sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

quantos passos?



Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez...
Conto, a cada passo, a cada degrau, a cada lance de escadas.
Chego à rua. Distraio-me. É sempre assim. Quando me proponho fazer algo que escapa à rotina, distraio-me. Mas se é rotina distraio-me também. A vida é uma distracção. E de distracção em distracção sorrio-me num sorriso alargado pelo bâton rosa forte com que pintei os lábios. E chega-me o aroma de perfume que coloquei. Aquele, o tal, o que me lembra lugares, momentos felizes, pessoas para sempre, mãos tocando céus com as pontas dos dedos. E toca-me e desperta-me os pensamentos, a chuva miúda que escolheu a hora da minha saída para me lembrar e nem o impermeável e as botas altas, o cachecol e o chapéu de chuva impedem que me molhe. 
Um, dois, três... recomeço. Quando passo com passos apressados e contados o lugar onde escorreguei, caí e me adoentei por alguns meses no tempo passado há pouco, avisto ao longe uma gabardine esverdeada, desbotada, velha e cansada que traz de reboque o João S, velho conhecido d'um tempo que pertenceu ao século anterior. Chegado d'uma terra que me pertence. Da época da liamba fumada em charros e trazida de lá, do vício de cravar cada cigarro fumado e a esfumaçar, das longas estórias do mato e da tropa, quem sabe verdadeiras, quem sabe inventadas e deliradas. 
Pára. Nunca me cumprimenta. Inicia a conversa como se já tivesse achado o fio à meada e começasse a tecer. 
- Sabes o que me preocupa? Que um dia nos resignemos. E não passemos deste rua abaixo rua acima, indiferentes. E depois estamos feitos, ninguém nos ouve e ficamos a falar sozinhos.
- Deixa lá João. Disse eu um pouco indiferente à sua conversa. Vale mais falarmos sozinhos do que não termos quem nos oiça.
- Estás muito espirituosa, logo pela manhã.
Ouvi, sorri e continuei o meu compassado contar. 
Um, dois, três...
Sem me distrair, cheguei ao viaduto. Descia o dr. F. F. S, de automóvel. Ao contrário do fim de tarde em que tira a gravata, calça as sapatilhas e conta dois mil e setecentos passos pelo menos, numa tentativa um tanto inquietante e ansiosa de converter em energia os açúcares em excesso que análises lhe ditaram a sina. Por ele, por causa dos seus açúcares, pela caminhada apressada em tão preciso número de passos aconselhados por alguém especializado é que hoje conto os passos que distam de casa ao local onde entrarei em automóvel de colega minha que diariamente me transporta numa generosidade que me deixa grata. 
Um, dois, três...pergunto-me se darei esses passos contados e recontados. Distraio-me com as árvores gigantes e tombadas à beira do rio desde o temporal que vivemos há umas semanas atrás. E com o rio que corre veloz e alargado de margens pouco cuidadas.
Oiço uma buzina. Paro de contar. Há uma absurda vontade de não contar até três e mais absurdamente, espetar o dedo médio para a frente e gritar para os três rapazes não menos absurdos " monangambêeeee " mergulhando no passado sem contudo sair do presente. O que fará homens cheirando a fraldas buzinarem a uma mulher da minha idade? Estar de costas com certeza. E pela figura, pelos cabelos compridos, convencê-los que estou em tempo de ser incomodada. 
Com mil diabos! Distraí-me de novo e afinal não sei se já andei mil e cem ou mil e duzentos passos desde casa. 
Um, dois, três...no cimo do viaduto viro à direita. Do bairro de S. Domingos surge a Lainha, que não me buzina, mas me diz adeus com toda a energia que se consegue pela manhã ainda que não haja açúcar a mais para combater. Brinda-me com o melhor sorriso que sabe fazer. Que faz ao longo dos anos que nos conhecemos. é mulher de um amigo da mesma terra que eu e isso faz da sua mulher pessoa muito mais querida e amiga. 
Faltam-me poucos metros para chegar à primeira paragem do meu destino diário. Em passos talvez sejam trezentos e muitos.
Não me posso distrair para que leve a bom porto o meu propósito.
Um, dois, três...
Abro o portão e paro de contar. Contei mil e setecentos passos mais coisa menos coisa. 
O dr. F.F.S. teria de descer o viaduto e voltar a minha casa para perfazer o número que lhe dá o aval para uma vida mais saudável. E eu? Será saudável contar os passos que dou? 
Contar não direi mas já saber o terreno que piso...


utopia?


Há uns dias, a uma mesa de um restaurante em Campo de Ourique, enquanto saboreava comida japonesa, nomeadamente sushi que é um vício p'ra mim, rodeada de três mulheres inteligentes, sensíveis e atentas, surgiu a conversa. E como a conversa é como as cerejas, fomos de tema em tema. Chegámos ao ponto de questionarmos porque já pouca coisa nos surpreende. Mesmo as mais bizarras. 
Na verdade eu que já vivi mais tempo que as outras pessoas que comigo almoçavam estou já nessa fase, o que considero triste e muito solitário. Que elas também estejam não me surpreende porque somos farinha do mesmo saco.
Há conversas interessantes entre pessoas do mesmo sangue, crescendo com os mesmos princípios, com a mesma atitude. Aprendendo a questionar desde logo e encontrando justificações para os actos que se dizem anormais em sociedade.
Gosto de saber as minhas pessoas à imagem de mim. A nossa existência solitária torna-se menos só. 
É olhando a folha do vencimento, ouvindo as notícias, lendo rodapés de telejornais que eu gostava de me surpreender. Mas não. 
Estou cansada e triste das notícias que nos chegam do mundo. Quando a vida vale tão pouco que a troco de nada ou seja do que for, se tira. 
Estou cansada e triste. São vigaristas, corruptos, oportunistas a cada hora, a cada notícia mexendo na minha, nossa vida, na nossa harmonia, saúde, formação, conforto, no nosso equilíbrio. 
São escândalos atrás de escândalos que me fazem questionar e entristecer.
Não evito pensar com orgulho, carinho e agradecimento em sô Santos, meu pai. Na minha querida mãe. No meu avô Carvalho. No tio Augusto. Figuras demais importantes na minha vida. Não evito pensar que se todas as famílias do mundo tivessem uma frisa destas, o mundo inevitavelmente seria mais honesto, mais amigo, mais sensível, mais generoso, mais saudável.
E porque saúde emocional é um bem que está em carência, entristeceu-me embora não me surpreendesse, lá está, eu queria surpreender-me mas não sou capaz, a notícia de assédio sexual na Igreja. Há uma hipocrisia sem tamanho que me dá volta às entranhas quando a gente ouve que a Igreja que me baptizou, fez-me a 1ª comunhão, solene, crisma e me casou, essa Igreja que neste país é soberana e sagrada, que condena o aborto, a homossexualidade, as relações sexuais se os intervenientes não estiverem unidos pelo casamento, os contraceptivos, é esta Igreja que com os escândalos que os jornalistas trazem a público, não me surpreende, vai-se lá saber porquê, mas me envergonha. Não pelos actos só por si vergonhosos mas mais pela hipocrisia.
Qual é a solução para isto? 
Recordo mais uma vez uma mulher que partiu há pouco tempo da minha vida, mãe de uma amiga, que dizia: Este mundo já não é para mim. Ou poderei recordar Jesus Cristo ou Saramago quando diziam que este mundo não é do meu reino ou este reino não é do meu mundo...
Gostava de não ser tão só nesta coisa de não me surpreender. Ou gostava de me surpreender e não de me entristecer. 
Gostava de ligar a televisão e ouvir a notícia de que sou governada por gente de bem, que quer o melhor para o seu povo e seu país. 
Gostava de ligar a televisão e ouvir que a Igreja contribui para a fé e a esperança entre os seus paroquianos. Para a verdade e transparência. 
Peço muito? Utopia? 
Eu só queria que o mundo melhorasse. Começando por mim, pelos meus vizinhos, amigos, conhecidos e continuando pelo que não conheço e está mais além. 
Eu só queria abrir a boca e numa expressão incrédula, surpreender-me...

quando for primavera...


Há nas árvores nuas, nos seus troncos cor de terra, uma súplica aos céus.
Há no sol que promete uma tarde amena, promessas de primavera. 
E na chuva que insiste em cair fustigando as sebes do jardim, arrastando as folhas secas caídas nas ruas, um acenar fugitivo à estação que se prepara para nos deixar. 
Há nesse fim de tempo um não sei quê de nostálgico que nem os melros e as andorinhas atenuam com os seus voos rasantes e graciosos.
Há um estado geral de melancolia poética no ar, que se abraça às almas sensíveis e toca os corpos fragilizados pelo inverno rigoroso. 
Há um desejo de mudança sem dramas ou precipitações.
Um dia destes sem darmos pela passagem estaremos no meio das amendoeiras em flor, colhendo cerejas e desnudando-nos no fim da tarde à beira-mar enquanto as gaivotas perseguirão o peixe que a traineira pescou no mar alto. 
Um dia destes, os dias serão maiores e as noites mais quentes. 
E eu estarei finalmente a caminho d' um tempo de mudança. Quando for primavera...




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ADELE - Skyfall (Official video HD)

memórias




Nasci na cidade. Em África.
Com cultura portuguesa mas uma cidade africana. Nos seus contrastes.Sabores, cores, linguajar, hábitos, gentes.
Foi importante o crescimento ali. Foi igualmente importante os pais serem portugueses. Nascidos na " Metrópole ". Um numa aldeia da Beira Alta, outro, numa de Trás-os-Montes.
Não sabendo, até cá chegar, o que era uma aldeia, sô Santos decalcou-as a papel vegetal na minha romântica forma de olhar as coisas, de as sentir e de as desejar viver.
Nesta minha já longa vida, Vivi apenas um mês numa aldeia. A do sô Santos. Num lugar tão longínquo que agora é que vem ao caso dizer que, onde o Judas perdeu as botas.
Desse tempo ficaram mágoas que vou esquecendo. Lágrimas que secaram. Ficou a aldeia. A memória.
Na época desvaneceu-se a idéia romântica apesar de ser uma aldeia de casinhas em pedra, da igreja à entrada,tal como a escola, da capela bem no centro, do largo do Cruzeiro, dos palheiros, dos muros em pedra negra, da venda, da casa dos grandes senhores de brasão, com o dito encrestado na pedra, dos miúdos brincando pelos lameiros, do balir dos rebanhos,do eco da serra, das vinhas ao fim das tardes sopradas pelo vento, do sol a pique em Agosto, da água da fonte, das amoras 
silvestres, dos grilos e dos pirilampos nas noites quentes, do céu estreladíssimo. Do silêncio. 
Da voz de Deus...
Desvaneceu-se porque não era o tempo certo. Não estava no tempo certo.
Desvaneceu-se porque era urgente chorar. Fazer o luto da dor de ter deixado, quem sabe, a minha cidade, para sempre. A cidade dos contrates. Africana, apesar de ser talhada ao jeito dos portugueses.
Apesar da minha realidade completamente afastada da idéia romântica dos montes e serras cobertos de estevas e giestas. De oliveiras e pinheiros e pasto. Apesar da ordenha doleite. Da coalhada. 
Dos queijos feitos com saber e arte, na mistura de cabra e ovelha, dos chouriços, salpicões e alheiras secando à lareira. Apesar das procissões. Das festas de verão em honra do santo padroeiro, da música pimba e das recusas aos convites para dançar. Apesar dos serões e das estórias de raposas e lobos famintos. E do sobrenatural...
Apesar de tudo resisti. Apenas um mês que hoje me parece ter passado num ápice e que na época custou uma eternidade.
Trouxe para o centro do país uma realidade que não queria para mim e esqueci-a de seguida. Mas as estórias que o pai contava quando estávamos na minha cidade, essas ficaram para sempre e reconheci-as nos olhos, nas mãos, na voz, na postura daquele povo que vivia para lá do Marão.
Trouxe a minha realidade e acho que me prometi nunca viver numa aldeia. Rodeada de montes e serras. Afogando-me. Aprisionando-me, limitando-me. 
Viver numa aldeia sem quês nem porquês...
Passaram quase quatro décadas. Ontem passei o dia numa aldeia do Ribatejo. Abraçada pela serra. 
Debaixo de um tecto maravilhosamente azul e dum sol que brilhou especialmente para mim que o recebi de braços abertos. De oliveiras, figueiras e ciprestes. Montes e lameiros. Torres de igrejas ao longe. Chaminés deitando fumo. Cheiro a lenha. Cães, gatos, ovelhas, pombos e codornizes, cabras e galinhas. Alfaces, couves, nabos, coentros e beterrabas. Limoeiros, laranjeiras, amendoeiras, pitangueiras e cana d'açúcar. Flores e trepadeiras. Tanque com peixinhos vermelhos. Adega. Telheiros. Cheiro a pão a fazer-se no forno a lenha. O cheiro da aldeia aguçando os sentidos. Despertando-me o romantismo. Romanticamente... 
É tão simples estar à distância da liberdade de aceitar o tempo e o lugar e vivê-lo!
O sábado a tocar-me os sentidos. A aldeia a tocar-me a emoção. A família a tocar-me a alma!
É tão fácil ser feliz!

auto-desconhecimento



Conheço-me?!
Não, não tenho essa pretensão 
Conheço lugares de mim 
Cores e gestos
Palavras e afectos
Conheço-me na canção
Conheço as mágoas e os passados dias de desilusão
Os sonhos e as pontes
Alguns dos meus eus instáveis
Conheço-me o ego elástico e a elasticidade dos sentimentos
As suas variáveis
As fúrias e as frustrações 
Os ódios e as paixões
E os heróis em mim
As emoções
Conheço-me?!
Não. Não tenho essa pretensão
Conheço-me no limite mas não o ilimitado de mim
E pouco mais sei que matéria sou e também coração
E o meu início e o meu fim
Não conheço, nem quero conhecer 
Apenas desejo o conhecimento de em mim permanecer...

m.c.s.

figos da índia


velhos tempos em que eu cantava no Cazumbi


o meu coração mora em Angola


sábado, 16 de fevereiro de 2013

porque hoje é sábado


logo pela matina, espelho meu, espelho meu


Porque hoje é sábado eu devia estar ainda a repousar do cansaço e do stress da semana. Mas não. Porquê? Porque não me sinto cansada nem tão pouco stressada. Felizarda, dirão. 
Sempre que acordo cedo quando não tenho obrigação de o fazer, lembro um homem bom, inteligente, sábio, que tive a felicidade de ter conhecido, amado e admirado profundamente e que contribuiu para me sentir bem com a minha pele, na maior parte das vezes. O avô Carvalho, que era um homem que se deitava cedo e cedo se erguia, cumprindo o ditado. Saúde teve sempre, pessoa de porte elegantíssimo, um senhor, material e espiritualmente.
E falando de saúde, estou na fase de me cuidar um pouco mais. Porquê? Porque estava a ficar uma bazaruka. Com a fratura do ombro fraturei-me um pouco. Na vontade. Deixei de fazer por mim aquilo que ninguém o faz que é tratar-me bem. Com a desculpa de que estava fragilizada, doentinha, atirada às traças, fui enfardando o que devia e o que não me fazia falta. Resultado, um cachalote de águas turvas, feio e roliço. E com dificuldades em me sentir saudável. O que me vale é a lucidez de me analisar, criticar e voltar a fazer coisas bem feitinhas, que eu sei como se fazem e que me dão até algum prazer. Sobretudo nos resultados. 
Afinal, eu gosto de andar, nadar, gosto de fruta, vegetais, saladas, sopas, carnes e peixes grelhados, água, batidos, limonadas. Não fumo, raramente bebo café, não adoço nada com açúcar, raramente bebo bebidas álcoolicas. Sei pisar chão seguro e seguir pelo rumo certo. E agora surge a pergunta. Então porque não sou sempre elegante e saudável, bem disposta e optimista? Porque não sou perfeita. Ah, nem quero. Pecar é bom. O problema não está no pecado mas na inércia. Na falta de lucidez para se sair do pecado. 
Mais uma vez deus deu-me descernimento para pular fora e aqui estou eu há duas semanas desinchando veloz e alegremente que nem aqueles balões a quem tiram o ar viciado.
Porque hoje é sábado e me levantei cedo por motivos que não vêm ao caso, mas que têm a ver com afectos, dei uma espreitadela na Sic Mulher e o Dr.Oz, fresco, rico e belo, apareceu-me a dizer que papaia e ovo cozido ingeridos em jejum e simultaneamente acelera o metabolismo, contribuindo assim para o emagreciemnto.
E eu acreditei. Apesar de saber que vende marcas, que ganha balúrdios, este senhor televisão sabe o que vende ao seu público. E depois, o homem é um charme...né?
Por isso, mundo feio e gorducho que se queira mais sensual e magrinho - Papaia e ovo cozido logo pela matina. Por falar nisso, já comi meia papaia mesmo antes de ver o programa. Quanto ao ovo cozido...pois, não tenho ovos no Olival porque a estadia é curta e tenho mais que fazer do que compras, como se não houvesse amanhã.
Não sei se me quero ( mais ) sensual, porque isso...enfim, cada um é p'ró que nasce e eu...bem, tenho dias...que já lá vão. Lolol! 
Mas ainda assim, quero-me mais leve e estou a fazer por isso. Acredite-se ou não. 
Eu posso ser desplicente mas se meto na cabeça uma que me agrade, ah faço, cumpro, exigo-me, regozijo-me com as minhas próprias penalizações, masoquizo-me, para me narcisar depois em frente ao espelho, num, espelho meu, espelho meu, quem é que já consegue vestir umas roupinhas que estavam a aguardar melhores dias, quem é? Espelho meu, espelho meu, quem é que já não tem cara de lua cheia, nem papadas, nem excedentes na cintura e no estômago? 
Espelho meu, espelho meu, quem é que está feliz com a sua iniciativa, insistência, disciplina e crença? Eu. Daqui por mais um mês. 
Ah julgavam que isto era atar e pôr ao fumeiro? Não que não sou nenhuma alheira, farinheira, chouriço ou presunto. Os presuntos já não são muito gordos mas tudo ocupa espaço. E assim como assim nada se faz sem sacrifício, trabalho e paciência. Ao longo dos anos tenho tido as minhas doses...
Pois que isto não é estalar os dedos qual fada carregada de varas de condão. E como tal, já a seguir vou andar uns quilómetros entre o Olival e a Póvoa. Para preparar o meu sábado com saúde e alegria. É que se não for eu a tomar conta de mim, ninguém toma, pois já sou crescidinha, calmeirona, dirão os mais inconvenientes e descuidados. E assim como assim eu nem gosto que me tomem conta da vidinha. São gostos, feitios, defeitos, que sei eu? Não vou mudar, mas só neste particular, porque daqui por um mezinho ninguém lembrará a criatura espaçosa que já só bebia coca-cola, comia pão como se a farinha fosse acabar e fazia asneiras umas atrás de outras e não eram aviõezinhos com os dedos que isso não engorda. E dependendo do ponto de vista torna-nos criaturas feias, ou não.
Voltando ao motivo da minha escrita e porque não tendo acordado inspirada arranjei este tema como pretexto para mais uma vez escrevinhar qualquer coisita, deixo aqui não o testemunho mas a promessa de que uma manhã destas hei-de comer papaia e ovo cozido. O Dr. Oz que me aguarde, pois que nesta vida devemos experimentar tudo...o que nos pareça Bom. É já amanhã antes que se faça tarde.
Papaia e ovo cozido! Que combinação estranha...mas se ele o diz, quem sou eu para duvidar?!


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

namorados




Namorados! Associação bonita. Dupla. Plural. 
Momento. Lindo de viver. 
Partilha abençoada. 
Paixão em brasa. Ternura quanto baste.
Mãos dadas. Olhos nos olhos. Sorrisos aos montes.
Beijos e abraços. Sussurros e declarações de amor.
Colo, nuvens e sonhos. 
Bobeira.
Música. Poesia...
Namorados! 
Toda a gente já foi.
Quem não foi, quer ser. 
Há até os namorados para sempre. 
Namorados...eternos se fazem, os românticos.
Romances, filmes e estórias de encantar.
Gente que apenas quer receber e dar.
Amar.

Bem aventurados os que namoram.
Parabéns a esses, no dia instituído. 
Namorem também hoje que o dia é vosso!
 

m.c.s.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

o baleizeiro do meu tempo...


palhaçada


É Carnaval! 
Hoje sinto-me uma palhaça mascarada de funcionária pública de 4ª categoria.
Porquê?
Porque há-os de 1ª e há-os das outras. 
É com estas medidas que vamos salvar a pátria. Trabalhando ( poucos ) na terça-feira de carnaval...
Que palhaçada!!!!

domingo, 10 de fevereiro de 2013

No campo com o Cuky

foto tukayna.blogspot.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

é na noite que cai


É na noite que cai
Que se erguem sombras
Esboços de ti
Desenhos a preto e branco
Esbatidos no tempo...
Somos almas desencontradas
Nas esquinas dos dias
Nos becos da vida
Nos relógios coloridos das estações
Calendários do passado e do presente
Nas manhãs, tardes e noites vividas
No tempo que não vivemos ainda
É na noite que cai
Que se me amanhecem os sonhos
E as marcas que deixam
São claros sinais gritando
Que não desista de ti...
Passeio-me pela escuridão da noite
Num tempo de luz
Caminho na esperança
Que será última, a perder
E espero...que a noite é longa
Espero na ilusão a iluminar-me os dias
Para finalmente te viver.

m.c.s.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Ana Moura - 'Até ao Verão'

esboço de ti




Desenho desesperadamente o teu rosto. Todos os contornos. 
Com especial rigor para o brilho verde do olhar. 
Para o sorriso permanente e malandro da expressão, para o nariz arrebitado, eterna criança que nunca deixarás de ser. 
Para a cor morena da tua pele que o sol africano embeleza. 
Para o timbre sedoso da tua voz. 
Ah a voz sempre a determinar os meus afectos!
Desenho o teu rosto bonito, sempre bonito, cada vez mais bonito, na esperança de te eternizar nas minhas mãos, na pele e no meu olhar.
E marcar-te a ferro e fogo no coração para os dias que hão-de chegar. 
Desenho-te através da imagem de luz, relíquia que conservo guardada há tanto tempo...
Tanto tempojá...que passou a guerra, o verão, mil verões e invernos frios e desolados.
Milhões de crepúsculos sob o olhar atento do Mussulo.
Passei pontes que nos aproximam e afastam, passaram Natais e carnavais, cairam governos. 
Chegaste, partiste, silenciaste, voltaste, sonhei-te.
Ah como te sonhei! Foste um milagre sem explicação, uma aparição.
Passou o tempo, tanto tempo, passou o século, séculos, que enquanto te faço um esboço, desespero de pânico de te envelhecer na minha memória se te não desenhar. E percas o brilho do olhar, o sorriso nos lábios e até o nariz se envelheça finalmente, 
conformadamente. E te tornes um estranho.
Enquanto te desenho oiço-te o sotaque. Pérola de quem nasce e vive em África.
Ai como oiço os sotaques! E África... 
Eu desenho-te. E enquanto vais ganhando forma pelas minhas mãos vou escutando a voz do meu coração. 
Não. Nunca te esquecerei. Nunca te apagarei.
Nunca serás um estranho e desconhecido fantasma de ti em mim.
Nem sombra, nem desgosto,nem fim.
Tatuei-te na memória. Para sempre. 
E para todo o sempre te desenhaste e te tornaste a outra parte da minha estória.

quem nos acode?



Eu juro que sou uma senhora. Embora não me valham de nada as juras, eu faço por isso. Não por jurar à toa. Mas por ser uma senhora bem comportada, tolerante, consciente do meu lugar e valor na sociedade, amiga do seu amigo, caridosa, cumpridora, trabalhadora, boa cidadã, bem educada. 
Tenho os meus defeitos e respondo por isso.
Mas quando oiço um imbecil dizer que se os sem-abrigo podem, nós, os outros, também temos de poder pois não somos diferentes, nem dos gregos ( não percebi a alusão ??? ) nem dos sem-abrigo, ( ainda percebi menos ??? ) a primeira coisa que fiz foi falar alto e sozinha, de mim para mim, quer dizer de mim para ele, que o tinha ali em frente, na televisão. E a palavrita que me saiu assim como que estando, acho está sempre, preparadita na ponta da língua, para saltar, não me torna uma senhora, muito pelo contrário, resvala-me de imediato, num ápice, o pé para o chinelo, mas senhores, como enchi a boca com aquelas três palavrinhas que aprendemos quase que ali quando ainda nem sabemos dizer mãe, pai, ou, dá, e que nos prometem jindungo na língua se alguma vez temos a desfaçatez, a vulgaridade de a pronunciar. 
Eu não queria acreditar. De boca aberta ouvi a criatura e só me ocorreu para além de fazer aviões com os dedos e rezar padres nossos tortos, indignar-me. Ainda tenho direito à indignação. 
Ou não?
Bem sei que levo bordoada se for para a rua indignar-me que segundo eles só se perdem as que caem no chão, mas na minha casa, mando eu. Quer dizer, enquanto cumprir. Pois que se não cumprir lá vêem eles tirar-me o direito ao abrigo, à dignidade. E afinal têm razão, num instante e me torno um sem-abrigo, que tenho que me aguentar à bronca. 
Ah pois é! É vê-los senhores, cada vez mais, cada vez mais unidos em grupos, cada vez menos 
toxicodependentes e cada vez mais criaturas com a minha idade, a nossa idade, a tua idade, a 
idade dos nossos pais, embrulhados em cobertores com os seus poucos e tristes haveres do lado, por exemplo na avenida da Liberdade, ali paredes meias com as lojas de marcas caríssimas, os hotéis onde se alojam turistas estrangeiros. E eles, os tais que vêem para a televisão mandar bitaites que melhor era mergulharem a cara numa lata de porcaria e borrarem-na toda, eles que nada fazem por estes infelizes que não têm eira nem beira senão o beiral dos telhados, as portas de entrada, os vãos de escada, e os alimentos que os voluntários todas as noites distribuem para que tenham um mínimo abaixo do decente mas que os deixa permanecerem neste mundo, numa morte adiada, eles, os senhores engravatados referem-nos como se estivessem a fazer uma grande comparação, uma lógica e legal comparação.
E nós? Os tais outros que não somos mais que os gregos e os sem-abrigo, nós, aqueles que lutam para não chegarem a ser sem-abrigo, aqueles que ajudam os sem-abrigo, nós aqueles que ao contrário dos sem-abrigo, porque ainda temos a felicidade de ter a ilusão de possuirmos algo de nosso, diariamente somos roubados, diariamente nos são retirados direitos, diariamente nos são aplicados deveres acima das nossas possibilidades?
Nós, aqueles que viram reduzidos 300 a 400 euros mensais nos seus ordenados e aumentados 
impostos, transportes, propinas, gastos com a saúde, Imis, alimentação, luz, gás, água? 
São esses , nós, a quem a imbecil criatura se referiu, que temos de nos aguentar à bronca?
Afinal o país pretende ser um sem abrigo na Europa? Afinal os senhores deste país pretendem 
reduzir o seu povo apenas a sem-abrigo? E eles o que serão? Os voluntários que nos oferecerão um prato de comida com 605 forte? Judas, como na última ceia de Cristo?
É que diariamente põem termo à vida, portugueses, por causa destes senhores. 
É que diariamente portugueses perdem as suas casas, os seus veículos,  penhorados e vendidos que são, por incumprimento das prestações.
É que diariamente os portugueses perdem os seus postos de trabalho. 
É que o país está com fome. O país está pelos cabelos. De rastos. Nas últimas. Enquanto uns e 
outros continuam as suas vidinhas burguesas como se nada estivesse a acontecer.
Pois é. Ainda tenho direito à indignação. E como não estou vinculada a partido algum, não tenho cargos políticos, já tenho a idade que tenho, já comi o pão que o diabo amassou e já atravessei mar, dou-me ao luxo de dizer umas quantas e são a voz de muitas vozes que oiço diariamente porque ainda não estou surda.
E remato com umas palavrinhas que me andam sempre a bailar nos últimos tempos.
Grandes f.d.p. Que putice pegada!
Quem nos acode? Afinal não há ninguém que olhe por nós?

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

queria ser um albatroz


Se eu fosse um albatroz, hoje, neste momento, iniciava o vôo para Sul.
Digo eu que vôo nas asas da inspiração que me permite sonhar.
Que saudades, tantas, muitas, todas, de casa!

m.c.s.

1961/2013



quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

os meus sentimentos


Os meus sentimentos não são matemáticos. Não dão resto Zero nem noves fora Nada.
Digo eu enquanto subo o viaduto e equaciono a minha vida.
Os meus sentimentos não são geometria.
Penso eu, enquanto faço a curva do caminho que me levará à recta da boleia para o trabalho e
contemplo a lua redonda, o castelo que tem tantos lados que podia ser hexágono e me entristeço
com a mentalidade quadrada de alguns seres que comigo privam ainda que superficialmente.
Os meus sentimentos são imateriais. Podem resumir-se a um sorriso para a Cândida que vai a caminho dos seus alunos para mais uma aula de matemática e se cruza comigo diariamente e meia dúzia de palavras mais um sorriso para a Guilhermina que hoje se adiantou, ou fui eu que me atrasei, contas mal feitas às horas, e que acabou de descer o viaduto para ir para o gabinete de contabilidade onde trabalha.
Os meus sentimentos desenham-se na memória afectiva.
Não são exactos nem estanques.
Não têm endereço certo nem são yoyó, pois que não diminuem nem aumentam consoante os interesses materiais.
Os meus sentimentos não fazem contas de cabeça mas apenas as do coração.
Não se dividem em países, ou credos, opções sexuais ou políticas. Tão pouco têm idade.
São o sentir de quem nunca teve boa nota a matemática, não teve, nem é, uma máquina de calcular.
Nunca desenhou com sucesso senão desenho livre.
Nunca somou interesses materiais nem os sobrepôs aos espirituais.
Enquanto penso no quadro negro, na ardósia e nas reguadas da vida, sim porque levei algumas, chego à conclusão que as levei porque nunca racionalizei, não soube fazer contas de multiplicar fortunas, não colori cifrões e tenho as contas bancárias praticamente a zeros.
Na verdade, percebo que a minha vida é feitas de contas furadas, e favas contadas em gratidão e alegria. Tranquilidade e esperança.
Os meus sentimentos são a minha fortuna. Digo eu que tenho os bolsos vazios mas o coração a transbordar, depois de todas as contas feitas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

para começar de novo




Nesta manhã de domingo
Chega-me aos olhos o azul verde-água
Mar das minhas memórias
Amarela-se até ao vermelho sangue e  fogo, 
O meu olhar
Adormecido na paisagem 
E prenhe da savana, 
Do planalto e do deserto
Chega-me o perfume da flor do frangipani
E nos tons rubros, as acácias
Chega-me o sabor da kitaba e do bombô
O som do mato adormecendo
E o vôo livre do albatroz
Na emoção da liberdade de voar

Nesta manhã de domingo
Toca-me uma doce saudade
Uma terna lembrança
Uma grata e ilusória presença paternal 
Chega-me a vontade de desafiar 
As linhas do destino
Que trago guardadas na palma da mão
No meu coração

Um dia,
Não hoje, 
Que me correm rios nos olhos
Que insistem em ler nas entrelinhas
Passados calados
Fingidamente apagados
Não hoje, 
Que oiço milhares de angolanos 
Na minha voz

Um dia, 
Os rios saltarão os açudes,
Seguirão na sua corrente lógica e normal  
E correrão para o mar
O meu mar 
Que me chega hoje aos olhos 
Numa tonalidade azul verde-água
E eu chegarei a casa
Finalmente
Para começar de novo...

m.c.s.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

para ouvir

Da página do facebook, Começar de Novo
" No 3º programa da série Começar de Novo,

Maria Clara Santos revisita os últimos meses em Luanda, antes da independência, em 1975.
Partilhe connosco memórias, fotografias, canções, momentos, daquela época.
E, já agora, partilhe também a própria página do programa! "

Domingo, 27 de Janeiro pelas 13 horas, na Antena 1, no programa Começar de Novo. 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

sonho




Foi um sussurro
Uma sílaba
Que não chegou a palavra
Soletrada
Escrita
Esperada
Foi um sim
Um piscar
Um acenar
Pouco mais que uma miragem
Uma cor
Um aroma
Um sabor
Uma réstea de pouco mais que nada
Que não quebra
Não parte
Não se apaga
E foi um toque
Quase um abraço
Quase um beijo
Um começo
Um recomeço
Foi um tempo
Teu
Foste
És 
Um sonho meu

m.c.s.

a " gaja "afinal sou eu



" Esta gaja veio no mesmo avião que eu "...disse o mano Zé ao ouvir um programa que começou hoje, à uma da tarde na Antena 1, e que se chama " Começar de novo ".
Tocou o telemóvel. Era o mano Zé.
- Agora fazes programas de rádio?
- Eu????? Ah, estiveste a ouvir a Antena 1... ( gargalhadas )
- Ouvi dizer que " estavamos para embarcar a 29 de Julho à noite mas só embarcámos no dia 
seguinte às 4 menos 20 da manhã. Esperámos no carro ".
Quando ouvi isto disse para a Lurdes: 
- Esta gaja veio no mesmo avião que eu. Só falta dizer que parou no Gana.
- Esta gaja? É a tua irmã.
E ele não parava de rir enquanto me contava. E eu ri à gargalhada porque fui tratada por 
gaja o que não me incomoda nem um bocadinho mesmo se vem de quem vem, depois porque o mano 
Zé não reconheceu a minha voz mas reconheceu as minhas declarações e por fim porque eu 
própria quando me ouvi também não me reconheci. 
Foi um acaso, hoje, no programa, em que o amigo Joaquim de Lisboa Serra falou da sua 
história, ao terminar, ter sido anunciado o próximo programa que será com o meu depoimento, eles ouvirem duas ou três frases duma entrevista de mais de duas horas na minha sala de Torres Novas já há uns meses. 
A Inês Lopes Gonçalves, distinta jornalista, colega e amiga íntima da Ângela, minha filha e 
por coincidência curiosa, filha de um elemento do conjunto " Os Jovens " quem não se lembra? telefonou-me há uns meses, acho que no fim do verão perguntando se eu podia e queria falar sobre a minha experiência em 74/75 em Luanda, a minha vinda para Portugal e os primeiros tempos neste país. Eu sabia que seria difícil voltar atrás a esse passado tão doloroso, 
sabia também que escrevo melhor que falo, que sou trapalhona oralmente e que gravadores me 
inibem, que odeio ouvir a minha voz e que, enfim, não seria fácil, mas não há impossíveis 
para mim e não há, dizer não, a alguém que faz um trabalho que ainda não tinha sido feito e 
já estava na hora de o ser e ainda por cima amiga de casa das minhas crias, pessoa com quem 
estou quando calha, me trata com carinho e educação e por isso disse logo que sim, aceitava 
mergulhar no meu passado, nas causas e nas consequências, na mudança de rumo no meu destino. 
A Inês tinha pressa e não esperou que eu fosse de fim de semana para Lisboa e veio ao meu 
encontro, à minha casa, e esteve sentada comigo no sofá num fim de tarde conversando e 
pondo-me algumas questões. 
Tenho desse fim de tarde memórias gratas. De mim exorcizando mais uma vez as partidas do 
destino, e a curiosidade, o respeito e o carinho, o profissionalismo da Inês Lopes 
Gonçalves.
Há poucos dias a Inês ligou-me. Disse-me que a RTP ia começar com a série " E depois do 
Adeus " e que o programa " Começar de Novo" iria começar também aos domingos pelas 13 horas na Antena 1. 
Hoje a minha cria lembrou-me. Enquanto via a gravação da série que ontem gravou esperei 
pelas 13 horas. Ouvi todo o programa. A narrativa do Joaquim. A fantástica aventura que foi 
sair de Luanda numa traineira até ao Algarve.
Gostei do programa. Do conteúdo e da forma. A equipa está de parabéns. A Inês 
principalmente. 
No fim apareceu anunciado o próximo programa. E depois umas frases minhas. Lá está. O que o mano Zé ouviu. 
Na verdade não me admiro que ele não me tivesse reconhecido. Nem me admiro que a minha 
cunhada Lurdes me tivesse reconhecido de imediato. As mulheres são mais sensíveis e 
perspicazes. Eu levei uns segundinhos para me reconhecer, mas bastou dar ênfase a algumas 
palavras para perceber que era eu sem tirar nem pôr. Há coisas que nunca mudam.
Então é assim, meus amigos. Se não tiverem nada para fazer no próximo domingo sintonizem a Antena 1 pelas 13 horas e ouvirão o programa " Começar de Novo ". Onde é que eu entro? A dar o meu testemunho sobre o que aconteceu em Luanda, perto de mim, no que me foi dado ver, sentir e viver desde o 25 de Abril até chegar a Portugal com o título de efugiada/retornada. 
Ainda agora se me lembro do mano Zé dizendo " Esta gaja veio no mesmo avião que eu " 
parto-me a rir para quebrar a emoção que senti de algo que disse à jornalista e de que não 
me lembrava já. 
" Fizemos escala no Gana e foi uma felicidade perceber que ainda estava em África ".
Há sentires que nunca mudam. Graças a África!

m.c.s.

P.S. Até domingo então.

domingo, 20 de janeiro de 2013

consequências do temporal






chapéus há muitos...




mais um bom filme

Um bom filme, que fui ver hoje.
Aconselho vivamente.
Está nomeado para 8 Óscares.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

musicando



Me disseram que tinha mãos perfeitas, dedos feitos para tocar. Piano. 
E eu que queria apenas tocar no teu coração me pergunto se tens ouvido para escutar a música 
que toco de cor, com a alma repleta de melodia conferida pelo sentimento que evoluiu numa 
musicalidade que sei também de olhos vendados, de memórias passadas, presentes e até, se é 
que pode ser, futuras. 
Pode ser, sim. Digo eu que acredito, numa fé que me há-de salvar, da canção do bandido.
Me disseram que há quem tenha ouvido duro. E coração também. 
Me disseram que nem sempre tocamos a tecla certa. Nem sempre somos nota musical nem música para outros ouvidos. Para os teus, que se calhar fazem-se de moucos, ouvidos de mercador.
Me disserm muita coisa. Até ninharia. Não me senti tocada, beliscada ou magoada.
Vais ver, ainda vou aprender a tocar piano. Ou música de serrote. Quem sabe até violino? Não 
sei solfejar e também não sei se algum dia tocarei uma música do princípio ao fim. Não sei 
se tocarei o teu coração. 
Mas enquanto toco e não toco, mesmo que a toque de caixa, tento. 
Tentar não custa e eu sou danada para cair em tentação. 
Oiço acordes, ensaio um som. Quem tem unhas é que toca ... piano.


hoje lembrei-me

carro da tifa

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

sábado, 12 de janeiro de 2013

recado para a kianda




Na madrugada nem sempre estamos sós, quando solitários que somos nos perdemos e encontramos por caminhos do coração e da introspecção. Num desses cruzamentos me disseram assim:
...desço para a nossa banda... algum recado para a kianda? 
E eu respondi:
" O meu recado para a kianda? 
- Me aguarde que eu volto. 
Quero de novo tocar o céu com a ponta dos dedos, com a palma das mãos, ser tocada pelo som, cheiro e sabor da nguimbi e resgatar a minha alma no mais puro estado de ser. 
Lá me quero permanecer, ficando, ficando até me acabar, para renascer. 
Diz na kianda, que um dia vou encontrar a minha placenta para sempre, sem alianças com este 
passado, mas num pacto de sangue com as minhas origens, raízes, amor e sonho de sempre. 
Ela sabe o que sinto..."
Na madrugada, nem sempre desejamos o dia. 
Há noites estreladas alumiando no meio do nevoeiro e das tempestades que nos acorrentam a 
alma a um corpo cansado, dorido e por vezes, muitas vezes, vezes demais, mal amado.
Na madrugada, encontramos a luz dos caminhos que buscamos nas setas que o destino nos coloca  na frente.
Na madrugada tudo se torna mais claro, limpo e puro. 
Há vozes que falam com o coração e desejos que se tornam a nossa razão.
Na madrugada a kianda escuta o meu recado que não é senão a voz da minha pele, do meu corpo e da minha alma, em união, lendo o que está escrito nos céus. 

alvorada


Cai a noite e a madrugada
Cai de cansaço
No sono profundo
Caiu a luz que ilumina o mundo
cairam os sonhos na alvorada
Renovo a vontade de prosseguir
Desenho um esboço do meu sorrir
E fantasio o meu acordar
Nasce a manhã que me vem salvar
Entrega-me o corpo e a alma também
E os desejos para cumprir
Dá-me a cor deste frio inverno
Dá-me agasalho e colo de mãe
E um abraço quente e terno
Caiem os fracassos por terra
E a vontade de desistir
Recupero a ambição
Para de novo partir
Nas asas da imaginação
É querer
Poder
E inspiração
É ser a viajante eterna
Dona da terra ao alcance da mão
Quando traço destinos
Na rota do coração
Caem gotas da chuva gelada
E o orvalho marca a flor
Cai por terra a minha dor
Resgato os sonhos na alvorada.


m.c.s.






The Wanted - Chasing The Sun

o prazer


foto tukayana.blogspot
O prazer de sentir prazer.
Uma ceia para aconchegar o estômago e a alma.

divagando, ou não

Quando esqueceres de lembrar que alguém te esqueceu, estás esquecendo o fundamental.
Que tens de te lembrar, sempre, de esquecer quem não te lembra mais.
Digo eu, que ponho marcas nos anéis, para não esquecer das marcas que me lembram alianças esquecidas
.

m.c.s.

divagando

Esquecer, não esquecer...eis a questão!
Se esquecerem na memória, que te lembrem no coração.
Digo eu que acho que memória é irmã gémea do coração.

m.c.s.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

constatando ainda

Não morres apenas quando te perdes das memórias.
Mas se outros perdem a memória de ti.
Digo eu que morro de medo que se esqueçam de mim.

m.c.s.

constatando

Memória é como o coração. Quando pára de funcionar, morres para a vida.
Digo eu, que morro de medo de a perder.

m.c.s.

sábado, 5 de janeiro de 2013

viajando no tempo


É em dias assim como o de hoje, logo pela manhã, o sol a beijar-me os olhos, a música a tocar-me a alma embalando-me o silêncio, quebrado pela rádio, a caminho de Lisboa, que eu, pessoa tranquila em viagem, me vejo eternamente viajante. A viajante.  Sempre desejando partir e chegar. E ficar, ficar, ficar...
Ficar-me preguiçosmente, nesse intervalo que vai de um ponto a outro da viagem. 
É nesse momento que me sinto verdadeiramente viajante. 
É nesse tempo de liberdade, introspeção e observação que eu me encontro e me perco em sonhos, questões e soluções. Balanços e projectos. 
É nesse monólogo rico em inspiração para a minha vida futura que me inquieto, aquieto e me viajo.
É esse, um tempo verdadeiramente meu. A viagem...
É em dias assim como o de hoje, enquanto sigo, olhando terras de Ribatejo, terras ensopadas pelas chuvadas recentes, cegonhas voando,o Tejo correndo veloz para o mar, o verde mais verde, o céu azul, mais azul, a lua pela metade, os viadutos e pontes que nos levam para sul, que mais viajante me sinto. Na contradição de a tudo me agarrar, criar raízes e deixar-me prender e ao mesmo tempo soltar-me e desejar mundo; ver e sentir o mundo, sair, fugir, partir e chegar. Talvez porque mais do que tocar a meta o que vale mesmo é percorrer o caminho que me leva à meta. Esse tempo da viagem. A idéia de...
Páro de escrever. De olhar o horizonte. O Ribatejo e o seu encanto. Estou perto de Vila Franca. Onde o cimento põe fim à minha vontade de ser feliz. Sonhadora.
Tiro um livro do saco. Os Transparentes, de Ondjaki. Abro-o. E leio " acabou o tempo de lembrar, choro no dia seguinte as coisas que devia chorar hoje "
Sinto um nó no estômago. Lembro-me da Gina. Que vai a enterrar hoje. 
Não chorei ontem quando soube que partira numa viagem sem regresso. A sua derradeira viagem. Ou talvez não. Nunca o saberemos. Os crentes acreditam na ressurreição.
Volto a ler, " acabou o tempo de lembrar... Choro..."
Uma lágrima insiste em brilhar. Como uma estrela, cintila. Não a seguro. Deixo-a livre. Hoje já é o dia seguinte.
O escritor sabe o que sente e o que deve escrever. Como deve escrever.
Gosto de escritores. De palavras. De intenções.
Adivinho uma bela viagem a bordo da leitura deste livro, presente de filha.
Adivinho uma escrita que me há-de fazer feliz.
Ficaram-me as palavras " acabou o tempo de lembrar...".


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

hoje fiquei triste

foto tukayana.blog.spot
Hoje fiquei triste. A Gina Reis partiu. Soube-o há pouco.
A Vila Alice perdeu uma filha. Os amigos dos meus pais, Belmiro e Arlésia, perderam a sobrinha, o Nené e a  Maria João, perderam a prima.
Já não vou comentar as publicações da Gina. Nem ela vai colocar likes nas minhas publicações. Não nos veremos mais nos almoços dos antigos moradores da Vila Alice.
Hoje fiquei muito triste.
Paz à tua alma, Gina.  

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

desculpa, mas tinha de fazer isto


Há poucos dias e a propósito de uma publicação minha, o meu amigo Luis da Silva, amigo de sempre, pois desde que nasci me lembro dele, ali do largo Camilo Pessanha, na Vila Alice, escreveu este comentário :
- " Grato pela tua atenção, mas sendo filha de quem és não era de esperar outra coisa, pois teu pai além da atenção que dispensava aos adultos nunca esquecia a rapaziada, outros tempos outras gentes, xi-coração ."
Precisava partilhar este comentário porque são palavras destas, intenções assim, carregadas de respeito e admiração, saudade e gratidão que me fazem feliz, quando invocam os meus entes queridos.
Fiquei de lágrima no olho, orgulho do sô Santos e gratidão no coração. Fiquei de alma lavada.
O meu pai é um dos seres que eu mais admirei na vida e perceber que ficou no coração deste amigo e também noutros, pois são muitas as pessoas daquele tempo da avenida Brasil e Vila Alice que o manifestam, faz-me imensamente feliz.
Sô Santos, que veio para Portugal com uma mão vazia e outra cheia de nada, mais do que ter, regia a sua vida por ser. Passou-nos isso e nós ( filhos ) passamos aos seus netos.
Bem hajas Luís por me trazeres memórias tão boas das minhas pessoas que já não estão entre nós. Da minha mãe e do meu avô Carvalho também. 
Gosto sempre de me encontrar contigo porque renovo-me e renovo os laços que nos prendem e ao passado também.
Foram outros tempos, sim. Foram outras pessoas, sim. Ficámos nós para lhes fazermos jus.
Obrigada meu kamba que sempre gostas de dizer que andaste comigo ao colo. Se calhar andaste mesmo. Mas hoje, cada vez que me falas das minhas pessoas com esse sentimento que perdura para além dos tempos e da distância, dás-me um colo, do tamanho do universo.
Beijos e um Ano de 2013 feliz.



terça-feira, 1 de janeiro de 2013

a nós


A mim.
A ti.
A nós.
A vós...
Não, a eles. 
Apesar de estar cheia de boas intenções de ser melhor pessoa,  neste ano que agora iniciou, 
não sou capaz de dar a outra face porque não tenho cara de pau.
Digo eu que nunca me escondo e  não gosto do  ditado  que  diz que quem  vê caras  não  vê 
corações, pois que o rosto é o espelho da alma.
E não gosto dos caras de c. à paisana, que me têm feito tantas rugas à cara, tanto ferimento 
na alma e tanto vazio na bolsa. 
Ah, e não gosto do ditado que  diz   que quanto mais  me bates mais gosto de ti,  até  porque 
nunca gostei de levar chapadas no rosto. Sobretudo de luva branca...

o papel principal




Se se sonha com força e ambição, se se quer muito ser alguém, se se sabe dizer sim e ouvir não e se sorri para o que aí vem, não há leis, vozes, ousadias, silêncios, bolas de cristal, cartas, nem milongos manhosos, ou kimbandas de fama, que nos desviem da estrada que o nosso querer desconfia e determina. 
Não há medidas nem pesos que nos derrubem e nos percam de nós. E nos aniquilem. 
Para este ano que agora começou, muito jogo de cintura e um enorme talento para que façamos de nós, com muita lucidez, uns verdadeiros artistas. 
Para que convertamos em papel secundário o papel principal desta crise, jogando-a para os bastidores d'um palco grandioso e maravilhoso, que é a vida que temos para viver e é única. 
Luz à sala! O espetáculo já começou. 
De cena quem é de cena!