. Apesar de saber que vende marcas, que ganha balúrdios, este senhor televisão sabe o que vende ao seu público. E depois, o homem é um charme...né?
Por isso, mundo feio e gorducho que se queira mais sensual e magrinho - Papaia e ovo cozido logo pela matina. Por falar nisso, já comi meia papaia mesmo antes de ver o programa. Quanto ao ovo cozido...pois, não tenho ovos no Olival porque a estadia é curta e tenho mais que fazer do que compras, como se não houvesse amanhã.
Não sei se me quero ( mais ) sensual, porque isso...enfim, cada um é p'ró que nasce e eu...bem, tenho dias...que já lá vão. Lolol! 
Mas ainda assim, quero-me mais leve e estou a fazer por isso. Acredite-se ou não. 
Eu posso ser desplicente mas se meto na cabeça uma que me agrade, ah faço, cumpro, exigo-me, regozijo-me com as minhas próprias penalizações, masoquizo-me, para me narcisar depois em frente ao espelho, num, espelho meu, espelho meu, quem é que já consegue vestir umas roupinhas que estavam a aguardar melhores dias, quem é? Espelho meu, espelho meu, quem é que já não tem cara de lua cheia, nem papadas, nem excedentes na cintura e no estômago? 
Espelho meu, espelho meu, quem é que está feliz com a sua iniciativa, insistência, disciplina e crença? Eu. Daqui por mais um mês. 
Ah julgavam que isto era atar e pôr ao fumeiro? Não que não sou nenhuma alheira, farinheira, chouriço ou presunto. Os presuntos já não são muito gordos mas tudo ocupa espaço. E assim como assim nada se faz sem sacrifício, trabalho e paciência. Ao longo dos anos tenho tido as minhas doses...
Pois que isto não é estalar os dedos qual fada carregada de varas de condão. E como tal, já a seguir vou andar uns quilómetros entre o Olival e a Póvoa. Para preparar o meu sábado com saúde e alegria. É que se não for eu a tomar conta de mim, ninguém toma, pois já sou crescidinha, calmeirona, dirão os mais inconvenientes e descuidados. E assim como assim eu nem gosto que me tomem conta da vidinha. São gostos, feitios, defeitos, que sei eu? Não vou mudar, mas só neste particular, porque daqui por um mezinho ninguém lembrará a criatura espaçosa que já só bebia coca-cola, comia pão como se a farinha fosse acabar e fazia asneiras umas atrás de outras e não eram aviõezinhos com os dedos que isso não engorda. E dependendo do ponto de vista torna-nos criaturas feias, ou não.
Voltando ao motivo da minha escrita e porque não tendo acordado inspirada arranjei este tema como pretexto para mais uma vez escrevinhar qualquer coisita, deixo aqui não o testemunho mas a promessa de que uma manhã destas hei-de comer papaia e ovo cozido. O Dr. Oz que me aguarde, pois que nesta vida devemos experimentar tudo...o que nos pareça Bom. É já amanhã antes que se faça tarde.
Papaia e ovo cozido! Que combinação estranha...mas se ele o diz, quem sou eu para duvidar?!


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

namorados




Namorados! Associação bonita. Dupla. Plural. 
Momento. Lindo de viver. 
Partilha abençoada. 
Paixão em brasa. Ternura quanto baste.
Mãos dadas. Olhos nos olhos. Sorrisos aos montes.
Beijos e abraços. Sussurros e declarações de amor.
Colo, nuvens e sonhos. 
Bobeira.
Música. Poesia...
Namorados! 
Toda a gente já foi.
Quem não foi, quer ser. 
Há até os namorados para sempre. 
Namorados...eternos se fazem, os românticos.
Romances, filmes e estórias de encantar.
Gente que apenas quer receber e dar.
Amar.

Bem aventurados os que namoram.
Parabéns a esses, no dia instituído. 
Namorem também hoje que o dia é vosso!
 

m.c.s.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

o baleizeiro do meu tempo...


palhaçada


É Carnaval! 
Hoje sinto-me uma palhaça mascarada de funcionária pública de 4ª categoria.
Porquê?
Porque há-os de 1ª e há-os das outras. 
É com estas medidas que vamos salvar a pátria. Trabalhando ( poucos ) na terça-feira de carnaval...
Que palhaçada!!!!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

No campo com o Cuky

foto tukayna.blogspot.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

é na noite que cai


É na noite que cai
Que se erguem sombras
Esboços de ti
Desenhos a preto e branco
Esbatidos no tempo...
Somos almas desencontradas
Nas esquinas dos dias
Nos becos da vida
Nos relógios coloridos das estações
Calendários do passado e do presente
Nas manhãs, tardes e noites vividas
No tempo que não vivemos ainda
É na noite que cai
Que se me amanhecem os sonhos
E as marcas que deixam
São claros sinais gritando
Que não desista de ti...
Passeio-me pela escuridão da noite
Num tempo de luz
Caminho na esperança
Que será última, a perder
E espero...que a noite é longa
Espero na ilusão a iluminar-me os dias
Para finalmente te viver.

m.c.s.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ana Moura - 'Até ao Verão'

esboço de ti




Desenho desesperadamente o teu rosto. Todos os contornos. 
Com especial rigor para o brilho verde do olhar. 
Para o sorriso permanente e malandro da expressão, para o nariz arrebitado, eterna criança que nunca deixarás de ser. 
Para a cor morena da tua pele que o sol africano embeleza. 
Para o timbre sedoso da tua voz. 
Ah a voz sempre a determinar os meus afectos!
Desenho o teu rosto bonito, sempre bonito, cada vez mais bonito, na esperança de te eternizar nas minhas mãos, na pele e no meu olhar.
E marcar-te a ferro e fogo no coração para os dias que hão-de chegar. 
Desenho-te através da imagem de luz, relíquia que conservo guardada há tanto tempo...
Tanto tempojá...que passou a guerra, o verão, mil verões e invernos frios e desolados.
Milhões de crepúsculos sob o olhar atento do Mussulo.
Passei pontes que nos aproximam e afastam, passaram Natais e carnavais, cairam governos. 
Chegaste, partiste, silenciaste, voltaste, sonhei-te.
Ah como te sonhei! Foste um milagre sem explicação, uma aparição.
Passou o tempo, tanto tempo, passou o século, séculos, que enquanto te faço um esboço, desespero de pânico de te envelhecer na minha memória se te não desenhar. E percas o brilho do olhar, o sorriso nos lábios e até o nariz se envelheça finalmente, 
conformadamente. E te tornes um estranho.
Enquanto te desenho oiço-te o sotaque. Pérola de quem nasce e vive em África.
Ai como oiço os sotaques! E África... 
Eu desenho-te. E enquanto vais ganhando forma pelas minhas mãos vou escutando a voz do meu coração. 
Não. Nunca te esquecerei. Nunca te apagarei.
Nunca serás um estranho e desconhecido fantasma de ti em mim.
Nem sombra, nem desgosto,nem fim.
Tatuei-te na memória. Para sempre. 
E para todo o sempre te desenhaste e te tornaste a outra parte da minha estória.

quem nos acode?



Eu juro que sou uma senhora. Embora não me valham de nada as juras, eu faço por isso. Não por jurar à toa. Mas por ser uma senhora bem comportada, tolerante, consciente do meu lugar e valor na sociedade, amiga do seu amigo, caridosa, cumpridora, trabalhadora, boa cidadã, bem educada. 
Tenho os meus defeitos e respondo por isso.
Mas quando oiço um imbecil dizer que se os sem-abrigo podem, nós, os outros, também temos de poder pois não somos diferentes, nem dos gregos ( não percebi a alusão ??? ) nem dos sem-abrigo, ( ainda percebi menos ??? ) a primeira coisa que fiz foi falar alto e sozinha, de mim para mim, quer dizer de mim para ele, que o tinha ali em frente, na televisão. E a palavrita que me saiu assim como que estando, acho está sempre, preparadita na ponta da língua, para saltar, não me torna uma senhora, muito pelo contrário, resvala-me de imediato, num ápice, o pé para o chinelo, mas senhores, como enchi a boca com aquelas três palavrinhas que aprendemos quase que ali quando ainda nem sabemos dizer mãe, pai, ou, dá, e que nos prometem jindungo na língua se alguma vez temos a desfaçatez, a vulgaridade de a pronunciar. 
Eu não queria acreditar. De boca aberta ouvi a criatura e só me ocorreu para além de fazer aviões com os dedos e rezar padres nossos tortos, indignar-me. Ainda tenho direito à indignação. 
Ou não?
Bem sei que levo bordoada se for para a rua indignar-me que segundo eles só se perdem as que caem no chão, mas na minha casa, mando eu. Quer dizer, enquanto cumprir. Pois que se não cumprir lá vêem eles tirar-me o direito ao abrigo, à dignidade. E afinal têm razão, num instante e me torno um sem-abrigo, que tenho que me aguentar à bronca. 
Ah pois é! É vê-los senhores, cada vez mais, cada vez mais unidos em grupos, cada vez menos 
toxicodependentes e cada vez mais criaturas com a minha idade, a nossa idade, a tua idade, a 
idade dos nossos pais, embrulhados em cobertores com os seus poucos e tristes haveres do lado, por exemplo na avenida da Liberdade, ali paredes meias com as lojas de marcas caríssimas, os hotéis onde se alojam turistas estrangeiros. E eles, os tais que vêem para a televisão mandar bitaites que melhor era mergulharem a cara numa lata de porcaria e borrarem-na toda, eles que nada fazem por estes infelizes que não têm eira nem beira senão o beiral dos telhados, as portas de entrada, os vãos de escada, e os alimentos que os voluntários todas as noites distribuem para que tenham um mínimo abaixo do decente mas que os deixa permanecerem neste mundo, numa morte adiada, eles, os senhores engravatados referem-nos como se estivessem a fazer uma grande comparação, uma lógica e legal comparação.
E nós? Os tais outros que não somos mais que os gregos e os sem-abrigo, nós, aqueles que lutam para não chegarem a ser sem-abrigo, aqueles que ajudam os sem-abrigo, nós aqueles que ao contrário dos sem-abrigo, porque ainda temos a felicidade de ter a ilusão de possuirmos algo de nosso, diariamente somos roubados, diariamente nos são retirados direitos, diariamente nos são aplicados deveres acima das nossas possibilidades?
Nós, aqueles que viram reduzidos 300 a 400 euros mensais nos seus ordenados e aumentados 
impostos, transportes, propinas, gastos com a saúde, Imis, alimentação, luz, gás, água? 
São esses , nós, a quem a imbecil criatura se referiu, que temos de nos aguentar à bronca?
Afinal o país pretende ser um sem abrigo na Europa? Afinal os senhores deste país pretendem 
reduzir o seu povo apenas a sem-abrigo? E eles o que serão? Os voluntários que nos oferecerão um prato de comida com 605 forte? Judas, como na última ceia de Cristo?
É que diariamente põem termo à vida, portugueses, por causa destes senhores. 
É que diariamente portugueses perdem as suas casas, os seus veículos,  penhorados e vendidos que são, por incumprimento das prestações.
É que diariamente os portugueses perdem os seus postos de trabalho. 
É que o país está com fome. O país está pelos cabelos. De rastos. Nas últimas. Enquanto uns e 
outros continuam as suas vidinhas burguesas como se nada estivesse a acontecer.
Pois é. Ainda tenho direito à indignação. E como não estou vinculada a partido algum, não tenho cargos políticos, já tenho a idade que tenho, já comi o pão que o diabo amassou e já atravessei mar, dou-me ao luxo de dizer umas quantas e são a voz de muitas vozes que oiço diariamente porque ainda não estou surda.
E remato com umas palavrinhas que me andam sempre a bailar nos últimos tempos.
Grandes f.d.p. Que putice pegada!
Quem nos acode? Afinal não há ninguém que olhe por nós?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

queria ser um albatroz


Se eu fosse um albatroz, hoje, neste momento, iniciava o vôo para Sul.
Digo eu que vôo nas asas da inspiração que me permite sonhar.
Que saudades, tantas, muitas, todas, de casa!

m.c.s.

1961/2013